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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

Três dias depois, nossas famílias se reuniriam para um almoço que havia sido marcado semanas antes para acertar detalhes finais do casamento.

O encontro não fazia mais sentido.

Mesmo assim, havia uma conversa que não podia continuar sendo adiada.

Até então, apenas nossos pais e alguns amigos próximos sabiam do cancelamento. Muitos parentes ainda acreditavam que a cerimônia aconteceria normalmente.

Bruno sugeriu que contássemos juntos.

Aceitei por um motivo simples: não queria que a história circulasse como uma coleção de versões incompletas.

Nos encontramos na casa dos meus pais.

Minha mãe preparou café, meu pai permaneceu mais calado do que o normal, e Sônia chegou acompanhada do marido. Bruno veio sozinho.

Ninguém mencionou decoração, buffet ou convidados.

Bruno foi o primeiro a falar.

— O casamento foi cancelado por causa de uma situação que eu escondi da Helena.

Olhei para ele.

Ele continuou.

— Eu tenho um filho de sete anos, o Caio. Ele nasceu antes de eu conhecer a Helena. Eu nunca contei isso para ela.

Meu pai endureceu a expressão.

Minha mãe já sabia, mas mesmo assim apertou a caneca com força.

Bruno explicou ainda que permitira visitas de Marina e Caio ao meu apartamento sem meu conhecimento e que cadastrara a digital de Marina na fechadura.

Não tentou reduzir.

Não disse que tinha sido um mal-entendido.

Sônia assumiu a própria participação.

— Eu também sabia que Helena não sabia. E mesmo assim participei das visitas.

Meu pai perguntou apenas:

— Por quê?

Bruno respirou fundo.

— Porque eu tinha medo de perder a Helena.

Meu pai olhou para ele.

— E agora?

A pergunta foi simples.

Bruno não teve resposta imediata.

Eu tive.

— Agora ele me perdeu como noiva.

Foi a primeira vez que disse aquilo diante de todos.

Não “o casamento está suspenso”.

Não “a gente está passando por uma crise”.

Eu não era mais noiva de Bruno.

Depois da conversa, decidimos que cada família avisaria seus próprios parentes. A mensagem seria curta: o casamento tinha sido cancelado por decisão do casal e não haveria nova data.

Não tínhamos obrigação de distribuir detalhes íntimos como justificativa pública.

Aquilo também era um limite.

Eu não queria transformar Caio em assunto de fofoca familiar.

Horas depois, Bruno me mandou uma mensagem:

“Obrigado por não expor o Caio.”

Respondi:

“Ele não fez nada.”

Naquela mesma semana, ele assinou o contrato de aluguel de um apartamento menor, a cerca de vinte minutos da casa de Marina.

Era o primeiro espaço realmente dele.

Sem minha casa.

Sem a casa da mãe.

Sem a necessidade de encaixar a relação com Caio nos intervalos escondidos de outra vida.

Bruno me enviou uma foto das chaves.

Não respondi.

Não porque desejasse mal.

Mas porque aquilo pertencia a uma nova organização da vida dele, e eu precisava parar de sentir que devia participar de cada passo.

A minha decisão importante veio dois dias depois.

Recebi uma proposta de projeto que exigiria viagens frequentes durante quatro meses. Antes, eu provavelmente recusaria. Com o casamento próximo, eu havia diminuído voluntariamente meu volume de trabalho para organizar a cerimônia e adaptar a rotina.

Abri o e-mail e percebi algo desconfortável.

Eu tinha começado a planejar minha vida ao redor de um casamento enquanto Bruno planejara o casamento ao redor de duas vidas que eu nem sabia que existiam.

Aceitei o projeto.

Não como fuga.

Não para trabalhar até esquecer.

Aceitei porque era uma oportunidade que eu realmente queria e que havia colocado em segundo plano.

Quando contei à minha mãe, ela sorriu.

— Então você já decidiu sobre o Bruno?

— Não sei se uma decisão precisa acontecer numa frase.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Como assim?

— Estou decidindo todos os dias. Tirei o anel. Cancelei o casamento. Removi o acesso dele. Separei nossas coisas. Aceitei um projeto pensando só na minha vida. Talvez o fim não aconteça quando alguém diz “acabou”. Talvez aconteça quando você para de organizar o futuro considerando aquela pessoa.

Minha mãe assentiu.

Dias depois, Bruno pediu para me ver.

Dessa vez, hesitei.

Não porque estivesse com medo da conversa, mas porque já não tinha certeza de que ela era necessária.

Mesmo assim aceitei.

Encontramo-nos no apartamento novo dele.

Foi a primeira vez que entrei.

O lugar tinha dois quartos pequenos.

Um deles estava vazio, exceto por uma cama de solteiro ainda desmontada e uma caixa com o mesmo tipo de dinossauro que Caio gostava.

Bruno percebeu meu olhar.

— Vou montar o quarto com ele. Quero que escolha as coisas.

— Faz sentido.

Sentamos na sala.

Ele foi direto.

— Eu quero tentar reconstruir nossa relação.

Não me surpreendi.

— Como?

— Sem esconder nada. Terapia, conversa, o que você quiser. Eu sei que não posso pedir que você esqueça.

— E por que você quer voltar?

Bruno pareceu confuso.

— Porque eu te amo.

— Isso eu já ouvi. Quero saber o que você acha que precisa mudar.

Ele demorou.

— Eu preciso parar de evitar conflito.

Continuei esperando.

— Preciso parar de decidir o que os outros aguentam ou não aguentam saber.

Aquilo era mais específico.

— E preciso assumir minha vida inteira. Caio não pode ser uma parte escondida dela.

Assenti.

Bruno se inclinou para frente.

— Então existe alguma chance?

Olhei ao redor.

O apartamento novo, o quarto do filho, as caixas ainda fechadas.

Talvez Bruno realmente estivesse mudando algumas coisas.

Mas eu finalmente conseguia separar duas perguntas.

Ele poderia mudar?

Talvez.

Eu precisava ficar para assistir?

Não.

— Eu espero que você faça tudo isso — respondi. — De verdade.

Os olhos dele se encheram de esperança por um instante.

Então completei:

— Mas não quero que faça para me recuperar.

A esperança desapareceu.

— Quero que faça porque é assim que você precisa viver daqui para frente.

Bruno ficou em silêncio.

Eu me levantei.

Ele também.

— Helena… isso é um adeus?

Olhei para ele.

— É a primeira vez que eu estou dizendo com todas as letras.

Respirei fundo.

— Nosso relacionamento acabou.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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