
PARTE 2
Dormi pouco mais de duas horas. Quando acordei, havia trinta e sete chamadas perdidas de Caio e mais de uma centena de notificações do escritório. Não abri o grupo primeiro. Fiz café, sentei diante da bancada ainda sem cadeiras suficientes e liguei para a advogada que cuidava dos contratos pessoais da minha família havia anos.
Não pedi que ela resolvesse minha vida por mim. Expliquei apenas que pretendia me divorciar e que queria preservar documentos, patrimônio e minha posição profissional sem tomar nenhuma decisão precipitada. Ela me orientou a separar o que era pessoal do que pertencia ao escritório e a não usar meu acesso administrativo para prejudicar Caio. Era exatamente o que eu pretendia fazer.
Depois disso, tirei o celular do silencioso e abri o grupo da equipe. Durante a madrugada, dois sócios tinham pedido que todos evitassem comentários até que a direção se manifestasse. Algumas mensagens tinham sido apagadas, mas o constrangimento continuava evidente. Escrevi apenas que compareceria ao escritório no horário normal e que questões pessoais não deveriam interferir no atendimento aos clientes.
Às oito e quarenta, atravessei a recepção do Valença & Duarte como fazia todos os dias. A diferença era que, naquela manhã, quase ninguém sabia onde colocar os olhos. Alguns me cumprimentaram normalmente; outros ficaram subitamente ocupados com o computador. Eu respondi a todos do mesmo jeito de sempre.
Caio me esperava na minha sala. Ainda vestia a camisa da noite anterior, embora tivesse trocado o paletó, e parecia não ter dormido desde que acordara no apartamento de Marina. Assim que fechei a porta, ele disse que aquilo tinha sido uma irresponsabilidade minha. Eu coloquei a bolsa sobre a mesa e perguntei qual parte: a foto, o local onde ele havia dormido ou o fato de todos terem descoberto.
Ele passou a mão pelo rosto e disse que nada tinha acontecido. Segundo Caio, eles estavam revisando documentos, Marina morava perto do local onde ele terminara uma reunião e ele havia aceitado continuar o trabalho no apartamento dela. Cansado, adormeceu no sofá. Eu ouvi tudo sem interromper.
— Talvez você esteja dizendo a verdade — respondi quando ele terminou. — Mas isso não muda o que aconteceu. Você decidiu que entrar de madrugada na casa da sua estagiária era aceitável, enquanto sua esposa esperava seu aniversário em casa. E depois ela se sentiu no direito de me mandar aquela foto.
Caio insistiu que Marina era jovem, imatura e que provavelmente fizera uma brincadeira idiota. Perguntei por que uma estagiária acreditava que podia brincar daquele jeito com a esposa do homem que a supervisionava. Pela primeira vez, ele ficou alguns segundos sem resposta. Eu não precisava que dissesse nada para perceber que aquela pergunta o incomodava mais do que as outras.
Ele tentou desviar para o grupo do escritório. Disse que eu havia colocado nossa reputação profissional em risco e exposto uma situação privada para cento e cinquenta funcionários. Concordei que não tinha sido uma decisão elegante. Depois acrescentei que ele também tinha colocado a empresa em risco quando levou uma relação de supervisão profissional para dentro do apartamento de uma subordinada.
A porta se abriu depois que pedi a presença dos outros dois sócios responsáveis pela administração. Caio me olhou como se eu estivesse transformando aquilo numa reunião formal de propósito. Eu estava. Não para humilhá-lo, mas porque, a partir daquele momento, eu já não aceitaria que casamento e empresa fossem tratados como se fossem a mesma coisa.
Expliquei aos dois sócios que eu não tomaria parte em nenhuma decisão relacionada a Marina. Como esposa de Caio e destinatária das mensagens, eu tinha conflito demais para isso. Pedi que recursos humanos analisasse apenas a dimensão profissional da situação: a relação entre supervisor e estagiária, a permanência dele no apartamento dela durante uma atividade apresentada como trabalho e as mensagens que ela enviara para uma diretora da empresa.
Caio ficou vermelho de irritação, mas não me interrompeu. Um dos sócios concordou que Marina deveria ser temporariamente afastada da supervisão direta dele até que conversassem com ambos. O outro determinou que nenhum comentário interno sobre a vida pessoal de qualquer um seria tolerado. Pela primeira vez desde a madrugada, senti que alguma coisa concreta tinha mudado.
Quando a reunião terminou, Caio ficou na sala. Disse em voz mais baixa que queria conversar comigo em casa naquela noite. Respondi que eu não morava mais lá. Ele levantou os olhos tão rápido que, por um instante, pareceu realmente não ter entendido.
— Você saiu de casa? — perguntou.
— Às três da manhã.
A expressão dele mudou completamente. Talvez até aquele momento Caio tivesse acreditado que a palavra “divórcio” fosse apenas uma ameaça dita no calor da raiva. Peguei uma pasta com documentos pessoais que já mantinha no escritório e saí antes que ele encontrasse outra forma de chamar aquilo de drama.
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