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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Olhei para o passaporte na minha mão enquanto a mãe de Henrique continuava falando do outro lado da ligação. Durante seis anos, eu havia explicado, cedido, esperado e tentado não transformar qualquer problema em uma guerra. Naquela madrugada, porém, não senti vontade de discutir. Apenas disse que precisava desligar e encerrei a chamada.

Enviei a gravação para Lívia junto com as fotos dos recibos encontrados no paletó. Ela não prometeu milagres nem afirmou que tudo serviria como prova de alguma coisa. Disse apenas que organizaríamos os documentos, separaríamos o que era relevante para uma eventual dissolução do casamento e preservaríamos registros financeiros que não poderiam ser recuperados facilmente depois. Foi exatamente a resposta que eu precisava.

Passei a madrugada separando minhas coisas pessoais. Não toquei em objetos de Henrique nem retirei dinheiro de contas comuns. Mudei apenas as senhas das minhas contas individuais, salvei cópias de documentos e deixei com Lívia uma relação do que havia encontrado. Pela primeira vez em muito tempo, minhas ações não tinham como objetivo evitar a irritação de alguém.

Meu voo para Paris sairia no começo da manhã. Não era uma fuga definitiva nem uma mudança secreta de vida. Eu precisava de distância suficiente para pensar sem a mãe de Henrique à minha porta, sem Mariana chorando no corredor e sem meu marido transformando mais uma vez minha paciência em obrigação. Coloquei a mala no carro e saí antes do amanhecer.

No caminho para o aeroporto, Henrique ainda estava sob observação pós-operatória. Recebi duas mensagens do hospital informando que o quadro permanecia estável, porque eu ainda constava como contato familiar. Respondi que estava ciente e pedi que qualquer decisão médica importante fosse comunicada também à família dele. Não abandonei um paciente; deixei de ocupar um papel que todos já tinham decidido que seria exclusivamente meu.

Quando o avião decolou, desliguei o celular. Pela janela, São Paulo foi ficando menor até desaparecer sob as nuvens. Eu não chorei. O que senti foi um cansaço tão antigo que parecia ter morado comigo durante anos sem que eu percebesse.

Na manhã seguinte, Henrique acordou mais lúcido. Seu melhor amigo foi visitá-lo e encontrou a cadeira do acompanhante vazia. Mariana havia passado parte da noite no hospital, mas fora embora para tomar banho e descansar. A mãe dele ainda não tinha chegado.

— E a Clara? — Henrique perguntou.

O amigo hesitou antes de responder.

— Ouvi dizer que ela embarcou para Paris ontem à noite.

Henrique franziu a testa.

— Paris?

— Parece que sim.

O monitor ao lado da cama começou a apitar com mais frequência. O amigo chamou a enfermagem, e Henrique precisou controlar a respiração antes que a frequência cardíaca baixasse novamente. Mesmo debilitado, ele pediu o celular.

Quando liguei meu telefone depois de pousar, havia onze chamadas perdidas. Quatro eram de Henrique, três da mãe dele e as outras vinham de números do hospital. Também havia mensagens de Mariana perguntando onde eu estava e dizendo que Henrique estava “muito abalado”.

Não respondi a nenhuma delas imediatamente. Fui para o pequeno hotel que havia reservado, tomei banho e dormi por algumas horas. Ao acordar, encontrei uma mensagem de Lívia: “Antes de responder, decida qual limite você quer estabelecer. Depois mantenha esse limite.”

Fiquei alguns minutos olhando para aquelas palavras. Era uma pergunta simples, mas ninguém havia me feito aquilo nos últimos anos. Sempre me perguntavam o que Henrique precisava, o que a mãe dele esperava ou o que seria mais conveniente para manter a paz.

Abri a conversa com meu marido e escrevi: “Estou bem. Você está sendo acompanhado pela equipe médica e sua família foi avisada. A partir de agora, prefiro que assuntos práticos entre nós sejam tratados por mensagem. Questões patrimoniais serão discutidas com minha advogada.”

Ele respondeu quase imediatamente: “Clara, que história é essa de advogada?”

Depois: “Você foi mesmo para Paris?”

E, por fim: “Volta. A gente conversa quando eu sair daqui.”

Li as três mensagens sem sentir a urgência que ele provavelmente esperava provocar. Durante anos, “a gente conversa depois” tinha significado que eu aguardaria até o momento mais conveniente para ele. Dessa vez, respondi apenas: “Conversaremos quando for necessário.”

Enquanto isso, Lívia começou a organizar os documentos. As fotos dos recibos não provavam sozinhas tudo o que eu imaginava, mas mostravam gastos que precisavam ser confrontados com os extratos do período. Como parte da nossa vida financeira havia sido compartilhada, ela recomendou que eu reunisse documentos aos quais eu já tinha acesso legal e evitasse qualquer movimentação precipitada.

No fim daquele dia, Henrique mandou outra mensagem: “Você está fazendo isso por causa da Mariana?” Fiquei olhando para a tela e percebi que aquela pergunta resumia perfeitamente o nosso casamento. Para ele, o problema precisava ser uma mulher específica, uma facada específica ou uma discussão específica. Era mais difícil admitir que a questão estava no modo como ele havia me tratado durante anos.

Escrevi: “Estou fazendo isso por minha causa.”

Dessa vez, Henrique não respondeu durante várias horas.

Foi a primeira mudança concreta entre nós. Eu não tinha pedido permissão para ir embora, não tinha prometido voltar para cuidar dele e não estava negociando minha decisão com sua mãe. Pela primeira vez, Henrique precisaria atravessar as consequências de uma escolha sem contar automaticamente comigo para amortecer o impacto.

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