Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Bruno colocou lentamente a sacola no chão. Não perguntou onde eu tinha ouvido aquele nome. Não fingiu que não conhecia Marina. Apenas respirou fundo e passou a mão pelo rosto. — Helena… eu precisava ter falado com você antes.
— Antes de quê? Antes de dar acesso ao meu apartamento para uma mulher que eu nunca vi? Antes de ela entrar aqui dezenove vezes? Ou antes de sua mãe trazer roupas de criança para dentro da minha casa?
O rosto dele perdeu a cor. — Você foi atrás dos registros? — Fui atrás do que aconteceu dentro de uma casa que é minha. Essa diferença parece ter ficado meio confusa para vocês.
Bruno olhou para o corredor, depois para a porta do quarto menor. Percebi exatamente o instante em que entendeu que eu tinha encontrado as coisas da criança. — O nome do menino é Caio — disse, quase num sussurro.
— Eu não perguntei o nome dele. Perguntei quem é Marina.
Ele fechou os olhos por um instante. — Minha ex-namorada. Ficamos juntos antes de eu conhecer você.
Aquilo era ruim, mas não explicava nem metade. Cruzei os braços. — E por que sua ex tem uma digital cadastrada na minha fechadura?
Bruno demorou mais uma vez. Quando respondeu, não conseguiu olhar diretamente para mim. — Porque Caio é meu filho.
Não lembro de ter sentido o chão sumir. Foi quase o contrário. Tudo ficou sólido demais. O menino agarrando o braço dele no elevador, Sônia carregando roupas, o quarto que de repente precisava ter armários flexíveis. As peças não apareceram naquele momento. Elas já estavam todas diante de mim. Bruno apenas disse em voz alta o desenho que formavam.
— Quantos anos ele tem? — Sete. — E há quanto tempo você sabe? Bruno apertou os lábios. — Desde antes de a gente se conhecer.
Foi aí que alguma coisa dentro de mim mudou. Eu ainda tinha perguntas, mas já não procurava uma explicação capaz de salvar o casamento. Procurava o tamanho exato da mentira.
— Então você começou a namorar comigo sabendo que tinha um filho. Ficou noivo de mim sabendo que tinha um filho. Planejou um casamento comigo sabendo que tinha um filho. E nunca achou necessário contar?
— Eu ia contar. — Quando? — Eu não sabia como. Marina e eu sempre tivemos uma relação complicada por causa do Caio. Eu tinha medo de você achar que…
— Que você tinha um filho? — cortei. — Bruno, isso não é uma opinião que eu poderia formar. É um fato da sua vida.
Ele se aproximou um passo. — Eu sei que errei. Mas não foi porque eu quisesse enganar você para sempre. Eu queria esperar o momento certo. Quando a reforma terminou, minha mãe começou a insistir que Caio precisava conhecer o lugar, ficar mais perto de mim… Marina estava passando por dificuldades para organizar a rotina dele…
— E a solução foi usar meu apartamento escondido de mim.
— Não era assim.
— Então explica como era.
Bruno abriu as mãos, nervoso. Disse que começara levando Caio ali durante períodos em que eu estava viajando porque o apartamento ficava perto da escola onde o menino fazia algumas atividades. Depois, segundo ele, as visitas ficaram mais frequentes. Sônia passou a levar roupas e objetos para evitar que Marina precisasse carregar tudo. Por fim, cadastraram a digital dela porque havia ocasiões em que chegava antes dele.
— Quem cadastrou? — perguntei. — Eu.
A resposta saiu baixa, mas clara.
— Então ontem de manhã, quando perguntei diretamente se você tinha cadastrado alguma digital, você mentiu.
Bruno não respondeu.
— E depois tentou colocar a culpa no sistema. Depois no instalador.
— Eu entrei em pânico.
— Não. Você escolheu duas mentiras em sequência porque ainda achava que eu não sabia o suficiente.
Ele abaixou a cabeça. Pela primeira vez naquela conversa, não tentou me interromper.
— Sua mãe sabe de tudo desde sempre?
— Sabe do Caio, claro.
— Não perguntei isso. Ela sabe que eu nunca soube?
O silêncio foi resposta suficiente.
Senti uma pressão dolorida atrás dos olhos, mas não chorei. A imagem que me veio à cabeça foi Sônia sentada com minha mãe, falando sobre a cerimônia, discutindo arranjos de mesa e dizendo como estava feliz por “ganhar uma filha”. Durante todo aquele tempo, ela sabia que existia uma parte inteira da vida do próprio filho que todos escondiam de mim.
Bruno tentou tocar meu braço. Afastei-me.
— Não faz isso.
— Helena, o Caio não tem culpa.
— Eu sei. E é justamente por ele não ter culpa que você não vai usar uma criança para desviar esta conversa.
Ele ficou quieto.
— O problema não é você ter um filho — continuei. — O problema é você ter decidido sozinho que eu não tinha direito de saber. Depois decidiu sozinho que ele podia frequentar meu apartamento. Depois decidiu sozinho que sua ex podia entrar aqui. Depois mentiu quando eu perguntei.
— Eu posso consertar.
Olhei ao redor. As lembrancinhas do casamento, os cartões de mesa, o apartamento reformado para uma vida que aparentemente só eu acreditava estar começando ali.
— Hoje você não vai consertar nada.
— O que isso quer dizer?
Peguei meu celular e abri a conversa com a assessora do casamento. Escrevi diante dele: “Preciso suspender todos os preparativos imediatamente. Amanhã entro em contato para tratar dos contratos.”
Bruno empalideceu.
— Helena, faltam 48 dias.
— Eu sei exatamente quantos faltam.
— Você vai cancelar nosso casamento por causa disso?
Olhei para ele por alguns segundos.
— Ainda não decidi tudo o que vou fazer. Mas sei uma coisa: daqui a 48 dias eu não vou subir num altar fingindo que conheço o homem que está ao meu lado.
Ele tentou argumentar. Falou que me amava, que tinha medo de me perder, que sua relação com Marina era apenas por causa de Caio. Não discuti nenhuma dessas afirmações.
— Pegue o que você precisa para hoje e vá embora.
— Esta também ia ser minha casa.
— Ia.
A palavra fez mais efeito do que um grito.
Bruno ficou parado. Depois entrou no quarto, colocou algumas roupas numa mochila e voltou para o hall. Antes de sair, olhou novamente para mim.
— Posso voltar amanhã para a gente conversar com calma?
— Amanhã você pode me mandar mensagem. Eu decido se quero conversar.
Ele segurou a maçaneta.
— Helena, por favor, não faça nada definitivo hoje.
Fui até a porta.
— Bruno, o problema é que você já fez muita coisa definitiva sem me perguntar.

Fechei a porta atrás dele.

Então caminhei até a fechadura e apaguei a Digital 02.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 3 👇📖

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1