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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

A fase final do divórcio coincidiu com uma mudança inesperada dentro de mim.

Eu parei de contar os dias desde a morte da minha mãe.

Não porque tivesse esquecido.

A dor continuava presente.

Mas ela deixou de ser o único relógio da minha vida.

Comecei a pensar em semanas de trabalho, contas pagas, compromissos, compras do mês.

Pequenas referências do presente substituíram a rotina de olhar constantemente para trás.

No trabalho, aprendi novas tarefas.

Passei a organizar agendas, receber documentos e auxiliar na parte administrativa da clínica.

Ninguém sabia todos os detalhes do meu casamento.

Eu preferia assim.

Ali, eu não era “a esposa do comandante”.

Era apenas uma funcionária tentando reconstruir a vida.

Lucas, por outro lado, ainda enfrentava as consequências dentro da unidade.

O procedimento administrativo foi encerrado com medidas disciplinares proporcionais às falhas constatadas.

Não houve acusação de crime relacionado à morte da minha mãe.

Também não houve absolvição moral disfarçada.

A decisão registrou que ele havia ultrapassado limites ao permitir que sua posição e subordinados fossem usados para controlar questões domésticas.

Recebeu restrições temporárias em funções administrativas e a obrigação de passar por orientações internas sobre conduta e limites de autoridade.

Quando soube disso por meio do processo, não senti vitória.

A morte da minha mãe não precisava de um vilão oficialmente condenado para ser dolorosa.

Eu já sabia o suficiente.

Lucas também.

A última mediação patrimonial aconteceu poucas semanas depois.

Desta vez, entramos na sala sabendo que não havia discussão sobre o divórcio.

A questão era encerrar detalhes.

A mediadora revisou a lista.

Havia os valores devidos, as despesas médicas pendentes, o reembolso do funeral e a divisão dos bens comuns conforme o regime do casamento.

Nada aconteceu em cinco minutos.

Não houve conta milagrosamente transferida por uma ligação.

Houve documentos.

Prazos.

Conferências.

Assinaturas.

Era burocrático.

E justamente por isso parecia real.

Em determinado momento, Lucas pediu para falar.

A mediadora permitiu.

— Quero registrar que não vou pedir nenhuma condição relacionada à vida pessoal dela.

Meu representante confirmou.

Assenti.

Lucas continuou:

— E quero abrir mão de discutir alguns itens de uso pessoal que estavam em meu nome, mas foram comprados para ela durante o casamento.

O advogado dele explicou quais itens poderiam ser tratados dessa forma.

Tudo foi registrado corretamente.

Eu não agradeci.

Ele não esperou agradecimento.

Foi uma diferença importante.

Quando a reunião terminou, Lucas perguntou se podia caminhar comigo até a saída.

Aceitei.

Descemos em silêncio.

Na porta, ele disse:

— Tem uma pergunta que eu nunca consegui responder.

— Qual?

Ele hesitou.

— Por que você nunca me enfrentou antes?

A pergunta poderia parecer uma acusação.

Mas o tom dele não era.

Pensei.

— Porque, quando alguém controla quase tudo ao seu redor, você aprende a escolher quais batalhas pode perder.

Lucas baixou os olhos.

— Eu não percebia que era assim.

— Esse era parte do problema.

Ele assentiu.

Eu poderia ter ido embora.

Mas algo ainda precisava ser dito.

— Posso te perguntar uma coisa também?

— Pode.

— Se minha mãe tivesse sobrevivido, você ainda acharia normal ter suspendido o tratamento para me ensinar uma lição?

Lucas ficou imóvel.

A pergunta não oferecia nenhuma saída confortável.

Depois de alguns segundos, respondeu:

— Naquela época, sim.

Aquilo me surpreendeu.

Ele continuou antes que eu falasse:

— Eu teria achado que o resultado provava que eu estava certo. Que você exagerou e que nada grave aconteceu.

Senti um arrepio.

Era brutal.

Mas honesto.

— Então não foi a morte dela que tornou sua atitude errada.

— Não.

