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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

Parte 10

A primeira coisa que escrevi no caderno foi simples.

“Quero uma casa onde eu não tenha medo de abrir uma gaveta.”

Olhei para a frase e quase ri.

Era pouco ambiciosa para quem finalmente podia imaginar o futuro.

Mas era verdadeira.

Continuei.

“Quero guardar dinheiro.”

“Quero aprender alguma coisa nova.”

“Quero lembrar da minha mãe sem lembrar primeiro do hospital.”

“Quero nunca mais confundir obediência com amor.”

Fechei o caderno.

Aquelas respostas não mudariam minha vida numa manhã.

Mas eram minhas.

Nos meses seguintes, a rotina começou a ganhar estrutura.

Fui efetivada na clínica.

Com o tempo, assumi mais responsabilidades administrativas.

Não fiquei rica.

Não apareceu nenhum empresário poderoso para me salvar.

Não recebi uma herança secreta.

Minha vida melhorou de um jeito muito menos espetacular e muito mais sólido: comecei a conseguir sustentar minhas próprias decisões.

O dinheiro da divisão patrimonial foi tratado conforme o acordo.

Guardei uma parte.

Usei outra para montar o apartamento com calma.

Comprei uma mesa melhor.

Uma máquina de lavar.

Duas cadeiras.

Cada objeto parecia banal.

Ainda assim, havia algo profundamente novo em escolhê-los sem precisar imaginar a expressão de Lucas diante do preço.

A dor pela minha mãe também mudou de forma.

Durante muito tempo, eu não conseguia lembrar dela sem voltar àquelas horas do hospital.

Depois vieram outras cenas.

O jeito como ela dobrava sacolas plásticas para reutilizar.

A mania de ligar cedo demais no meu aniversário.

A voz me dizendo para levar casaco mesmo quando fazia calor.

Essas memórias não substituíram a morte.

Mas devolveram a ela uma vida inteira.

Foi isso que mais me ajudou.

Minha mãe deixou de ser, na minha cabeça, apenas a mulher que morreu depois de uma autorização suspensa.

Voltou a ser minha mãe.

Quanto a Lucas, eu recebia notícias apenas quando algum procedimento residual exigia comunicação.

A advertência e as limitações administrativas impostas pela unidade cumpriram o período previsto.

Ele continuou na carreira.

Não foi destruído.

Também não saiu ileso.

Pessoas que haviam admirado apenas sua eficiência passaram a enxergá-lo com mais cautela.

Segundo o que ouvi de forma indireta, ele modificou profundamente a maneira de lidar com subordinados e parou de misturar relações pessoais com a estrutura de trabalho.

Eu não sabia se a mudança duraria.

Não precisava saber.

Certo dia, meses depois, encontrei Lucas por acaso.

Eu havia saído do trabalho e entrado numa farmácia.

Quando virei um corredor, ele estava ali.

Nós dois paramos.

Durante um segundo, senti aquele antigo reflexo de explicar onde estava, por que tinha saído, o que pretendia comprar.

O pensamento veio e desapareceu.

Lucas foi o primeiro a falar.

— Oi.

— Oi.

Ele parecia mais magro.

Não perguntei por quê.

— Como você está? — ele perguntou.

— Bem.

Era verdade.

— E você?

— Estou seguindo.

Assenti.

Nenhum de nós sabia o que fazer com as mãos.

Lucas olhou para a cesta que eu carregava.

Havia shampoo, sabonete, um creme barato e um pacote de biscoitos.

Coisas comuns.

Ele soltou um sorriso quase imperceptível.

— Você sempre gostou desses biscoitos?

Olhei para o pacote.

— Sempre.

O sorriso desapareceu do rosto dele.

Talvez tivesse entendido que viveu cinco anos ao lado de uma mulher sem saber nem qual biscoito ela preferia.

— Eu não sabia — disse.

— Eu sei.

Não havia crueldade na resposta.

Era apenas fato.

Lucas respirou fundo.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Depende.

— Você está feliz?

Pensei.

Não queria responder com uma frase perfeita.

Minha vida não tinha virado um conto de fadas.

Eu ainda sentia saudade.

Ainda tinha medo de faltar dinheiro.

Ainda acordava em algumas noites lembrando do hospital.

Mas também ria no trabalho.

Comprava flores para minha própria mesa.

Falava com colegas.

Planejava fazer um curso técnico de gestão administrativa no ano seguinte.

Eu tinha escolhas.

— Estou ficando — respondi.

