
Parte 3
A reunião terminou perto do meio-dia sem nenhuma cena cinematográfica. Ninguém foi algemado, nenhuma conta bancária foi bloqueada e Rafael não perdeu o cargo com uma frase minha. O que aconteceu foi mais simples e, para ele, talvez mais difícil de aceitar: os limites voltaram a existir.
Os poderes que ele exercia em meu nome estavam formalmente revogados. Decisões estratégicas que antes passavam apenas pela assinatura dele voltariam a seguir os órgãos da companhia e as regras internas. Qualquer mudança na direção precisaria ser discutida pelos responsáveis competentes. Eu tinha 60% das ações, não uma varinha mágica.
Quando os outros deixaram a sala, Rafael permaneceu.
Lívia esperava junto à porta.
— Quero falar com minha esposa — ele disse.
— Ex-esposa em processo de separação — corrigi.
Ele fechou os olhos, irritado.
Lívia hesitou.
— Rafael…
— Espera lá fora.
Ela ficou vermelha, mas saiu.
Ele caminhou até a janela.
Durante dez anos, eu aprendera a identificar o estado de espírito dele pela maneira como se movia. Quando estava preocupado, apertava os lábios. Quando estava prestes a explodir, enfiava as mãos nos bolsos para evitar gesticular.
Naquele momento, fez as duas coisas.
— Você sabia desde o início que podia fazer isso.
— Sim.
— E nunca falou nada.
— Você também sabia.
Rafael virou-se depressa.
— Eu não lembrava daquela estrutura desse jeito.
— Essa frase diz muito mais sobre você do que sobre mim.
Ele passou a mão pelo rosto.
Quando criamos a companhia, nenhum de nós tinha certeza de que ela sobreviveria. Eu colocara dinheiro, trabalhara sem salário durante meses, negociara com fornecedores, ajudara a montar os primeiros controles financeiros e assumira riscos ao lado dele. À medida que o negócio crescera, Rafael se tornara o rosto público da empresa.
Eu preferira me afastar da gestão diária.
Não porque fosse incapaz.
Porque confiava nele.
Para facilitar a operação, concedi uma procuração de voto vinculada às minhas ações dentro dos limites previstos nos instrumentos societários. Era uma solução prática entre duas pessoas que, naquela época, acreditavam que continuariam tomando as decisões importantes juntas.
Com o passar dos anos, a praticidade virou costume.
Depois, o costume virou invisibilidade.
— Você nunca demonstrou interesse em voltar — Rafael argumentou.
— Então concluiu que minhas ações tinham virado suas?
— Não foi isso que eu disse.
— Mas foi assim que você agiu ontem.
Ele me encarou.
— Ontem eu estava resolvendo nosso casamento.
— E quando eu perguntei sobre a empresa, você respondeu que aquilo não me dizia respeito.
Rafael ficou sem resposta.
Não levantei a voz.
Eu não precisava.
— Você confundiu meu silêncio com ausência, Rafael.
Ele se aproximou.
— O que você quer?
A pergunta me surpreendeu mais do que qualquer acusação.
— Agora?
— Sim. Você quer me tirar da presidência? Quer me expulsar? Quer colocar alguém no meu lugar só para me humilhar?
Balancei a cabeça.
— Quero entender a situação da companhia antes de decidir qualquer coisa.
— Você está dizendo que vai investigar meu trabalho?
— Estou dizendo que uma acionista que voltou a exercer diretamente 60% dos votos tem obrigação de saber como a empresa está sendo administrada.
Ele riu, amargo.
— Então é isso. Você vai transformar tudo numa guerra.
— Não. Guerra seria eu tentar destruir uma empresa que também é minha.
Lívia apareceu novamente na porta.
— A diretoria comercial está esperando Rafael.
Ela evitou olhar para mim.
Rafael assentiu, mas antes de sair apontou para a minha bolsa.
— Você vai descontar aquele cheque?
Pensei antes de responder.
— Não antes de meu advogado revisar o acordo inteiro.
— Eu dei aquele dinheiro para você.
— Você chamou de compensação por dez anos de casamento. Isso não é uma categoria jurídica. Então, antes de movimentar qualquer valor, vou saber exatamente o que estou assinando e recebendo.
O maxilar dele travou.
— Você está dificultando tudo.
— Estou começando a ler o que antes assinava confiando em você.
Foi a primeira mudança real daquele dia.
Rafael percebeu que eu não seria empurrada de uma decisão para outra apenas porque ele tinha pressa.
A segunda aconteceu poucas horas depois.
Pedi acesso aos relatórios que qualquer acionista na minha posição poderia examinar e marquei reuniões com as áreas responsáveis. Não procurava um crime escondido. Não queria descobrir desvio, fraude ou qualquer escândalo milagroso que resolvesse minha vida.
Eu só queria voltar a conhecer a empresa que ajudara a construir.
O diretor financeiro me explicou os principais contratos, compromissos e projeções. A responsável por Recursos Humanos apresentou a estrutura das equipes. Alguns executivos pareciam desconfortáveis por me ver ali; outros demonstravam curiosidade.
Um gerente antigo parou diante de mim no corredor.
— Dona Marina?
— Só Marina.
Ele sorriu.
— Faz tempo que a senhora não aparece por aqui.
— Faz.
— Eu estava no primeiro escritório.
Eu me lembrava dele.
Não precisei que dissesse mais nada.
Naquele momento compreendi algo que mudaria minha postura nos dias seguintes: eu não precisava provar que havia existido. Precisava decidir o que faria a partir dali.
No fim da tarde, Henrique trouxe a revisão preliminar do acordo de divórcio.
Sentamo-nos em uma sala pequena.
— O cheque não substitui automaticamente uma partilha patrimonial — explicou. — E a situação das ações precisa ser tratada conforme a documentação societária e o regime patrimonial do casamento. Não assuma nada além do que já assinou sem revisar.
— O que eu assinei ontem?
Ele passou o dedo pelas páginas.
— Uma manifestação sobre a dissolução e algumas condições propostas. Mas ainda existem pontos que precisam ser formalizados corretamente. Não entregue seus direitos por cansaço.
Aquela frase me atingiu.
Por anos, eu havia confundido paz com ausência de conflito.
Naquela noite, Rafael me encontrou saindo do elevador da garagem.
Não estava com Lívia.
— Marina.
Parei.
— Quero que você volte para casa. Precisamos conversar sem advogado, sem conselho, sem funcionário olhando.
— Sobre o quê?
Ele demorou.
— Sobre como chegamos até aqui.
Segurei a alça da bolsa com mais força.
Na véspera, eu teria dado tudo para ouvir aquela pergunta.
Agora ela chegava tarde demais para ser simples.
— Nós podemos conversar — respondi. — Mas conversar não significa voltar atrás.
A expressão dele mudou.
Foi então que Rafael percebeu a terceira coisa que tinha perdido.
Não era a representação das minhas ações.
Era a certeza de que, no fim de qualquer discussão, eu continuaria esperando por ele.
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