
Parte 4
Marina escolheu uma padaria grande perto da estação do metrô. Quando cheguei, ela já estava sentada no fundo do salão.
Reconheci-a imediatamente pelas imagens do condomínio.
Ao vivo, parecia menos segura. Mantinha as mãos em volta de uma xícara que já não soltava vapor e olhava para a porta a cada poucos segundos.
Sentei diante dela.
— Obrigada por vir.
— Eu achei que devia.
Não havia hostilidade na voz.
Isso tornou tudo estranhamente mais difícil.
Marina foi a primeira a falar.
— Bruno me contou que você descobriu sobre Caio.
— Descobri sobre Caio depois de descobrir que você tinha uma digital cadastrada na fechadura da minha casa.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Eu imaginava que isso acabaria acontecendo.
— Você sabia que eu não sabia?
— Sabia.
Não tentou mentir.
— E mesmo assim entrou lá dezenove vezes.
Marina apertou os dedos em torno da xícara.
— Bruno dizia que o apartamento seria de vocês depois do casamento. Falava como se já fosse a casa dele também.
— O imóvel é meu desde antes de conhecê-lo.
Ela ergueu os olhos.
— Eu não sabia disso.
Aquela foi a primeira informação nova que realmente alterou alguma coisa.
Marina não tinha sido apresentada à situação da mesma maneira que eu.
Segundo ela, Bruno falava do lugar como “nosso apartamento”. Quando Sônia começou a dizer que Caio precisava se acostumar com a casa onde passaria alguns fins de semana depois do casamento, Marina inicialmente recusou.
— Eu perguntei sobre você — disse ela. — Perguntei se você estava confortável com aquilo.
— E o que ele respondeu?
— Que vocês já tinham conversado sobre Caio, mas que ainda estavam organizando como seria a convivência.
Fiquei imóvel.
— Ele disse que eu sabia?
— Disse.
A segunda mudança aconteceu ali.
Não era apenas que Bruno escondera a verdade de mim.
Ele havia usado uma mentira sobre mim para tornar o próprio plano aceitável para Marina.
— E a digital?
Marina respirou fundo.
— Eu não pedi. Um dia cheguei com Caio e Bruno ainda estava trabalhando. A mãe dele estava lá. Depois que ele apareceu, disse que seria mais fácil cadastrar minha digital para eu não depender da portaria. Eu perguntei de novo se você não se incomodaria. Ele disse que o aplicativo era administrado pelos dois.
Eu não precisava acreditar automaticamente em cada palavra dela. Mas aquela versão combinava com os registros.
— Por que vocês levavam roupas e brinquedos para lá?
— Sônia queria deixar algumas coisas do Caio guardadas. Ela falava muito sobre ele ter um quarto na casa do pai.
Meu quarto de trabalho.
O quarto que Bruno sugerira deixar “flexível para quando tivéssemos filhos”.
Aquilo não provava que, desde o início, ele planejara transformar o cômodo em espaço para Caio. Mas a coincidência já não parecia inocente.
Marina mexeu a colher na xícara.
— Quero deixar uma coisa clara. Bruno e eu não estamos juntos.
— Eu não vim perguntar se vocês dormem juntos.
Ela pareceu surpresa.
— Vim porque meu problema agora é descobrir quantas decisões sobre a minha vida foram tomadas por pessoas que acreditavam que eu já tinha concordado.
Marina ficou em silêncio.
Perguntei então sobre Caio.
Bruno o reconhecia publicamente como filho? Participava da rotina? Contribuía financeiramente? Havia um acordo entre eles?
Marina respondeu com cautela. Bruno ajudava, encontrava o menino regularmente e pagava parte das despesas. O problema nunca fora a ausência total dele como pai.
O problema, pelo que comecei a perceber, era que Bruno mantinha compartimentos.
Uma vida comigo.
Outra com o filho.
Uma comunicação com a mãe.
