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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

Gustavo entrou apenas depois que eu dei passagem.

Não havia mais chave no bolso dele.

Não havia senha funcionando no sistema da portaria.

Não havia mãe na sala defendendo cada frase que dizia.

Éramos apenas nós dois e as consequências do que tinha acontecido.

As caixas estavam alinhadas perto da porta do quarto.

— Está tudo aí? — perguntou.

— Tudo o que encontrei.

Ele abriu a primeira.

Havia camisas, relógios, documentos e alguns livros.

Pegou um porta-retrato que estava virado para baixo.

Era uma foto nossa do segundo ano de casamento.

Ficou olhando.

— Você ia jogar fora?

— Não. É seu.

Ele devolveu o porta-retrato à caixa.

— Você consegue ser muito fria.

A frase já não tinha efeito.

— Não confunda limite com frieza.

Gustavo fechou a caixa.

— Eu sei que errei.

— Sabe?

— Sei.

— Então por que toda vez que admite isso coloca um “mas” depois?

Ele ficou calado.

Pegamos as caixas maiores e levamos até o corredor.

Ele havia contratado um pequeno transporte.

Enquanto esperávamos o elevador, perguntou:

— Você sabe alguma coisa dela?

Eu levei alguns segundos para entender.

— Da mulher com quem você foi embora?

Assentiu.

— Não.

— Nem tentou descobrir?

— Não.

Ele pareceu genuinamente surpreso.

— Eu achei que você fosse atrás.

— Para quê?

— Para saber.

— Saber o quê? Se ela sabia que você era casado? Se pediu dinheiro? Se acreditou em alguma história sua? Nada disso muda o que você fez comigo.

A porta do elevador abriu.

Gustavo não entrou.

— Parte do dinheiro ainda está com ela.

Olhei para ele.

— Isso já foi informado no processo.

— Ela não quer devolver.

Eu não senti triunfo.

Também não senti pena.

— Então você vai ter que resolver sua parte.

— Você não entende.

— Eu entendo perfeitamente. Você transferiu um dinheiro que não deveria ter usado. O acordo é com você.

Ele respirou fundo.

— Eu não tenho mais contato com ela.

A informação me atingiu de maneira inesperadamente fraca.

Meses antes, talvez eu tivesse feito cinquenta perguntas.

Agora nenhuma veio.

— Isso não muda o acordo.

Gustavo soltou uma risada sem humor.

— Você realmente não se importa.

— Com o relacionamento de vocês, não.

O elevador fechou e voltou a descer.

Ele ficou parado diante de mim.

— Ela foi embora quando começou a pressão pelo dinheiro.

Não respondi.

— Você não vai dizer nada?

— O que espera que eu diga?

— Não sei.

Talvez ele esperasse satisfação.

Talvez quisesse consolo.

Talvez quisesse ouvir que havia sido enganado também.

Eu não daria nenhuma dessas coisas.

— O que aconteceu entre vocês é problema de vocês. Meu problema é a dívida.

Foi nesse momento que percebi o quanto eu tinha mudado.

Não porque tivesse ficado insensível.

Mas porque finalmente sabia distinguir o que era meu do que não era.

O caminhão de mudança chegou.

Ajudamos a levar as caixas.

No final, Gustavo voltou ao apartamento para conferir se faltava algo.

Parou na porta do quarto onde havíamos dormido por três anos.

— Eu sinto falta daqui.

— Você escolheu sair.

— Eu sei.

Dessa vez, não houve “mas”.

Foi uma diferença pequena.

Ainda assim, notei.

Antes de ir embora, Gustavo me entregou uma pasta.

— Isso é para a advogada.

Abri.

Havia extratos das movimentações que ele próprio estava disposto a apresentar no acordo e um resumo dos valores que restavam.

Não eram provas caídas do céu.

Eram documentos que ele tinha razão para possuir porque as contas eram dele.

A principal função daqueles papéis não era revelar um novo segredo.

Era permitir que o acordo fosse construído sobre números verificáveis.

Minha advogada analisou tudo nos dias seguintes.

O cenário era ruim, mas claro.

Parte do dinheiro tinha sido devolvida.

Parte já havia sido gasta.

Parte havia sido transferida para a mulher com quem Gustavo saíra.

Independentemente de quanto ele conseguisse recuperar de terceiros, continuava assumindo a obrigação de me pagar os R$ 500 mil restantes.

Na reunião seguinte, os termos foram finalmente fechados.

Ele pagaria uma nova parcela inicial, menor, e o restante seria dividido dentro de um cronograma realista.

Haveria previsão de cobrança caso deixasse de cumprir.

Nada mágico.

Nenhuma solução instantânea.

Eu ainda levaria tempo para recuperar tudo.

Mas tempo com um acordo claro era diferente de tempo baseado em promessa.

Enquanto a advogada lia a versão final, Gustavo me observava.

— Você venceu — disse de repente.

Balancei a cabeça.

— Não existe vitória nisso.

— Você ficou com a casa, recuperou parte do dinheiro e vai receber o resto.

— Eu também perdi um casamento, confiança e uma parte importante das minhas economias por meses. Não chama isso de vitória.

Ele ficou em silêncio.

— Então o que é?

Pensei antes de responder.

— Limite.

Ele baixou os olhos para o contrato.

No final da reunião, assinou.

Eu assinei depois.

A caneta fez um som baixo ao deslizar pelo papel.

Lembrei da noite em que ele tinha se recusado a assinar qualquer documento porque isso supostamente diminuía nosso casamento.

Agora, depois de destruir o casamento, assinava um acordo justamente para que não restasse dúvida sobre aquilo que devia.

Minha advogada recolheu as vias.

A parte financeira passava a ter um caminho.

A separação, porém, ainda precisava ser concluída.

E havia uma última tentativa de Gustavo para impedir que tudo terminasse do modo que eu havia decidido.

Ela aconteceu três dias antes da etapa final do divórcio.

Ele apareceu no escritório com os pais.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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