
Parte 9
O dia em que eu deveria ter me casado chegou numa manhã de céu limpo.
Eu sabia que chegaria, obviamente.
Mesmo assim, quando vi a data na tela do celular, fiquei alguns segundos parada.
Durante quase um ano, aquele número estivera associado a horários, reservas, provas, listas de convidados e pequenos planos.
Às dez da manhã eu deveria estar começando a me arrumar.
Ao meio-dia, alguém provavelmente estaria organizando flores.
À tarde, minha mãe estaria preocupada se eu tinha comido.
À noite, haveria música, fotos e discursos.
Nada disso aconteceu.
Eu estava em casa, usando uma camiseta velha e montando uma apresentação para a reunião de segunda-feira.
Minha mãe me ligou.
— Quer vir almoçar aqui?
— Quero.
Ela não mencionou a data.
Eu também não.
Quando cheguei, meu pai estava fazendo churrasco na varanda. Minha mãe preparara salada e arroz. Um almoço absolutamente comum.
Talvez por isso tenha sido tão bom.
No meio da tarde, meu celular vibrou.
Bruno.
Fiquei olhando para o nome.
Ele não me ligava havia semanas.
Atendi.
— Oi.
Do outro lado, ele respirou fundo.
— Eu sei que disse que não procuraria você sem motivo.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Quer dizer… nada urgente.
Esperei.
— Eu só queria saber se você aceitaria me encontrar por meia hora hoje.
Fechei os olhos.
— Por causa da data?
— Sim.
Meu primeiro impulso foi recusar.
Depois pensei no que ainda existia entre nós.
Nada material.
Nenhuma decisão pendente.
Nenhuma esperança minha de reconciliação.
Talvez justamente por isso eu pudesse ouvi-lo sem risco de voltar ao ponto inicial.
Marcamos no fim da tarde, numa praça perto do prédio onde morávamos — onde eu morava.
Bruno chegou sozinho.
Parecia diferente.
Não mais magro ou mais velho de forma dramática. Apenas menos controlado.
Durante nosso relacionamento, ele sempre parecia saber como conduzir cada situação.
Agora sentou ao meu lado sem tentar definir o tom da conversa.
— Hoje eu acordei pensando que provavelmente estaria nervoso com a cerimônia.
— Eu também pensei nos horários.
Ele assentiu.
— Caio está comigo este fim de semana.
— Como ele está?
— Bem. Reclama que meu macarrão é ruim.
Sorri sem querer.
— Talvez seja.
— Provavelmente é.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável.
Bruno falou sobre terapia.
Eu não havia perguntado.
Disse que começara algumas semanas antes porque percebeu que, em muitos momentos da vida, confundia evitar conflitos com cuidar das pessoas.
— Minha mãe fazia muito isso comigo — contou. — Quando eu era adolescente, ela resolvia problemas antes que meu pai descobrisse. Quando comecei a trabalhar, eu escondia dificuldades até conseguir consertar sozinho. Com a Marina, eu fazia a mesma coisa. Depois fiz com você.
Não respondi imediatamente.
Explicação não era absolvição.
Mas podia ser compreensão.
— Espero que continue trabalhando nisso.
— Vou continuar.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Eu queria te dizer uma coisa sobre o Caio.
Meu corpo ficou alerta.
Bruno percebeu.
— Não é nenhum segredo novo.
Relaxei um pouco.
— Ele perguntou por que não vai mais ao seu apartamento.
Eu esperei.
— Eu disse que aquele lugar era seu e que eu não devia ter levado ninguém para lá sem sua permissão.
Olhei para Bruno.
— Você falou isso para uma criança de sete anos?
— De um jeito mais simples.
— Ainda bem.
— Não falei sobre nosso relacionamento em detalhes. Só disse que os adultos tinham feito algumas escolhas erradas e que ele não tinha culpa.
Assenti.
Era a resposta certa.
Talvez uma das poucas em toda aquela história.
Bruno respirou fundo.
— Helena, eu não pedi para te encontrar para tentar voltar.
A frase me surpreendeu.
— Eu imaginei por muito tempo que, se eu mudasse o suficiente, algum dia você teria obrigação de reconsiderar.
— Obrigação?
— Não racionalmente. Mas eu pensava: se eu fizer terapia, se eu assumir o Caio direito, se eu aprender, talvez ela veja que eu mereço outra chance.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Só que isso ainda seria transformar minha mudança numa dívida sua.
Olhei para ele.
Bruno finalmente parecia entender algo que eu tentara explicar várias vezes.
— Sim.
— Então eu não quero te pedir nada.
O sol estava baixando entre os prédios.
Pessoas passeavam com cachorros.
Uma criança passou de bicicleta.
A vida ao redor de nós era completamente indiferente ao fato de que aquela deveria ser nossa noite de casamento.
E aquilo era estranhamente reconfortante.
— Eu fui muito feliz com você — disse Bruno.
— Eu também fui.
— Isso torna tudo mais difícil.
— Torna.
— Você se arrepende?
Pensei.
— De ter te conhecido?
Ele assentiu.
— Não.
Bruno pareceu surpreso.
— Eu me arrependo de algumas decisões. Mas não quero reescrever anos da minha vida só porque o final foi ruim.
Ele ficou olhando para frente.
— Eu queria conseguir pensar assim.
— Talvez consiga um dia.
Ficamos mais alguns minutos.
Quando nos levantamos, Bruno estendeu a mão.
Por um instante achei formal demais.
Depois aceitei.
Ele apertou de leve.
— Tchau, Helena.
— Tchau, Bruno.
Não houve abraço.
Não houve promessa de amizade.
Não houve “quem sabe no futuro”.
Eu caminhei de volta até meu carro sem olhar para trás.
Naquela noite, ao chegar em casa, entrei no escritório recém-pronto.
Sobre a mesa havia amostras, plantas e um caderno aberto.
Sentei.
A data ainda era a mesma.
O casamento ainda não tinha acontecido.
Mas, pela primeira vez, aquele dia não pareceu uma coisa que me tinha sido roubada.
Pareceu simplesmente um dia que tomou outro rumo.
Antes de dormir, abri o aplicativo da fechadura.
Não para investigar nada.
Apenas porque precisava alterar uma configuração.
O sistema sugeria atualizar as permissões de segurança.
Confirmei.
Então apareceu uma pergunta simples:
“Deseja revisar os usuários autorizados?”
Toquei em “sim”.
Dois nomes.
O meu.
Dona Teresa.
Revisei.
Tudo certo.
Fechei o aplicativo.
No dia seguinte, começaria a primeira viagem longa do novo projeto.
E eu já sabia que, quando voltasse, encontraria minha casa exatamente como havia deixado.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














