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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Na manhã marcada para a etapa final, acordei antes do despertador.

Fiquei alguns minutos olhando para o teto.

Eu não estava nervosa com a ideia de me divorciar.

Estava nervosa porque aquele documento encerraria oficialmente cinco anos da minha vida.

Mesmo um casamento infeliz deixa hábitos.

Horários.

Objetos.

Lugares.

Uma versão de quem você acreditava que precisava ser.

Tomei banho.

Escolhi uma roupa simples.

Antes de sair, abri o armário e vi o velho casaco de lona pendurado no canto.

Passei os dedos pela manga.

Não o vesti.

Fechei a porta.

No caminho até a Justiça, pensei na minha mãe.

Não na cama do hospital.

Pensei nela anos antes, costurando uma barra de calça para mim enquanto reclamava que eu sempre deixava tudo para a última hora.

Sorri.

Era essa mulher que eu queria carregar comigo.

Não apenas a paciente que morreu esperando uma cirurgia.

Lucas já estava no local.

Quando me viu, levantou.

Não disse “você está bonita”.

Não tentou criar intimidade.

Apenas cumprimentou:

— Bom dia.

— Bom dia.

Nossos representantes revisaram os documentos.

Os valores acertados estavam discriminados.

Os bens haviam sido identificados.

O reembolso das despesas seria feito dentro dos prazos estabelecidos.

A mudança do meu nome estava registrada.

A mediadora perguntou mais uma vez se havia alguma pendência relevante.

Olhei para Lucas.

Ele fez o mesmo.

— Não — respondi.

— Não — ele disse.

Ainda havia procedimentos formais antes da conclusão definitiva, e esperamos numa sala lateral.

Lucas ficou sentado a alguns lugares de distância.

Depois de algum tempo, falou:

— Posso perguntar uma coisa?

— Pode.

— Você me odeia?

A pergunta me pegou desprevenida.

Pensei bastante.

— Não.

Ele pareceu não saber como reagir.

Continuei:

— Eu tive muita raiva.

— Eu sei.

— Talvez ainda tenha em alguns momentos.

Olhei para ele.

— Mas eu não quero construir o resto da minha vida em volta do que sinto por você.

Lucas respirou devagar.

— Isso é pior do que me odiar?

— Para quem?

Ele quase sorriu, mas conteve.

— Para mim.

— Não sei.

A resposta era sincera.

— Mas essa não é mais uma pergunta que eu preciso resolver.

Lucas assentiu.

Ficamos em silêncio.

Depois ele disse:

— Eu pedi desculpas para Renata também.

— Por quê?

— Porque eu coloquei uma subordinada numa posição que ela não deveria ocupar.

Aquilo mostrava alguma evolução.

— Ela errou — acrescentei.

— Sim. E respondeu pela parte dela.

Lucas concordou.

— Mas fui eu quem transformou uma função profissional numa extensão da minha vida pessoal.

Não havia muito a acrescentar.

O funcionário chamou nossos nomes.

Entramos.

O procedimento final foi objetivo.

Ninguém pediu que contássemos nossa história outra vez.

Ninguém perguntou se ainda existia amor.

Casamento civil não precisava ser mantido pela vontade de uma única pessoa.

Depois das confirmações, fomos informados de que a decisão seria registrada e as alterações civis seguiriam os trâmites correspondentes.

Era quase o fim.

Quando saímos da sala, Lucas pediu alguns minutos.

Paramos no corredor.

Ele segurava a aliança na mão.

— Eu queria falar antes de tudo terminar oficialmente.

— Pode falar.

Lucas me encarou.

— Eu sinto muito pela sua mãe.

Minha garganta apertou.

Ele continuou:

— Eu não vou dizer que “não sabia” como desculpa. Você tentou me dizer.

Respirei.

— Sim.

— Eu também não vou dizer que só estava tentando te proteger do dinheiro, porque isso não explica o que fiz.

A voz dele permaneceu baixa.

— Eu desconfiava de você porque achava que sua origem dizia alguma coisa sobre seu caráter.

Ele desviou os olhos.

— Eu te humilhei por isso.

Não respondi.

— Eu controlei coisas que nunca deveria ter controlado.

Fez uma pausa.

— E quando você tentou me enfrentar por causa da sua mãe, eu usei uma situação médica para te colocar de volta no lugar que eu achava que você deveria ocupar.

As palavras doeram porque eram exatas.