Outra com Marina.
E em cada compartimento distribuía apenas a quantidade de verdade necessária para evitar conflito.
— Eu não quero envolver Caio nisso — falei.
Marina relaxou um pouco.
— Nem eu.
— Mas também não vou fingir que foi normal você entrar na minha casa sem minha autorização.
— Eu sei.
Ela abriu a bolsa e colocou sobre a mesa um cartão de acesso temporário do condomínio.
— Sônia tinha me dado isso antes da digital. Eu não usei desde que Bruno me falou que você descobriu.
Peguei o cartão.
— Obrigada.
Marina demorou antes de continuar.
— Posso dizer uma coisa sem parecer que estou tentando me defender?
Assenti.
— Se eu soubesse que você não sabia do Caio, nunca teria levado meu filho para aquele apartamento. Não porque eu ache que ele precise ser escondido. Justamente pelo contrário. Criança não deveria ser colocada dentro de uma mentira de adulto.
Aquilo doeu mais do que uma provocação teria doído.
Porque eu concordava.
Saí da padaria sem transformar Marina em amiga e sem absolvê-la de tudo. Ela poderia ter feito mais perguntas. Poderia ter estranhado nunca me encontrar. Poderia ter recusado uma digital numa casa que não era dela.
Mas havia uma diferença importante entre nós.
Bruno mentira para mim sobre a existência de Caio.
E mentira para Marina dizendo que eu sabia.
No dia seguinte, ele veio buscar as coisas.
Dona Teresa ficou na cozinha enquanto eu acompanhava a retirada.
Bruno olhou para as caixas.
— Você falou com Marina?
— Falei.
O corpo dele ficou tenso.
— E?
— Ela disse que você contou que eu sabia de Caio.
Ele não respondeu.
— Disse também que você falou do apartamento como se fosse nosso e que eu concordava com as visitas.
— Helena, eu queria facilitar as coisas.
— Para você.
— Para todo mundo.
— Não. Se fosse para todo mundo, todo mundo teria as mesmas informações.
Ele encostou uma caixa no chão com força um pouco maior que o necessário.
— Marina está se colocando como inocente agora.
— Não estou discutindo se ela é inocente. Estou falando de você.
— Ela também sabia que a situação era complicada.
— Complicada não é a mesma coisa que secreta.
Bruno soltou o ar.
— O que você quer que eu faça?
A pergunta finalmente apareceu.
Durante dias, ele tentara explicar, convencer, minimizar, pedir tempo.
Agora perguntava o que eu queria.
Olhei para as caixas.
— Primeiro, retire suas coisas. Segundo, amanhã vou confirmar o cancelamento do casamento. Terceiro, quero que a gente faça um levantamento do que cada um pagou na reforma e nos móveis. O apartamento continua sendo meu, mas não vou usar isso para ficar com coisas que são suas.
Ele me encarou.
— Você realmente vai cancelar.
— Já cancelei a ideia de me casar daqui a 48 dias. Amanhã só vou transformar isso em procedimentos.
— E nós?
— Nós estamos separados enquanto eu decido se ainda existe alguma coisa que possa ser reconstruída.
Bruno fechou os olhos.
— Eu te amo.
— Pode ser verdade.
Ele pareceu não esperar essa resposta.
— Mas amor não devolve a alguém as escolhas que você tomou no lugar dela.
Bruno pegou a última caixa.
Antes de sair, virou-se.
— Minha mãe vai querer falar com você.
— Sua mãe pode querer. Eu ainda não decidi se vou querer ouvir.
Fechei a porta.
Minutos depois, o celular começou a tocar.
Sônia Azevedo.
Olhei o nome na tela até a chamada terminar.
Ela ligou novamente.
Na terceira vez, deixei tocar.
Eu já tinha descoberto o que Bruno fizera.
Agora precisava decidir se queria ouvir por que sua mãe achara aceitável participar daquilo.
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