
PARTE 6
Meu apartamento novo tinha poucos móveis quando entrei pela primeira vez. Havia uma mesa pequena, um sofá simples e caixas empilhadas perto da parede. Ainda assim, senti mais tranquilidade naquele espaço incompleto do que havia sentido em meses na casa que compartilhei com Henrique.
A negociação do divórcio continuava.
Lívia havia separado os gastos questionados em três grupos: aqueles claramente pessoais de Henrique, aqueles que precisavam de mais documentação e os que faziam parte das despesas normais do casamento. Isso eliminou exageros e tornou a conversa mais difícil de desviar.
Henrique não gostou.
Em uma reunião entre os advogados, reclamou que estávamos “transformando cada jantar em uma acusação”.
Lívia respondeu com calma:
— Ninguém está discutindo cada jantar. Estamos discutindo despesas específicas que foram ocultadas e que tiveram impacto financeiro identificável.
Eu permaneci em silêncio até chegar o momento de decidir.
Alguns valores eram pequenos em comparação ao patrimônio total e não justificavam meses de conflito. Outros eram altos demais para simplesmente ignorar.
Escolhi quais pontos valiam a pena manter.
Essa escolha surpreendeu até Henrique.
Mais tarde, ele me mandou mensagem:
“Você abriu mão de várias coisas.”
Respondi:
“Não quero tudo. Quero o que considero justo.”
Ele demorou a responder.
“Você sempre foi assim.”
Por alguns segundos, tive vontade de escrever que ele só estava percebendo porque, pela primeira vez, minha ideia de justiça não o beneficiava automaticamente.
Apaguei a mensagem antes de enviar.
Nem toda verdade precisava virar discussão.
A mãe de Henrique enviou uma carta curta pelo correio. Não havia desculpa completa. Ela dizia que estava nervosa naquela noite, que tinha medo de perder o filho e que talvez tivesse falado “de maneira exagerada”.
No final, escreveu:
“Mas ainda acredito que uma esposa deveria ficar ao lado do marido quando ele está doente.”
Li duas vezes.
Depois guardei a carta em uma pasta.
Não respondi.
Ela tinha direito às próprias crenças.
Eu apenas não precisava mais viver de acordo com elas.
Poucos dias depois, encontrei Mariana pela primeira vez desde o hospital.
Aconteceu por acaso.
Eu havia ido buscar um documento na recepção administrativa do hospital porque alguns registros necessários ainda estavam vinculados aos dados antigos do casal. Quando saí do elevador, ela estava no corredor.
Mariana parou.
Eu também.
Ela parecia menos segura do que naquela noite.
— Clara…
— Mariana.
Ela segurava uma pasta contra o peito.
— Eu soube que vocês estão se divorciando.
— Imagino.
— Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto.
Olhei para ela.
— Qual ponto?
Mariana pareceu desconfortável.
— O casamento de vocês.
— Meu casamento não terminou porque você quis ou deixou de querer alguma coisa.
Ela franziu os lábios.
— Eu nunca pedi para o Henrique largar você.
— Eu sei.
A resposta pareceu desarmá-la.
— Então você entende…
— Entendo que ele fez escolhas. E você também.
Mariana desviou o olhar.
— Ele não fala mais comigo fora do hospital.
— Isso é assunto entre vocês.
Comecei a caminhar.
Ela me chamou.
— Clara.
Parei.
— Eu paguei aquela internação porque você me constrangeu na frente de todo mundo.
Virei-me.
— Você regularizou a parte que se comprometeu a pagar porque ele havia se machucado por você.
— Você fez parecer que eu era uma pessoa horrível.
— Eu não fiz nenhuma descrição sobre você naquela noite.
Mariana ficou sem resposta.
— Eu apenas parei de assumir o que você não queria assumir.
Entrei no elevador.
A porta se fechou antes que ela dissesse mais alguma coisa.
Quando contei o encontro a Lívia, ela me perguntou se Mariana havia feito qualquer ameaça ou mencionado algo relevante ao processo.
— Não.
— Então deixe fora do divórcio.
Concordei.
Aquela decisão foi importante.
Durante algum tempo, eu tinha enxergado Mariana como o centro de tudo. Era mais fácil odiar uma mulher específica do que encarar seis anos de padrões construídos entre mim e Henrique.
Mas Mariana não havia feito meus votos de casamento.
Henrique havia.
E eu também.
Na semana seguinte, recebemos uma nova proposta de acordo.
Dessa vez, Henrique aceitava compensar parte dos gastos comprovadamente feitos com recursos compartilhados e concordava com a divisão dos bens nos termos sugeridos pelos documentos do casamento.
Ainda existiam dois pontos em disputa.
Um deles envolvia o imóvel.
O outro, investimentos feitos durante a união.
Não havia solução instantânea.
Marcamos uma nova rodada de negociação.
Henrique pediu que eu comparecesse pessoalmente.
Aceitei.
Na sala de reuniões, ele estava sentado ao lado do advogado.
Pela primeira vez desde o início de tudo, nós dois falávamos sobre dinheiro sem fingir que o problema era apenas dinheiro.
— Eu quero ficar com o apartamento — disse Henrique.
— Tudo bem, desde que minha parte seja compensada corretamente.
Ele levantou os olhos.
— Você não quer voltar para lá?
— Não.
A palavra saiu sem hesitação.
Foi naquele instante que percebi o quanto eu havia mudado.
Meses antes, aquele apartamento representava estabilidade.
Agora era apenas um imóvel.
Depois de algumas contas e contrapropostas, chegamos a uma base possível para a compensação.
Ainda precisaria ser formalizada.
Mas um dos maiores pontos de conflito estava encaminhado.
Quando a reunião terminou, Henrique permaneceu sentado.
Eu já estava na porta quando ele perguntou:
— Você está feliz?
Pensei antes de responder.
— Ainda não sei.
Ele baixou os olhos.
— Mas estou tranquila.
Essa resposta era mais verdadeira.
Eu não precisava transformar o fim do casamento numa história de vingança nem provar que minha nova vida era maravilhosa.
Bastava que ela fosse minha.
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