— Foi errada desde o começo.

— Foi.

A resposta encerrou uma dúvida que eu nem sabia que ainda carregava.

Durante semanas, parte de mim pensara que talvez Lucas só tivesse cometido um erro de cálculo.

Agora ele reconhecia algo maior.

O problema não era ele ter previsto mal o resultado.

Era acreditar que tinha o direito de colocar a saúde de outra pessoa dentro de uma disputa conjugal.

— Obrigada por responder — falei.

Ele pareceu confuso.

— Não achei que você fosse agradecer.

— Eu não estou agradecendo pelo que fez.

Abri a bolsa.

— Estou agradecendo por não mentir agora.

Fomos embora.

Naquela noite, guardei os documentos do divórcio numa pasta e os prontuários da minha mãe em outra.

Durante muito tempo, eu mantivera tudo misturado numa única caixa.

Aquela separação de papéis parecia pequena.

Mas significava algo.

Minha mãe era minha mãe.

Meu casamento era meu casamento.

Eu não queria que a memória dela ficasse para sempre reduzida ao pior ato de Lucas.

No fim de semana, fui ao cemitério.

Sentei perto da lápide e contei em voz baixa sobre meu trabalho.

Falei do apartamento.

Falei que estava aprendendo a cozinhar para uma pessoa só.

Depois ri sozinha quando imaginei minha mãe reclamando que eu colocava pouco sal na comida.

Foi a primeira lembrança dela que não terminou no hospital.

Chorei.

Mas era um choro diferente.

A vida começava a devolver outras imagens.

Lucas não apareceu.

Eu soube depois que ele evitava ir nos mesmos horários para não invadir meu espaço.

Alguns dias mais tarde, ele me enviou uma mensagem.

“Recebi a data final. Não precisa responder.”

Não respondi.

A homologação definitiva estava marcada.

Faltavam apenas alguns passos formais.

No trabalho, pedi a manhã livre.

Minha supervisora autorizou.

Quando voltei para casa naquela noite, encontrei na caixa de correio uma correspondência enviada pelo escritório do advogado de Lucas.

Dentro havia uma pequena lista de objetos que ainda estavam na antiga residência e poderiam me pertencer.

Revisei.

Uma máquina de costura antiga.

Alguns utensílios.

Duas caixas de livros.

E uma fotografia emoldurada da minha mãe comigo, tirada antes do casamento.

Meu peito apertou.

Eu não lembrava onde aquela fotografia tinha ficado.

Respondi que queria buscá-la.

Combinamos que eu iria no dia seguinte.

Quando entrei novamente naquela casa, a sensação foi diferente.

Não parecia mais minha.

Lucas havia retirado algumas coisas.

Outras permaneciam no mesmo lugar.

A fotografia estava sobre a mesa.

Peguei.

Minha mãe sorria para a câmera.

Eu também.

Na imagem, eu ainda usava o velho casaco de lona.

Lucas observou.

— Eu encontrei atrás de uma caixa no escritório.

— Obrigada.

— Eu quase mandei entregar.

— Por que não mandou?

Ele pensou.

— Porque achei que você deveria decidir pessoalmente o que queria levar.

Assenti.

Lucas não tentou prolongar o encontro.

Quando cheguei à porta, ele disse:

— Amanhã acaba oficialmente.

Olhei para ele.

— Sim.

— Eu achei que ficaria desesperado quando esse dia chegasse.

— E está?

Lucas respirou fundo.

— Não.

A resposta me surpreendeu.

— Estou triste.

Ele continuou:

— Mas impedir você de ir seria repetir exatamente o que fiz durante cinco anos.

Segurei a fotografia contra o peito.

— Então talvez você tenha entendido alguma coisa.

Ele assentiu.

Saí.

No elevador, olhei a foto novamente.

Amanhã eu entraria naquele prédio da Justiça casada.

Sairia divorciada.

Mas, pela primeira vez, aquilo não parecia o fim de alguma coisa.

Parecia o momento em que todas as linhas que me prendiam ao passado finalmente começariam a se soltar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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