
Parte 2
A frase ficou entre nós como se tivesse encerrado a discussão a favor dele. Minha sogra cruzou os braços, satisfeita, enquanto meu sogro soltava um suspiro comprido. Eu continuei sentada, olhando para Gustavo, tentando entender por que uma garantia financeira parecia, para ele, uma ofensa maior do que pedir praticamente todas as minhas economias.
— Então vamos fazer diferente — eu disse. — Amanhã você me mostra os contratos e a gente assina o documento junto. Depois eu transfiro. Gustavo passou a mão pelo rosto e respondeu que precisava pagar uma entrada naquela mesma noite. Segundo ele, se o dinheiro não estivesse disponível pela manhã, o proprietário do ponto poderia fechar com outra pessoa.
Minha sogra imediatamente aproveitou. — Está vendo? É assim que se perde oportunidade. Por medo. Eu não respondi a ela. Olhei apenas para Gustavo e perguntei por que ele não tinha me avisado antes sobre esse prazo.
Ele se levantou e caminhou até a janela. Disse que pretendia resolver tudo sozinho, mas que o parceiro tinha mudado as condições no último momento. Quando se virou, seus olhos estavam úmidos. — Eu só queria provar que também consigo construir alguma coisa para nós.
Foi essa frase que me enfraqueceu. Não porque eu tivesse esquecido os anos anteriores, mas porque durante três anos eu realmente tinha esperado o dia em que ele assumiria mais responsabilidades. Peguei o celular e disse que faria a transferência, mas queria receber os documentos no dia seguinte.
Gustavo voltou rapidamente para a mesa. Sentou ao meu lado e segurou meus ombros. — Você não vai se arrepender. Eu prometo. Minha sogra murmurou que, finalmente, eu estava agindo como esposa.
Transferi R$ 900 mil para a conta de Gustavo. Antes de confirmar, reli o número três vezes. Quando o aplicativo mostrou “transferência realizada”, senti um desconforto pequeno e difícil de explicar, mas Gustavo beijou minha testa e disse que aquela seria a última vez que precisaria pedir dinheiro a mim.
Ele ficou carinhoso pelo restante da noite. Guardou a louça, preparou chá e até perguntou se eu queria assistir a alguma coisa antes de dormir. Eu disse que estava cansada. Já no quarto, perguntei novamente pelos contratos.
— Amanhã de manhã eu te mostro tudo — respondeu. — Prometo.
Acordei pouco depois das sete. O lado dele da cama estava frio. No começo, achei que tivesse saído cedo para encontrar o tal parceiro, mas a porta do guarda-roupa estava entreaberta e algumas roupas tinham desaparecido.
Peguei meu celular. Havia uma única mensagem enviada por Gustavo às 5h18: “Eu e ela nos amamos de verdade. Deixa a gente seguir em frente.” Li uma vez. Depois outra. Na terceira, as palavras já não pareciam uma frase; pareciam apenas peças de algo que eu ainda não conseguia encaixar.
Abri o aplicativo do banco. O dinheiro que eu tinha transferido na noite anterior continuava, naturalmente, fora da minha conta. Liguei para Gustavo. Chamou até cair. Tentei novamente. Ele desligou.
Não chorei. Talvez porque a dor ainda fosse grande demais para caber em lágrimas. Tomei banho, me arrumei e fui até a sala, onde meus sogros tomavam café sem saber — ou fingindo não saber — o que o filho tinha feito.
— Arrumem as coisas de vocês — eu disse. — Hoje vocês vão sair daqui. Minha sogra quase derrubou a xícara. Gritou que aquela era a casa do filho dela e que eu estava enlouquecendo porque um casal havia brigado.
Fui até o escritório e voltei com a matrícula do apartamento. Coloquei o documento sobre a mesa. — A casa nunca foi do Gustavo. Está somente no meu nome. Meu sogro leu a primeira página, empalideceu e ligou para o filho.
— Volta agora! Sua mulher vai trocar a fechadura e tirar a gente daqui! Houve alguns segundos de silêncio. Então a voz de Gustavo saiu alta o bastante para eu ouvir do outro lado da mesa: — O quê? Não deixa ela fazer isso! Passa o telefone para a Helena agora!
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