Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

— Tenho uma reunião em cinco minutos — Lucas respondeu do outro lado. — Fala logo.
Eu tentei explicar que os médicos não estavam falando de semanas, nem de dias. A cirurgia precisava ser autorizada imediatamente, porque o quadro da minha mãe tinha piorado durante a madrugada. — Eu não estou pedindo dinheiro para mim, Lucas. São R$ 300 mil para a cirurgia dela. Por favor, eu mando tudo o que você quiser depois.
Ele soltou um suspiro impaciente. — Foi exatamente isso que você disse nas outras vezes. Sempre é urgente quando você quer alguma coisa. — Não é “alguma coisa”! — minha voz falhou. — É a vida da minha mãe.
Do outro lado, ouvi passos, vozes e uma porta sendo aberta. Lucas já estava entrando em alguma sala. — Você apareceu na unidade ontem e criou uma situação desnecessária. Não vou premiar esse tipo de comportamento.
— Eu fui porque ninguém respondia! Renata devolveu o pedido três vezes. O médico está esperando uma resposta agora. Só liga para ela e manda liberar.
Houve um pequeno silêncio. Por um instante, pensei que ele finalmente tivesse compreendido. Então Lucas falou num tom ainda mais frio: — Não. Você precisa aprender que não pode conseguir tudo fazendo pressão. Vou falar com Renata para manter o processo suspenso.
Meu corpo inteiro gelou. — Lucas, não faz isso.
— Quando você se acalmar, a gente resolve.
— Minha mãe pode morrer!
— Você sempre exagera.
A ligação terminou. Fiquei olhando para a tela do celular, incapaz de acreditar que ele realmente tinha desligado. Liguei de novo. Uma vez. Duas. Cinco. Ele não atendeu.
Voltei correndo para o quarto da minha mãe. O médico não me prometeu nada; apenas explicou que o estado dela era crítico e que cada hora tornava qualquer intervenção mais difícil. Eu tentei outros caminhos, perguntei sobre transferência, parcelamento e tudo o que podia ser feito naquele momento, mas nada avançava rápido o suficiente.
Minha mãe ainda estava consciente quando sentei ao lado dela. Ela abriu os olhos com dificuldade e apertou meus dedos. — Não briga por minha causa — murmurou. Eu quis dizer que não estava brigando. Eu estava implorando.
Poucas horas depois, os aparelhos começaram a mudar de som. A equipe entrou no quarto e me pediu para esperar do lado de fora. Eu fiquei no corredor olhando para uma porta fechada, com o celular na mão, esperando uma ligação de Lucas que nunca veio.
Quando o médico saiu, não precisou dizer muito. O modo como tirou os óculos antes de falar foi suficiente. Minha mãe tinha morrido.
Eu não chorei imediatamente. A dor foi grande demais para caber em lágrimas. Sentei numa cadeira e fiquei ali, com o formulário de autorização ainda aberto no celular, percebendo que todo o esforço dos últimos cinco anos tinha terminado num corredor de hospital.
No dia seguinte, Renata enviou uma mensagem objetiva dizendo que o processo poderia seguir assim que eu apresentasse uma nova atualização médica. Eu respondi apenas com a certidão de óbito. Depois pedi que o cadastro de tratamento fosse encerrado.
Foi por isso que algumas pessoas da unidade ficaram sabendo. O setor de apoio recebeu o documento para fechar o processo hospitalar, e o nome de Lucas constava como meu marido e contato familiar. Ninguém imaginou que ele não soubesse.
Eu não fiz nenhuma questão de esconder a morte da minha mãe. Também não procurei Lucas para contar. Eu já tinha feito isso quando ela ainda estava viva, e ele tinha escolhido não ouvir.
Passei os dias seguintes organizando o velório, assinando papéis e separando minhas poucas coisas. Quando Lucas telefonou para anunciar que havia autorizado a retomada do tratamento, eu não discuti. Apenas ouvi até ele terminar.
Depois desliguei, coloquei meu velho casaco de lona dentro da mala e fechei o zíper. A mulher que costumava pedir permissão para tudo tinha acabado junto com aquela última esperança.
Na manhã do enterro, vesti preto, peguei a documentação do divórcio e deixei a casa. Enquanto eu caminhava para me despedir da minha mãe, Lucas erguia um copo com os colegas na confraternização da unidade — sem saber que, quando aquele brinde terminasse, a vida que ele considerava perfeitamente sob controle já não existiria mais.

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