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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Minha sogra entrou primeiro.

Não me cumprimentou.

Meu sogro veio logo atrás, mais contido.

Gustavo fechou a porta e permaneceu de pé.

Eu olhei para minha advogada.

A presença dos pais dele não fazia parte do combinado.

— Eles queriam conversar antes — explicou Gustavo.

— Conversar sobre quê?

Minha sogra respondeu:

— Sobre você não destruir de vez esta família.

Eu quase pedi que saíssem.

Mas percebi que talvez aquela fosse a última vez que eu ouviria todos juntos.

Decidi ficar.

— Pode falar.

Ela colocou a bolsa sobre a mesa.

— O Gustavo errou. Ninguém está negando.

Era a primeira vez que a ouvia dizer isso sem acrescentar imediatamente uma justificativa.

Mas ela continuou:

— Só que ele já devolveu dinheiro, assinou o acordo e está tentando consertar.

— O acordo conserta a dívida.

— E o casamento?

— Não.

Ela me olhou com indignação.

— Então nada basta para você?

Meu sogro mexeu-se na cadeira.

— Chega.

Minha sogra virou o rosto.

— O quê?

— Chega de colocar tudo nela.

A sala ficou quieta.

Ele olhou para mim.

— Eu também errei.

Não respondi.

— Naquela noite, quando o Gustavo pediu o dinheiro, eu ajudei a pressionar você. Eu disse que esposa tinha que apoiar o marido. Disse isso sem saber direito o que ele estava fazendo.

Minha sogra tentou interromper.

— Você não sabia!

— Justamente.

Ele voltou a olhar para mim.

— Eu não sabia e, mesmo assim, falei como se soubesse.

Não era um pedido dramático de perdão.

E talvez por isso tenha soado mais verdadeiro.

— Obrigada por dizer isso — respondi.

Minha sogra pareceu ainda mais irritada.

— Então agora todo mundo virou culpado menos ela?

Gustavo finalmente falou:

— Mãe, para.

Ela se virou para o filho.

— Eu estou tentando salvar seu casamento.

— Não dá mais.

A voz dele saiu baixa.

Minha sogra ficou imóvel.

— Como não dá?

Gustavo se sentou.

— Porque eu fui embora. Eu menti. Peguei o dinheiro dela. Eu fiz isso.

Minha sogra balançou a cabeça.

— Você estava confuso.

— Não. Eu estava decidido.

Aquilo foi importante.

Não porque revelasse algo novo para mim.

Mas porque era a primeira vez que Gustavo assumia a própria escolha diante dos pais sem tentar transformá-la em reação ao meu comportamento.

— Eu achei que ela fosse reclamar, que a gente fosse brigar e depois resolver — continuou. — Achei que meus pais ficariam no apartamento e que ela não teria coragem de mexer nisso. Eu achei um monte de coisas.

Minha sogra ficou pálida.

— Você deixou a gente lá de propósito?

Gustavo não respondeu imediatamente.

— Eu sabia que a Helena cuidaria de vocês.

Meu sogro fechou os olhos.

A mesma frase que eu já tinha ouvido agora pesava de outro modo quando dita diante deles.

Minha sogra parecia finalmente perceber que também tinha sido usada como parte da certeza do filho de que eu continuaria sustentando tudo.

— Então você foi embora e deixou seus pais para ela? — perguntou meu sogro.

— Eu não pensei assim.

— Mas foi o que aconteceu.

Gustavo baixou a cabeça.

Eu não senti prazer vendo aquela discussão.

Na verdade, senti cansaço.

A reunião tinha começado como uma tentativa de me pressionar e se transformado em algo diferente: uma família sendo obrigada a olhar para um padrão que durante anos tinha sido tratado como normal.

Minha sogra chorou.

Não de maneira teatral.

Sentou e cobriu o rosto.

Por um momento, senti compaixão.

Mas compaixão não era o mesmo que voltar atrás.

— Eu não quero que vocês briguem por minha causa — falei.

Meu sogro respondeu:

— Não é por sua causa.

Foi uma frase simples.

Talvez a mais justa que ele tivesse dito desde o começo.

Minha advogada trouxe a conversa de volta ao objetivo.

A documentação do divórcio estava pronta.

Os termos patrimoniais não envolviam o apartamento como bem comum.

A obrigação de restituição dos R$ 500 mil restantes já estava formalizada separadamente.

Não havia razão para prolongar a separação.

Minha sogra enxugou o rosto.

— Helena, eu fui injusta com você.

Olhei para ela.

Esperei.

— Eu achei que você segurava dinheiro porque não confiava na nossa família.

— Eu segurava porque precisava de segurança.

Ela assentiu devagar.

— Agora eu entendo.

Eu não disse “está tudo bem”.

Porque não estava.

Também não devolvi uma ofensa antiga.

Apenas respondi:

— Espero que entenda mesmo.

Depois que os pais saíram, Gustavo ficou.

Minha advogada perguntou se eu queria alguns minutos antes de continuarmos.

— Não precisa.

Ele olhou para mim.

— É a última chance, não é?

— Para quê?

— Para eu pedir que você não finalize.

— Pode pedir.

Gustavo pareceu surpreso.

— E você vai pensar?

— Não.

Ele soltou um sorriso triste.

— Então por que eu pediria?

— Porque você parece precisar dizer.

Ele ficou em silêncio por um longo tempo.

Depois falou:

— Eu queria voltar atrás.

Essa frase doeu.

Não porque eu quisesse o mesmo.

Doeu porque, durante muito tempo, eu teria feito qualquer coisa para ouvi-la.

Agora chegava tarde demais.

— Eu acredito que você queira — respondi.

— Mas?

— Mas querer voltar atrás não apaga o que aconteceu depois que você teve a chance de escolher.

Ele assentiu.

Nenhum grito.

Nenhuma ameaça.

Nenhuma promessa desesperada.

Só realidade.

A etapa final ficou marcada.

Ao sair, Gustavo parou perto da porta.

— Helena.

— Oi.

— Eu vou cumprir o acordo.

— Espero que cumpra por você também.

Ele pareceu confuso.

— Por mim?

— Porque passar a vida fugindo das próprias escolhas é uma forma muito ruim de viver.

Ele saiu.

Eu fiquei alguns minutos sozinha.

Parte de mim sentia tristeza.

Outra parte sentia alívio.

A última audiência seria na semana seguinte.

Depois dela, não haveria mais casamento para discutir.

Restaria apenas aquilo que cada um faria com a vida que sobrasse.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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