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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

O acordo de divórcio ficou pronto quase quatro meses depois da madrugada da fotografia.

Não houve processo escandaloso.

Não houve batalha pública.

Também não houve facilidade.

Cada bem precisava ser analisado.

Cada participação profissional precisava estar compatível com a reorganização que havíamos concluído.

Nossos advogados trocaram versões, fizeram ajustes e corrigiram detalhes até que nenhum de nós precisasse aceitar algo que considerasse injusto.

Quando finalmente chegamos a um consenso, a formalização foi marcada.

Na manhã daquele dia, acordei cedo.

Durante alguns minutos, fiquei olhando para o teto do apartamento.

Era curioso perceber que eu não sentia medo.

No início, eu imaginara que o momento em que o casamento terminasse oficialmente seria devastador.

Não foi.

A parte mais dolorosa já tinha acontecido antes.

Na mesa de jantar fria.

Na foto recebida às 1h17.

Nas palavras “para de fazer drama”.

Nas semanas em que percebi que meu marido confiara suas frustrações a outra pessoa enquanto tratava minhas inquietações como exagero.

A assinatura era apenas o último passo.

Caio chegou alguns minutos antes de mim.

Vestia um terno azul-escuro, parecido com tantos outros que eu escolhera para ele durante o casamento.

Por um instante, aquela familiaridade apertou meu peito.

Sete anos não desapareciam porque um documento estava sobre a mesa.

Ele se levantou quando entrei.

— Oi.

— Oi.

Sentamos com nossos advogados.

Os termos foram lidos novamente.

Não havia filhos menores envolvidos, e a divisão patrimonial já estava consensualmente ajustada. O procedimento pôde seguir sem a guerra que tantos imaginavam quando souberam da separação.

Quando chegou minha vez, peguei a caneta.

Minha mão não tremeu.

Assinei.

Caio assinou depois.

Foi simples assim.

Nenhum trovão.

Nenhuma música triste.

Nenhuma sensação de que o mundo havia parado.

Apenas duas assinaturas encerrando uma estrutura que durante sete anos organizara nossas vidas.

Quando tudo terminou, nossos advogados saíram primeiro.

Eu estava guardando meus documentos quando Caio falou:

— Então acabou.

Olhei para ele.

— Acabou.

Ele assentiu.

Depois colocou as mãos nos bolsos e ficou em silêncio.

Parecia procurar alguma coisa para dizer.

— Você se arrepende? — perguntou.

A pergunta não me surpreendeu.

Pensei antes de responder.

— Do casamento?

— De tudo.

Olhei pela janela.

— Não me arrependo de ter me casado com você.

Caio levantou os olhos.

— Também não.

— Mas não me arrependo de ter ido embora.

Ele respirou fundo.

— Eu imaginei.

Ficamos algum tempo sem falar.

Depois ele perguntou:

— Se aquela foto nunca tivesse sido enviada, você acha que ainda estaríamos juntos?

Dessa vez, demorei mais.

— Talvez.

Caio pareceu sentir o peso daquela resposta.

— Isso seria melhor?

— Não sei.

E eu realmente não sabia.

Talvez continuássemos por anos naquela versão aparentemente funcional do nosso casamento.

Talvez alguma outra situação nos obrigasse a olhar para as mesmas fissuras.

Talvez tivéssemos encontrado um caminho para consertá-las antes que fosse tarde.

Não havia como saber.

— A foto não destruiu nosso casamento sozinha — disse. — Só tirou a possibilidade de continuar fingindo que estava tudo bem.

Caio assentiu.

— Eu sei.

Quando saímos do prédio, caminhamos juntos até a calçada.

Durante anos, teria sido automático irmos para o mesmo carro.

Naquele dia, havia dois veículos esperando.

Caio parou ao meu lado.

— O escritório novo abre oficialmente na segunda, não é?

— Sim.

— André disse que ficou bonito.

Sorri.

— Ficou.

Ele hesitou.

— Parabéns.

— Obrigada.

Eu poderia ter respondido de muitas formas.

Escolhi aquela.

Porque era suficiente.

Antes de entrar no carro, Caio me chamou mais uma vez.

— Helena.

Virei.

— Eu espero que dê certo.

Olhei para ele.

— Para você também.

Não era perdão completo.

Talvez nunca fosse.

Mas também já não havia necessidade de punição.

Entrei no carro e fechei a porta.

Na segunda-feira seguinte, cheguei ao Duarte Advocacia e Gestão às sete e vinte da manhã.

Quase ninguém tinha chegado.

Caminhei pelas salas ainda silenciosas.

Havia computadores novos, algumas mesas reaproveitadas e plantas que eu mesma escolhera.

Na recepção, a placa com nosso nome tinha sido instalada no fim de semana.

Passei os dedos sobre as letras.

Helena Duarte.

Durante anos, eu me acostumara a ver meu nome ao lado do de Caio.

Agora ele estava sozinho.

Não menor.

Não incompleto.

Apenas meu.

Quando a equipe começou a chegar, não fiz discurso.

Cumprimentei cada pessoa e fui trabalhar.

Às dez horas, tivemos nossa primeira reunião com um cliente.

Ao meio-dia, surgiu um problema de sistema.

Às três da tarde, precisei renegociar um contrato.

Nada parecia cinematográfico.

E eu adorei isso.

Minha nova vida não precisava começar com uma cena grandiosa.

Bastava que fosse realmente minha.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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