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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Gustavo não respondeu naquela hora.

Passaram-se quarenta minutos até aparecerem os três pontinhos indicando que ele digitava. Sumiam, voltavam, sumiam de novo.

Por fim, chegou apenas:

“Quando eu estiver pronto, explico.”

Eu já tinha passado três anos aceitando explicações futuras. Naquela manhã, decidi que não aceitaria mais uma.

Enviei para a advogada as mensagens sobre o suposto negócio, o comprovante da transferência e a mensagem em que Gustavo dizia estar com outra mulher. Depois, saí para trabalhar.

Foi um dia estranho.

Por fora, eu respondi e-mails, participei de reuniões e entreguei duas tarefas que estavam atrasadas. Por dentro, cada detalhe da noite anterior voltava em fragmentos.

A expressão dele quando pedi o documento.

O silêncio dos pais.

A insistência para que a transferência fosse feita imediatamente.

E, principalmente, a ausência de qualquer prova do negócio.

No fim da tarde, a advogada me chamou para conversar.

Ela havia organizado tudo cronologicamente.

— O ponto mais importante agora não é provar que ele foi um péssimo marido — disse. — Isso é emocionalmente óbvio para você, mas não é o centro da recuperação do dinheiro. Precisamos mostrar para que finalidade você entregou o valor e o que aconteceu depois.

Assenti.

— Ele disse que era capital para uma empresa.

— Então precisamos separar o que você sabe do que imagina.

Essa frase ficou comigo.

Eu sabia que Gustavo tinha pedido R$ 900 mil alegando que abriria um negócio.

Sabia que transferi o dinheiro por causa daquela alegação.

Sabia que ele desapareceu horas depois.

Sabia que mencionou outra mulher.

Mas eu não sabia onde o dinheiro estava.

Não sabia havia quanto tempo ele planejava ir embora.

E não sabia se algum negócio chegou a existir.

Foi assim que comecei a olhar para a situação sem preencher os espaços vazios com raiva.

Naquela noite, mandei uma mensagem objetiva:

“Preciso até amanhã dos contratos do ponto, dados da empresa, identificação do sócio ou parceiro e comprovantes relacionados ao investimento que você me apresentou.”

Gustavo visualizou em poucos minutos.

Dessa vez, respondeu:

“Você acha mesmo que eu vou tratar nosso casamento como processo?”

“Você transformou nossas economias em um problema financeiro quando mentiu sobre a finalidade do dinheiro.”

“Eu não menti.”

“Então envie os documentos.”

Silêncio.

Horas.

Nada.

No dia seguinte, minha advogada fez uma notificação formal exigindo esclarecimentos e a restituição do valor.

Aquilo não fazia o dinheiro aparecer imediatamente, mas mudava uma coisa essencial: Gustavo já não podia fingir que estávamos discutindo apenas como marido e mulher.

Agora ele precisava responder por atos concretos.

Minha sogra tentou falar comigo no mesmo dia.

Atendi porque queria saber se Gustavo tinha voltado.

Ela começou sem cumprimentar.

— Você mandou advogado atrás do seu marido?

— Sim.

— Vai destruir a vida dele por causa de dinheiro?

— Ele pegou quase tudo o que eu tinha economizado e desapareceu com outra mulher.

— Ele vai devolver.

— Quando?

Ela não respondeu.

— Ele disse alguma coisa para a senhora?

— Meu filho não precisa me contar tudo.

— Então a senhora também não pode me pedir para confiar.

Ela respirou com força.

— Helena, você sempre foi dura.

— Talvez eu tenha sido mole por tempo demais.

Desliguei.

Naquela mesma semana, comecei o processo de separação.

O apartamento, por ter sido adquirido antes do casamento e estar registrado apenas em meu nome, era uma questão mais simples do que minha sogra gostava de imaginar. Ainda assim, fiz tudo corretamente.

Nada de vender às pressas.

Nada de esconder bens.

Nada de ameaças.

Eu só queria sair daquela situação sem permitir que Gustavo transformasse minha prudência em culpa outra vez.

Três dias depois, ele finalmente ligou.

Atendi com a advogada por perto.

— Você está mesmo pedindo divórcio?

— Estou.

A voz dele perdeu a segurança.

— Por causa de uma decisão errada?

— Qual delas? Mentir sobre o negócio, pegar o dinheiro ou fugir com outra mulher?

— Eu estava sufocado.

Fechei os olhos por um instante.

Ali estava a justificativa que eu esperava desde a mensagem.

Não arrependimento.

Justificativa.

— Sufocado por quê?

— Tudo na nossa vida tinha regra. Tudo precisava ser calculado. Você sempre tinha seu dinheiro, sua casa, suas garantias.

— E mesmo assim eu pagava boa parte das despesas da sua família.

— Não é disso que estou falando.

— Então fala claramente.

Ele respirou fundo.

— Eu queria sentir que alguma coisa também era minha.

Olhei para a advogada.

Ela não reagiu.

— E para sentir isso, você precisou usar R$ 900 mil meus?

Gustavo se irritou.

— Nosso casamento durou três anos. Não fala como se eu fosse um estranho.

— Um estranho talvez tivesse assinado o documento.

Ele ficou em silêncio.

Pela primeira vez, aquela frase pareceu atingi-lo.

Depois mudou de assunto:

— Você colocou meus pais para fora.

— Eles não são o problema central.

— Minha mãe está destruída.

— Eu também estava quando acordei e li sua mensagem. A diferença é que ninguém pareceu preocupado com isso.

Gustavo baixou a voz.

— Eu posso devolver uma parte.

Meu corpo ficou tenso.

— Quanto?

Outra pausa.

— Não tudo.

— Quanto, Gustavo?

— Cerca de R$ 260 mil.

Senti o estômago apertar.

— Onde está o restante?

— Eu preciso de tempo.

— Onde está o restante?

Ele respirou pesadamente.

— Eu fiz algumas transferências.

— Para quem?

Silêncio.

— Para ela?

Ele não respondeu.

Não precisava.

Eu não considerei aquilo uma prova de tudo, mas era a primeira vez que ele deixava de repetir a história do negócio.

— Você vai devolver o que ainda tem — falei.

— Se eu fizer isso, você suspende o processo?

— Não.

— Então por que eu devolveria?

Essa pergunta encerrou qualquer dúvida que eu ainda pudesse ter sobre as prioridades dele.

— Porque o dinheiro não era presente, Gustavo.

Desliguei.

Minha advogada fez uma anotação.

— Agora temos uma posição mais clara dele sobre a existência de parte do valor.

Assenti.

Mas meu pensamento estava preso em outra coisa.

Durante três anos, eu tinha acreditado que o problema do nosso casamento era eu ser cautelosa demais.

Naquele momento, comecei a enxergar uma possibilidade muito pior.

Talvez minha cautela tivesse sido a única coisa que me impedira de perder ainda mais.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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