
Parte 3
Depois que o copo se espatifou no chão da confraternização, ninguém tentou fazer uma piada para aliviar o constrangimento.
Lucas ficou imóvel diante dos cacos.
— Quem disse que ela morreu? — perguntou.
O oficial que havia falado primeiro franziu a testa.
— O comunicado chegou ao setor de apoio familiar. A sua esposa apresentou a certidão de óbito para encerrar o processo médico.
Lucas virou o rosto devagar.
— Quando?
— Quatro dias atrás.
A resposta parecia impossível para ele.
Quatro dias.
Durante quatro dias, outras pessoas da unidade sabiam que minha mãe estava morta, enquanto ele continuava acreditando que eu estava emburrada em casa.
Um dos homens se aproximou.
— Lucas, você quer que alguém vá com você?
Ele não respondeu. Pegou o celular e saiu da sala.
Ligou para mim.
Eu estava ao lado do caixão da minha mãe quando vi o nome dele aparecer na tela.
Não atendi.
Ele tentou novamente.
Depois uma terceira vez.
Desliguei o aparelho.
Eu não queria ouvir explicações durante o único momento que ainda me restava para me despedir dela.
Lucas telefonou para Renata.
— A mãe dela morreu?
Do outro lado, houve alguns segundos de hesitação.
— Sim, comandante.
— Você sabia?
— Recebi a certidão no dia seguinte.
— E não me contou?
Renata respirou fundo.
— O senhor tinha determinado que assuntos domésticos não deveriam interromper atividades operacionais sem autorização. Como o documento já encerrava a solicitação, eu encaminhei ao setor responsável.
Lucas apertou a mandíbula.
Aquilo era exatamente o tipo de procedimento que ele próprio havia criado.
Durante anos, ele exigira que todos os problemas relacionados a mim fossem tratados como solicitações administrativas.
Agora recebia o resultado da própria regra.
— Onde é o enterro?
Renata informou o endereço do cemitério.
Lucas chegou quando a cerimônia já havia começado.
Eu o vi parado alguns metros atrás das outras pessoas.
O uniforme fazia com que ele se destacasse, mas ninguém abriu espaço para recebê-lo.
Ele não era o homem importante ali.
Era apenas o genro que chegara atrasado ao enterro de uma mulher cuja cirurgia havia mandado suspender.
Continuei olhando para o caixão.
Lucas esperou até o final.
Quando as pessoas começaram a se afastar, aproximou-se.
— Eu preciso falar com você.
Minha primeira reação foi continuar andando.
Ele segurou meu braço, mas soltou no mesmo instante quando percebeu que eu havia enrijecido.
— Por favor.
Olhei para ele.
A expressão de Lucas estava diferente da que eu vira em casa. Não havia impaciência. Não havia aquela segurança de quem acreditava ter todas as respostas.
Mas aquilo não mudava nada.
— Hoje não.
— Eu não sabia.
— Eu sei.
Ele pareceu surpreso.
— Você sabe?
— Sei que você não sabia.
Respirei fundo.
— Porque, quando tentei contar enquanto ainda havia alguma coisa que pudesse ser feita, você desligou.
Lucas abriu a boca.
Nenhuma resposta saiu.
Eu continuei:
— Depois que minha mãe morreu, não existia mais nenhuma informação urgente que você precisasse receber.
— Você podia ter me ligado.
— Liguei.
Ele baixou os olhos.
— Naquele dia…
— Não, Lucas. Não vamos transformar o enterro dela numa discussão sobre você.
A frase fez com que ele recuasse.
Passei por ele.
Lucas me seguiu alguns passos.
— Onde você vai ficar?
— Isso não diz mais respeito a você.
— Nós ainda somos casados.
Parei.
— Só no papel.
Ele me encarou.
— Eu não concordei com o divórcio.
— Você não precisa concordar para eu procurar a Justiça.
Foi a primeira vez que vi Lucas perder completamente a postura diante de mim.
Não por raiva.
Por percepção.
Até aquele instante, ele ainda acreditava que minha frase sobre o divórcio fazia parte de uma briga.
Agora entendia que eu realmente tinha saído de casa.
Voltei a caminhar.
Ele não me seguiu.
Passei aquela noite em um quarto simples que havia alugado por alguns dias. Não era confortável, mas ninguém controlava quando eu acendia a luz, o que eu comia ou quanto eu gastava.
Deitei vestida.
Meu corpo estava exausto, mas eu não conseguia dormir.
A tristeza pela minha mãe vinha em ondas. Em alguns momentos, eu pensava no hospital. Em outros, lembrava do som do celular depois que Lucas desligou.
Não queria passar o resto da vida alimentando a pergunta sobre o que teria acontecido se ele tivesse autorizado a cirurgia.
Eu sabia que talvez ninguém pudesse garantir que minha mãe teria sobrevivido.
