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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Rafael chegou ao apartamento quarenta minutos depois de mim.

Pela primeira vez desde que me entregara os papéis, entrou sem a postura de quem já tinha todas as respostas. Tirou o paletó, colocou-o no encosto de uma cadeira e permaneceu alguns segundos olhando para a sala.

Era a mesma sala onde encerrara nosso casamento.

O cheque de R$ 8 milhões continuava dentro da minha bolsa.

— Quer café? — perguntei.

Ele quase sorriu.

— Você está me oferecendo café agora?

— Estou tentando ter uma conversa civilizada.

— Você sempre faz isso.

— Isso o quê?

— Fica calma quando eu estou perdendo a cabeça.

Servi apenas para mim.

Rafael sentou-se.

— Quando você decidiu usar aquelas ações contra mim?

Apoiei a xícara na mesa.

— Pare de chamar de “usar contra você”. Elas não são uma arma.

— Você sabe o que quero dizer.

— Decidi voltar a exercer meus direitos depois que você me disse que a companhia não era problema meu.

Ele passou as mãos pelo rosto.

— Eu estava irritado.

— Não. Você estava confortável.

Rafael me encarou.

— Qual é a diferença?

— Irritação passa. Conforto revela o que a pessoa acredita.

Ele permaneceu quieto.

Expliquei que não pretendia desmontar a companhia, demitir pessoas por ressentimento nem transformar funcionários em espectadores do nosso divórcio. Também deixei claro que eu não renovaria a procuração anterior.

— Então você nunca mais vai me deixar administrar suas ações?

— Não da maneira como fazia antes.

— Por causa de Lívia?

— Por causa de você.

Aquilo o feriu.

Eu vi.

Mas não retirei as palavras.

— Você acha que eu traí apenas nosso casamento — continuei. — Não foi só isso. Durante anos, eu lhe entreguei confiança sobre algo que também construí. Ontem você falou comigo como se eu fosse uma desconhecida que precisava receber dinheiro e desaparecer.

— Eu não disse para você desaparecer.

— “Pega o dinheiro e vive sua vida.” Lembra?

Ele desviou o olhar.

A conversa não terminou com pedido de desculpas nem reconciliação.

Terminou com uma decisão prática.

Rafael sairia do apartamento naquela semana. Até que a separação estivesse organizada, evitaríamos discussões sobre patrimônio sem nossos advogados. Na empresa, qualquer tema seria tratado profissionalmente.

Dizer aquilo doeu.

Mas dor e dúvida já não eram a mesma coisa.

Na manhã seguinte, encontrei Lívia no corredor da presidência.

Ela segurava uma pasta contra o peito.

— Marina, podemos conversar?

Parei.

— Se for sobre trabalho, sim.

— É sobre tudo.

— Então seja breve.

Lívia respirou fundo.

— Eu não sabia que você tinha 60%.

— Acredito.

Ela arregalou os olhos, talvez esperando sarcasmo.

— Rafael sempre falava como se…

— Como se a companhia fosse exclusivamente dele.

Ela assentiu.

— E você acreditou.

— Ele era o presidente.

— Isso explica sua percepção. Não explica o que aconteceu entre vocês.

O rosto dela ficou vermelho.

— Eu não vim pedir desculpa.

— Ótimo. Eu também não pedi.

Ela apertou a pasta.

— Só quero saber se você vai me demitir.

Ali estava uma escolha importante.

Seria fácil dizer sim.

Fácil e emocionalmente satisfatório.

Mas eu não tinha voltado à companhia para provar que poderia usar o poder da mesma forma que Rafael.

— Seu vínculo profissional será analisado como o de qualquer outro funcionário — respondi. — Se houver questão relacionada ao seu desempenho, a área responsável vai tratar disso.

— E nosso relacionamento?

— Seu relacionamento com Rafael não lhe dá autoridade na empresa. Também não será usado por mim como desculpa para inventar uma falta profissional que não exista.

Ela ficou me olhando.

— Você não me odeia?

— O que eu sinto por você não precisa constar em nenhuma decisão de Recursos Humanos.

Passei por ela.

Naquele mesmo dia, descobri que Rafael havia anunciado informalmente a alguns executivos que Lívia teria uma posição mais relevante depois do casamento.

Não existia aprovação para isso.

Não havia decisão do conselho.

Não havia processo interno.

O problema deixou de ser apenas pessoal.

Chamei Rafael.

Ele entrou na sala já irritado.

— Agora o que foi?

Coloquei diante dele um resumo das comunicações recebidas pelo RH.

— Você prometeu uma função executiva a Lívia?

— Eu disse que ela teria mais responsabilidade.

— Em qual cargo?

— Ainda não estava definido.

— Então não deveria ter sido anunciado.

Rafael cruzou os braços.

— Você quer controlar até quem eu promovo?

— Não. Quero que a companhia siga o próprio processo.

— Antes ninguém reclamava.

— Antes você controlava meus votos.

Ele caminhou até a janela.

— Você está mudando as regras no meio do jogo.

— As regras sempre existiram. Nós é que deixamos você agir como se não existissem.

No fim daquela tarde, os demais administradores concordaram que qualquer alteração relevante de cargo ou remuneração passaria pelos procedimentos internos previstos. Não era uma punição contra Lívia. Era a interrupção de uma prática informal que Rafael tratava como normal.

Essa foi a primeira consequência concreta da nova estrutura.

A segunda veio quando ele percebeu que alguns diretores que costumavam concordar automaticamente com suas decisões começaram a pedir documentos, justificativas e registro formal.

Ninguém havia se tornado meu aliado.

Eles apenas perceberam que existia outro centro legítimo de poder.

Rafael odiou aquilo.

Nas semanas anteriores, ele havia imaginado a vida após nosso casamento como uma transição simples: eu sairia, Lívia entraria, e todo o restante permaneceria no mesmo lugar.

Agora cada peça se movia.

Ao anoitecer, ele apareceu na porta da minha sala.

— A gente precisa parar com isso antes que afete a empresa.

— Concordo.

Ele pareceu surpreso.

— Então devolve a procuração.

Quase ri.

— Você realmente não entendeu.

— Marina…

— Separar nossa vida pessoal da companhia significa justamente não devolver a você o controle automático sobre algo que é meu.

Rafael ficou parado.

— Eu construí essa empresa.

Levantei-me.

— Nós construímos.

Dessa vez, ele não me corrigiu.

E quando saiu, deixou a porta aberta.

Do outro lado do corredor, vi Lívia observando-o.

Ela havia começado a entender que o homem que prometera uma nova vida para ela também lhe prometera uma empresa que nunca lhe pertencera por inteiro.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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