Mas havia algo libertador em ouvi-las sem precisar convencer ninguém.

— Foi isso — respondi.

Lucas assentiu.

— Foi.

Ele guardou a aliança no bolso.

— Eu não espero que você me perdoe.

— Talvez um dia eu perdoe algumas coisas.

Ele levantou os olhos.

— Mas perdão não significa reconciliação.

— Eu sei.

— E não significa que o que aconteceu deixa de ter consequência.

— Eu sei.

Dessa vez, a repetição não me irritou.

Ele parecia realmente saber.

Lucas fez menção de ir embora, mas eu o chamei.

— Espera.

Ele parou.

Eu precisava dizer algo que era mais para mim do que para ele.

— Durante muito tempo, eu achei que ficar era uma prova de força.

Ele ouviu.

— Eu acreditava que aguentar mais um pouco era o que uma boa esposa fazia.

Olhei para minhas mãos.

— Hoje eu entendo que também existe força em sair quando o preço para ficar é desaparecer.

Lucas ficou imóvel.

— Eu sinto muito por ter feito você desaparecer.

Balancei a cabeça.

— Você tentou.

Ergui os olhos.

— Mas não conseguiu.

Foi a primeira vez que vi um sorriso triste no rosto dele.

— Não.

— Não conseguiu.

Saí do prédio antes dele.

Do lado de fora, o sol de Brasília parecia forte demais.

Peguei o celular.

Havia uma mensagem da clínica perguntando se eu voltaria após o almoço.

Respondi que sim.

Eu poderia ter tirado o dia inteiro.

Mas queria trabalhar.

Queria voltar para algo que existia no presente.

No ônibus, sentei perto da janela.

As pessoas entravam e saíam.

Ninguém sabia que eu tinha acabado de encerrar um casamento que definira meia década da minha vida.

E, de algum modo, aquilo era bom.

Eu não precisava que o mundo parasse para reconhecer minha decisão.

Nos dias seguintes, continuei aguardando a atualização oficial do registro civil.

Lucas cumpriu os pagamentos acordados dentro dos prazos.

Sem mensagens extras.

Sem pedidos.

Sem condições.

A Defensoria confirmou que não havia pendências importantes.

Na sexta-feira, recebi a confirmação de que a alteração estava concluída.

Meu casamento com Lucas Ferraz havia terminado oficialmente.

Li o documento no intervalo do trabalho.

Meu nome estava ali.

O meu.

Sem o sobrenome dele.

Não chorei.

Apenas fechei os olhos.

Quando cheguei em casa, coloquei o documento na gaveta ao lado dos outros.

Depois preparei o jantar.

Parecia simples demais para um momento tão grande.

Talvez fosse justamente por isso que funcionava.

Às nove da noite, alguém tocou o interfone.

Meu corpo ficou tenso automaticamente.

Perguntei quem era.

Não era Lucas.

Era o entregador com uma caixa que eu havia comprado dias antes.

Dentro havia um pequeno armário para a cozinha.

Ri sozinha do susto.

Enquanto montava as peças no chão da sala, percebi quanto tempo levaria para meu corpo entender que nem toda campainha significava problema.

Pouco antes de dormir, recebi uma última mensagem de Lucas.

“Recebi a confirmação. Não vou te procurar mais. Espero que você tenha uma vida que seja realmente sua.”

Fiquei olhando.

Não havia pedido de resposta.

Ainda assim, escrevi:

“É isso que eu pretendo fazer.”

Enviei.

Depois apaguei a conversa da tela principal.

Não da memória.

A memória não funcionava assim.

Mas eu não precisava abrir aquelas mensagens toda vez que pegasse o celular.

Na manhã seguinte, fui ao cemitério.

Levei flores para minha mãe.

Sentei diante da lápide e contei:

— Acabou.

O vento passou entre as árvores.

Eu fiquei ali algum tempo.

Não pedi autorização para chorar.

Não pedi autorização para ir embora.

Quando levantei, soube que ainda havia uma coisa que precisava fazer.

Não com Lucas.

Comigo.

Durante anos, eu havia estruturado cada escolha pensando no que seria permitido.

Agora precisava aprender a desejar coisas sem pedir aprovação imaginária.

Voltei para casa e abri um caderno.

Na primeira página, escrevi três palavras:

“O que eu quero?”

Fiquei olhando.

Depois comecei a responder.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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