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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Meu sogro estendeu o celular para mim como se estivesse segurando alguma coisa perigosa.

Peguei o aparelho.

— Fala.

Do outro lado, Gustavo respirava rápido.

— Helena, não envolve meus pais nisso.

Quase ri. Não porque houvesse graça, mas porque aquela foi a primeira preocupação que ele demonstrou depois de desaparecer com R$ 900 mil.

— Eu não envolvi ninguém, Gustavo. Eles moram em um imóvel meu porque eu permiti. Essa permissão acabou.

— Você está fazendo isso por vingança.

— Não. Vingança seria eu destruir alguma coisa sua. Estou apenas deixando de sustentar as consequências das suas escolhas.

Minha sogra levantou a voz do sofá:

— Pergunta para ela se perdeu a cabeça!

Gustavo ouviu.

— Helena, pelo amor de Deus, deixa meus pais aí por enquanto. Quando eu voltar, a gente conversa.

A palavra “voltar” me chamou a atenção.

— Quando?

Ele hesitou.

— Eu preciso de uns dias.

— Onde você está?

Silêncio.

— Isso agora não importa.

— Então o dinheiro importa. Você disse que era para abrir uma empresa. Onde estão os contratos?

Outra pausa.

— Eu explico quando voltar.

A resposta foi suficiente.

Até aquele momento, uma parte de mim ainda procurava uma explicação menos feia. Talvez houvesse realmente um negócio. Talvez a mulher da mensagem tivesse aparecido depois. Talvez tudo tivesse saído do controle.

Mas um homem com contrato de aluguel, fornecedores e parceiro comercial não precisava esconder onde estava nem desligar o telefone da própria esposa.

— Você tem até o fim do dia para me enviar tudo o que disse que existia — falei. — Contrato, dados do parceiro e destino do dinheiro.

Gustavo mudou de tom.

— Está me ameaçando?

— Estou pedindo comprovação do que você me disse antes de eu transferir quase todas as minhas economias.

— A gente é casado.

— Era exatamente o argumento que você usou para não assinar aquele documento.

Ele ficou quieto.

Desliguei.

Minha sogra levantou de imediato.

— Você não tinha direito de falar assim com meu filho.

Guardei o telefone sobre a mesa.

— Ele saiu de casa com outra mulher depois de pegar meu dinheiro. Como a senhora acha que eu deveria falar com ele?

Ela apertou os lábios.

— Casamento tem crise. Homem comete erro.

— R$ 900 mil não são um erro.

Meu sogro continuava olhando para a matrícula do imóvel.

Percebi que ele lia e relia meu nome.

— O Gustavo sempre disse que este apartamento era de vocês dois — murmurou.

— Não é.

— Mas ele ajudava a pagar.

— Não ajudava.

Minha sogra se virou para o marido.

— E isso importa agora?

Importava.

Pela expressão dele, percebi que ao menos uma das certezas com que tinham vivido naquela casa começava a desmoronar.

Eu não queria passar a manhã em uma guerra de gritos. Disse que eles poderiam separar os pertences com calma, mas precisavam sair. Não mexeria nas malas, não jogaria nada na rua e não impediria que levassem o que era deles.

Minha sogra disse que não sairia.

Respondi apenas:

— Então vamos resolver isso formalmente.

Foi a primeira vez que ela parou de gritar.

Fui para o quarto, tranquei a porta e sentei na ponta da cama.

Ali, finalmente, minhas mãos começaram a tremer.

Olhei para a aliança.

Não senti vontade de arrancá-la dramaticamente. Apenas a tirei, coloquei sobre a cômoda e fiquei alguns minutos observando aquele círculo de metal que, poucas horas antes, ainda parecia representar uma vida inteira.

Abri a conversa com Gustavo.

Voltei meses.

Havia mensagens sobre contas, remédios dos pais, mensalidades da irmã, compras para a casa e pedidos pequenos que, juntos, formavam uma história bastante clara.

Ele sempre precisava.

Eu sempre resolvia.

Procurei a conversa sobre o negócio.

Estava tudo ali: o suposto ponto comercial, o antigo colega, os fornecedores, o prazo de três meses e a urgência.

Fiz capturas de tela e salvei cópias fora do celular.

Depois baixei o comprovante da transferência.

Foi quando percebi a primeira mudança dentro de mim.

Eu ainda estava machucada.

Mas já não estava tentando descobrir como reconquistar meu marido.

Estava tentando entender como proteger o que restava da minha vida.

Liguei para uma advogada indicada por uma colega de trabalho. Expliquei apenas o essencial.

Ela não prometeu milagre.

Disse que o fato de eu ter transferido voluntariamente tornava a situação mais complexa, mas que as mensagens poderiam ser relevantes para demonstrar por que o dinheiro havia sido entregue. Também explicou que a separação, o imóvel e a tentativa de recuperação do valor precisariam ser tratados com documentos e calma.

Foi exatamente o que eu precisava ouvir.

Não “você vai ganhar”.

Não “ele será preso amanhã”.

Apenas: guarde tudo e não tome decisões irreversíveis no impulso.

Quando voltei à sala, duas malas estavam ao lado da porta.

Meu sogro havia convencido a esposa a sair.

Ela chorava de raiva.

— Depois de tudo o que fizemos por você…

A frase me atingiu de um jeito estranho.

Durante três anos, eu tinha pago remédios, contas, comida e despesas deles.

Mesmo assim, na narrativa dela, eu continuava em dívida.

Abri a porta.

— Eu não vou discutir isso.

Meu sogro pegou as malas.

Antes de sair, parou diante de mim.

— Eu não sabia que ele tinha feito isso.

Não respondi.

Eu ainda não sabia o que ele sabia ou deixava de saber.

Quando a porta se fechou, fiquei sozinha no apartamento.

Chamei um chaveiro para trocar o segredo da fechadura e redefini as senhas do sistema de entrada do prédio.

Depois fui até a mesa onde, na noite anterior, Gustavo tinha dito que meu pedido de garantia lhe dava “frio no coração”.

O lugar estava vazio.

Abri o WhatsApp.

Nenhum contrato havia chegado.

Nenhum nome de parceiro.

Nenhuma nota de fornecedor.

Apenas uma nova mensagem de Gustavo:

“Você está levando isso longe demais.”

Li e respondi:

“Você ainda não viu nada. Primeiro devolva meu dinheiro.”

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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