Lucas assentiu.

— Fico feliz.

Desta vez, a frase pareceu sincera.

Ele não tentou marcar um café.

Não perguntou se eu estava com alguém.

Não disse que sentia minha falta.

Apenas se afastou.

— Cuida de você.

— Você também.

Seguimos em direções opostas.

Na fila do caixa, percebi que minhas mãos não tremiam.

Aquilo me emocionou mais do que eu esperava.

Meses antes, encontrar Lucas teria dominado meu dia.

Naquela noite, contei o episódio no caderno em três linhas.

Depois virei a página.

Havia coisas mais importantes para escrever.

Meu curso começaria em março.

Eu havia escolhido a modalidade noturna para continuar trabalhando.

A matrícula custou dinheiro.

Quando fiz o pagamento, senti um aperto automático.

Olhei para o saldo.

Estava dentro do orçamento que eu mesma havia planejado.

Nenhuma autorização era necessária.

Cliquei em “confirmar”.

Foi um gesto minúsculo.

Ainda assim, fiquei olhando a tela depois.

Durante anos, Lucas dizia que precisava controlar meu dinheiro porque eu não saberia usar.

Agora eu trabalhava, pagava aluguel, fazia reserva e investia na própria formação.

Não precisei provar nada para ele.

Provei para mim.

No aniversário da morte da minha mãe, tirei o dia de folga.

Fui ao cemitério pela manhã.

Levei as flores de que ela gostava.

Fiquei um tempo em silêncio.

Depois contei sobre o curso.

Contei que o apartamento continuava pequeno.

Contei que ainda errava o sal da comida.

Sorri.

Antes de ir embora, coloquei a mão sobre a pedra fria.

— Eu queria que você tivesse visto.

Minha voz falhou.

— Mas acho que você teria ficado feliz.

Chorei.

Não tentei impedir.

Quando voltei para casa, abri o armário.

O velho casaco de lona ainda estava ali.

Eu o tirei do cabide.

Vesti.

Ficava um pouco largo agora.

Passei a mão pelo tecido desbotado.

Aquela era a roupa que eu usava quando entrei na casa de Lucas acreditando que estava começando uma vida.

Durante muito tempo, pensei que ela representasse tudo o que eu não tinha.

Dinheiro.

Posição.

Segurança.

Hoje eu entendia de outra forma.

O casaco pertencia à mulher que existia antes de Lucas começar a dizer quem ela deveria ser.

Eu ainda era aquela mulher.

Talvez mais cansada.

Talvez marcada.

Mas viva.

Tirei o casaco e dobrei com cuidado.

Não voltei a pendurá-lo no armário.

Guardei numa caixa com algumas fotografias da minha mãe.

Não precisava usar aquela peça como armadura todos os dias.

A vida já tinha seguido.

Na segunda-feira seguinte, cheguei à clínica cedo.

Havia uma pilha de documentos sobre a mesa.

Minha colega reclamou que o sistema estava lento.

Eu ri.

O telefone começou a tocar.

Atendi.

O dia continuou.

À noite, fui para a primeira aula do curso.

Sentei numa das últimas fileiras.

Havia pessoas de várias idades.

Algumas trabalhavam durante o dia como eu.

O professor pediu que cada um escrevesse numa ficha o motivo de estar ali.

Pensei por alguns segundos.

Poderia ter contado tudo.

O casamento.

O hospital.

Minha mãe.

O divórcio.

Não escrevi nada disso.

Escrevi apenas:

“Quero construir uma vida que dependa das minhas próprias escolhas.”

Entreguei a ficha.

Quando saí da aula, já estava escuro.

Peguei o ônibus para casa.

Desci duas ruas antes do meu prédio porque queria caminhar um pouco.

Abri a porta do apartamento.

Acendi a luz.

Na mesa estavam meu caderno, algumas contas e uma caneca que eu mesma havia comprado porque gostava da estampa.

Nenhuma daquelas coisas impressionaria quem olhasse de fora.

Mas eram minhas.

Minha casa.

Meu dinheiro.

Meu trabalho.

Minha decisão.

Eu ainda sentia falta da minha mãe.

Ainda lembrava do que Lucas fez.

Perdoar completamente talvez levasse muito tempo.

Talvez algumas coisas nunca deixassem de doer.

Mas eu já não precisava esperar que a dor desaparecesse para continuar vivendo.

Fechei a porta atrás de mim e coloquei a chave no bolso.

Dessa vez, a vida do outro lado da porta era minha.

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