
Parte 2
Doutor Henrique não respondeu imediatamente. Quando falou, sua voz ficou profissional. — Você tem certeza? — Tenho. Quero revogar a procuração de voto e voltar a exercer diretamente os direitos das minhas ações. — Então precisamos fazer tudo corretamente. Nada de decisões impulsivas.
Eu conhecia aquela documentação tão bem quanto ele. Quando a empresa começou a crescer, 60% das ações haviam permanecido legalmente em meu nome. Rafael administrava a companhia porque eu lhe dera poderes para me representar nas decisões societárias enquanto me afastava da operação cotidiana. Eu nunca deixara de ser acionista majoritária. Apenas confiara nele.
— Quero a revogação formalizada e comunicada à companhia — disse. — E quero uma reunião extraordinária dentro do que for possível fazer regularmente. Henrique respirou fundo. — Vou revisar o estatuto, o acordo entre acionistas e os registros antes de qualquer movimento. Se estiver tudo como você diz, fazemos isso sem atalhos.
Na manhã seguinte, eu já estava no prédio antes de Rafael. Henrique e o jurídico da companhia haviam confirmado os registros, as participações e a revogação da representação. Os acionistas e administradores que precisavam participar foram comunicados, e a reunião foi organizada com o quórum necessário. Não havia truque. Havia documentos que Rafael havia assinado e esquecido de respeitar.
Quando ele chegou carregando caixas de bombons, o diretor de RH praticamente correu até ele. Eu acompanhei a cena pela tela interna da sala. Rafael ouviu que minha representação tinha sido encerrada e que eu estava exercendo diretamente os direitos dos meus 60%. A cor desapareceu do rosto dele.
Minutos depois, a porta da sala de reuniões se abriu com violência. Rafael entrou primeiro. Lívia veio logo atrás, ainda segurando uma das caixas. — O que você está fazendo? — ele perguntou. Fechei a pasta que estava lendo. — Participando de uma empresa da qual sou acionista majoritária.
— Para com isso, Marina. — Ele apontou para os outros presentes. — Isso é assunto nosso. — Não. Nosso divórcio é assunto nosso. A governança desta companhia é assunto dos acionistas e dos administradores.
Lívia olhou de mim para Rafael. — Você disse que a empresa era sua. Rafael virou o rosto para ela. — E é. — Não exatamente — respondi. — Você administrava a participação que eu lhe permitia representar. São coisas diferentes.
Rafael bateu a mão na mesa. — Durante todos esses anos fui eu que toquei esta empresa. — E ninguém está apagando seu trabalho. Mas trabalhar como executivo não transforma automaticamente ações de outra pessoa em suas.
A expressão dele se endureceu. — Você preparou isso escondida. — Não. Nós preparamos isso juntos dez anos atrás. A única coisa que fiz ontem foi parar de fingir que aquele documento não existia.
Houve um silêncio pesado. Um dos conselheiros baixou os olhos para os papéis. Lívia largou a caixa de bombons sobre uma cadeira, já sem qualquer vontade de distribuí-los.
Rafael se aproximou de mim. — Então o divórcio era uma armadilha? — Não. O divórcio foi sua decisão. Revogar uma procuração sobre minhas ações foi a minha.
Ele riu sem humor. — Você quer se vingar porque escolhi outra mulher. — Se fosse vingança, eu misturaria nosso casamento com as contas da empresa. É justamente isso que não vou fazer.
Pedi que todos retomassem seus lugares. A reunião continuaria, e a primeira providência seria revisar os poderes executivos, separar claramente decisões societárias de decisões pessoais e impedir que qualquer administrador tratasse a companhia como extensão de sua vida particular.
Rafael permaneceu em pé. — E você acha que consegue administrar tudo isso de uma hora para outra? Levantei os olhos para ele. — Não preciso administrar tudo sozinha. Preciso garantir que ninguém mais administre 60% do que é meu como se eu não existisse.
Foi naquele instante que a raiva dele cedeu lugar a outra coisa. Pela primeira vez desde que me entregara o acordo de divórcio, Rafael pareceu compreender que eu não estava tentando impedir que ele fosse embora. Eu já tinha aceitado que ele fosse. O que eu não aceitaria era desaparecer junto com o casamento.
E quando ele puxou uma cadeira e finalmente se sentou, percebi que nossa discussão já não era sobre quem ele escolhera amar. Era sobre tudo o que ele acreditara poder levar consigo.
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