Mas uma coisa era certa: uma decisão que deveria ter sido médica e familiar tinha sido transformada por Lucas em instrumento de disciplina.
Na manhã seguinte, procurei a Defensoria Pública.
Eu não tinha condições de bancar uma longa disputa judicial.
Expliquei que queria o divórcio e que havia bens pessoais meus aos quais eu não conseguia acessar livremente na residência.
Não pedi vingança.
Não pedi para destruir a carreira dele.
Pedi apenas que minha saída fosse tratada como uma decisão real.
Enquanto eu fazia isso, Lucas voltou para a unidade.
Renata já o esperava com os registros do processo de autorização.
Ele entrou na sala e fechou a porta.
— Quero ver tudo.
Ela colocou uma pasta sobre a mesa.
Havia solicitações, devoluções, horários e observações administrativas.
Lucas passou as páginas rapidamente.
— Quantas vezes você devolveu o pedido?
— Três.
— Por quê?
— Na primeira faltava um documento atualizado. Na segunda, o valor não correspondia ao orçamento anterior. Na terceira, ela estava cobrando urgência sem apresentar uma nova autorização do médico responsável.
Lucas levantou os olhos.
— E depois?
Renata hesitou.
— Depois o senhor me ligou.
Ele se lembrava.
Naquela ligação, irritado porque eu havia aparecido na unidade tentando falar com ele, Lucas ordenara que nenhuma liberação fosse concluída até que ele autorizasse pessoalmente.
— Quanto tempo ficou parado depois da minha ordem?
Renata consultou o registro.
— Quase vinte horas.
Lucas permaneceu em silêncio.
— E quando você liberou?
— Na manhã seguinte à nova autorização do senhor.
— Ela já estava morta?
Renata não respondeu imediatamente.
— Sim.
Lucas fechou a pasta.
Durante alguns minutos, nada aconteceu.
Então Renata disse:
— Comandante, eu cumpri o que foi determinado.
Lucas levantou a cabeça.
Havia uma parte dele que queria colocar toda a culpa nela.
Seria mais fácil.
Poderia dizer que Renata exagerara na burocracia, que ela deveria ter percebido a gravidade, que uma ajudante de ordens não deveria ter tratado aquele pedido daquela forma.
Mas a própria assinatura dele estava ali.
Sua ordem estava registrada.
— Eu sei — respondeu.
Renata pareceu respirar melhor.
Lucas, porém, continuou:
— Isso não significa que o que fizemos estava certo.
Naquela mesma tarde, um oficial entregou a ele uma comunicação interna.
A chefia queria esclarecimentos sobre o uso de procedimentos administrativos da unidade em assuntos particulares e sobre a interrupção de uma solicitação médica ligada à família de um comandante.
Não era uma condenação.
Ainda não havia conclusão alguma.
Mas, pela primeira vez em anos, Lucas estava numa situação que não podia resolver simplesmente dando uma ordem.
Enquanto isso, eu saí da Defensoria com o protocolo do pedido de divórcio dentro da bolsa.
A funcionária havia explicado que, como Lucas não aceitara uma separação consensual, o processo seguiria pela via judicial.
Eu olhei para aquela folha durante alguns segundos.
Não senti alegria.
Também não senti medo.
Senti espaço.
Naquela noite, comprei uma escova de dentes, duas camisetas e um par de chinelos com o pouco dinheiro que tinha disponível.
Coisas pequenas.
Durante o casamento, qualquer uma delas poderia ter exigido justificativa.
Coloquei a sacola sobre a cama do quarto alugado e chorei pela primeira vez desde o hospital.
Não por Lucas.
Não pelo casamento.
Chorei pela minha mãe.
Chorei porque ela não estava ali para ver que eu finalmente tinha feito aquilo que tantas vezes pensei em fazer e nunca tive coragem.
No mesmo horário, Lucas permanecia sozinho no escritório, com o histórico da autorização médica aberto diante dele.
Na última página havia uma linha simples.
“Solicitação suspensa por determinação do comandante.”
Abaixo, aparecia o horário.
Lucas conferiu a ligação que recebera de mim naquele dia.
Os minutos coincidiam.
Ele tinha dado a ordem logo depois de desligar.
Foi então que Renata voltou à porta.
— Comandante?
Lucas não ergueu a cabeça.
— O que foi?
Ela segurava outra folha.
— Encontrei o registro da primeira solicitação de urgência.
Ele estendeu a mão.
No campo de observações, havia uma frase escrita pelo setor médico muitas horas antes da suspensão.
“Procedimento recomendado com prioridade imediata diante do risco de deterioração clínica.”
Lucas leu uma vez.
Depois outra.
E finalmente entendeu que o problema nunca tinha sido eu não ter explicado direito.
Ele simplesmente tinha decidido não acreditar.
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