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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

Parte 10

Quatro meses depois, voltei de uma viagem de trabalho numa quinta-feira à noite.

Era quase dez horas quando o carro me deixou diante do condomínio.

Desci com a mala, coloquei a bolsa do notebook no ombro e caminhei até a portaria.

A cena era parecida demais com aquela de meses antes.

Viagem.

Cansaço.

Mala.

Apartamento me esperando no décimo segundo andar.

A diferença era que eu não sentia mais necessidade de imaginar o que poderia estar atrás da porta.

A recepcionista me cumprimentou.

— Boa noite, dona Helena. Viagem longa?

— Longa demais.

Ela riu.

— Dona Teresa veio hoje de manhã. Fora isso, ninguém autorizado entrou.

Eu nem tinha perguntado.

Talvez ela ainda lembrasse do que acontecera.

— Obrigada.

Subi.

Quando a tela da fechadura acendeu, coloquei o dedo no leitor.

Digital 01.

A porta abriu.

O apartamento estava do mesmo jeito que eu deixara.

A sala tinha mudado um pouco desde o casamento cancelado. As caixas de lembrancinhas desapareceram havia meses. Os cartões das mesas foram descartados. Um quadro novo ocupava uma parede que antes eu deixara vazia esperando que Bruno escolhesse alguma coisa comigo.

No quarto menor, meu escritório estava finalmente completo.

Larguei a mala no quarto, tomei banho e preparei algo simples para comer.

Enquanto esperava a água ferver, meu celular tocou.

Era minha mãe.

— Chegou?

— Acabei de entrar.

— Tudo certo?

Olhei ao redor.

— Tudo certo.

Ela começou a falar sobre um almoço no fim de semana. Meu pai queria testar uma churrasqueira nova. Uma prima apareceria com os filhos. Coisas comuns.

Quando desliguei, percebi o quanto tinha aprendido a valorizar o que não precisava ser dramático.

Durante muito tempo, pensei que o fim de uma história importante exigia uma grande cena final.

Não exigia.

Algumas histórias terminavam em documentos cancelados, objetos devolvidos, senhas alteradas e dias que voltavam a ser normais.

Bruno e eu não mantínhamos contato regular.

Eu soubera por Marina, numa mensagem ocasional, que ele continuava passando fins de semana com Caio. Depois disso, ela e eu praticamente não conversamos mais.

Era melhor assim.

A relação entre Bruno e o filho pertencia aos dois.

Eu não precisava acompanhá-la para validar minha decisão.

Também não precisava torcer pelo fracasso dele.

Durante alguns meses, essa foi talvez a descoberta mais estranha.

Eu podia acreditar que Bruno tinha feito algo profundamente errado comigo e, ao mesmo tempo, desejar que ele se tornasse um pai melhor.

Uma coisa não anulava a outra.

Sônia nunca mais tentou interferir.

Minha mãe encontrou com ela por acaso certa vez e me contou que trocaram apenas cumprimentos.

Ninguém precisava virar inimigo eterno.

Mas ninguém precisava continuar íntimo apenas porque quase se tornou família.

No trabalho, o projeto que eu aceitara depois do cancelamento havia crescido. Minha equipe assumira mais duas unidades, e eu provavelmente teria novas viagens nos meses seguintes.

Eu gostava daquilo.

Não porque minha carreira substituísse um relacionamento.

Não substituía.

Uma coisa não precisava ocupar o lugar da outra.

Gostava porque era uma parte da minha vida que continuava sendo minha.

No sábado, Dona Teresa apareceu para fazer a limpeza.

Quando entrou no escritório, parou diante da mesa.

— Finalmente usou esse quarto direito.

Ri.

— Demorei.

Ela apontou para os armários.

— E cabe muita coisa.

— Pois é. O projeto original estava certo.

Ela não sabia metade da história daquele cômodo.

E não precisava saber.

Naquela tarde, minha mãe veio me buscar para o almoço.

Enquanto esperava, abri uma gaveta procurando um carregador.

No fundo encontrei um pequeno envelope.

Por um segundo meu coração apertou.

Depois percebi que era apenas uma amostra antiga dos cartões do casamento, esquecida entre documentos.

Peguei o papel.

Nossos nomes estavam impressos lado a lado.

Helena Duarte e Bruno Azevedo.

Meses antes, talvez eu tivesse ficado sentada olhando aquilo por horas.

Agora apenas passei o dedo sobre as letras.

Depois rasguei o cartão ao meio e coloquei no lixo.

Não por raiva.

Porque eu não precisava mais guardar.

No almoço, minha prima perguntou se eu estava saindo com alguém.

Minha mãe quase derrubou o garfo tentando mudar de assunto.

Eu ri.

— Não precisa me proteger de perguntas.

Minha prima ficou vermelha.

— Desculpa.

— Tudo bem.

— Então?

— Não.

Ela começou a falar que conhecia um rapaz.

Levantei a mão.

— Também não precisa resolver.

Todos riram.

Foi simples.

Leve.

Sem a sensação de que eu precisava provar estar curada entrando rapidamente em outra relação.

Meses antes, eu tivera pressa de construir uma vida a dois.

Agora não tinha pressa nenhuma.

Naquela noite, voltei para casa sozinha.

E gostei de voltar.

Alguns dias depois, recebi uma mensagem de Bruno.

Não nos falávamos havia bastante tempo.

“Helena, estou trocando de celular e encontrei algumas fotos suas misturadas aos arquivos antigos. Separei as que eram só suas. Posso mandar e depois apagar daqui.”

Respondi:

“Pode.”

Ele enviou uma pasta.

Fotos de viagens.

Aniversários.

Dias comuns.

Eu numa obra usando capacete.

Eu dormindo no sofá com um livro aberto.

Eu segurando tinta na reforma do apartamento.

Não apaguei todas.

Guardar uma fotografia não significava querer voltar.

Meu passado não precisava ser destruído para que meu futuro fosse livre.

Depois que confirmei o recebimento, Bruno respondeu:

“Espero que você esteja bem.”

Escrevi:

“Estou.”

Fiquei alguns segundos olhando para a tela.

Então acrescentei:

“Espero que você e o Caio também estejam.”

Ele respondeu:

“Estamos aprendendo.”

Sorri.

“Ótimo.”

A conversa terminou ali.

Sem convite.

Sem nostalgia transformada em promessa.

Sem reconciliação.

Na semana seguinte, precisei atualizar novamente o aplicativo da fechadura.

Depois da instalação, o sistema mostrou a lista de usuários.

Digital 01 — Helena.

Digital 03 — Teresa.

Fiquei olhando para o espaço onde um dia existira a Digital 04.

Durante muito tempo, achei que aquela quarta digital fosse o símbolo da mulher desconhecida que entrou na minha casa.

Depois entendi que representava algo maior.

Ela marcava todas as decisões tomadas sobre minha vida enquanto eu estava fora da conversa.

Quem podia entrar.

Quem podia saber.

Quando eu deveria descobrir.

Quanto da verdade eu teria permissão para conhecer.

Bruno dizia que escondera Caio porque tinha medo de me perder.

Talvez fosse verdade.

Mas amar alguém não dá o direito de controlar as informações que essa pessoa precisa para escolher se quer ficar.

Foi essa parte que eu nunca consegui esquecer.

E foi justamente por entendê-la que nunca me arrependi de ter ido embora.

Fechei o aplicativo.

A tela apagou.

Na sala, a luz do fim da tarde entrava pela janela e atravessava o piso que eu escolhera muito antes de conhecer Bruno.

Meu apartamento não parecia vazio.

Parecia meu.

E, pela primeira vez em muito tempo, meu futuro também.

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