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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

A notícia de que eu realmente havia deixado nossa casa mudou o comportamento de Caio mais do que todas as mensagens da madrugada.

Durante aquela semana, ele parou de me procurar para discutir no corredor e começou a enviar mensagens curtas perguntando quando poderíamos conversar com calma. Eu respondia apenas ao que era necessário para o trabalho. Sobre o casamento, dizia que falaríamos quando eu tivesse orientação suficiente para não misturar emoção com decisões que afetariam anos da nossa vida.

Enquanto isso, o escritório precisava continuar funcionando.

Era segunda-feira, tínhamos prazos, reuniões com clientes, audiências e pagamentos programados. Nada disso desapareceria porque o casamento dos fundadores estava terminando. E foi justamente nesses dias que uma realidade que normalmente ficava invisível começou a aparecer para todos.

Caio era brilhante diante de um juiz.

Eu sabia disso melhor do que ninguém.

Mas o escritório não sobrevivia apenas de audiências.

Era minha equipe que conferia fluxo de caixa, capacidade de contratação, agenda de profissionais, comunicação com clientes, inadimplência, renovação de contratos, férias, fornecedores e dezenas de outras coisas que ninguém percebia enquanto funcionavam bem.

Quando comecei a organizar uma divisão clara entre minhas responsabilidades e as de Caio, até tarefas pequenas passaram a exigir decisões que antes chegavam automaticamente até mim.

Não fiz aquilo para sabotar ninguém.

Pelo contrário.

Preparei relatórios, nomeei responsáveis provisórios, reuni coordenadores e expliquei que nenhuma área seria abandonada. Se eu viesse a sair da sociedade depois do divórcio, a transição deveria ser feita corretamente.

Foi nessa reunião que um dos sócios mais antigos, André Monteiro, me perguntou diante dos demais:

— Você está mesmo pensando em deixar o escritório?

Olhei para Caio, sentado do outro lado da mesa.

— Estou pensando em separar minha vida profissional da minha vida conjugal. Ainda não decidi como isso vai acontecer.

Caio cruzou os braços.

— Então você pode parar de agir como se já estivesse tudo definido.

Não gostei do tom, mas não respondi na mesma moeda.

— O divórcio está definido. A estrutura profissional ainda não.

A sala ficou em silêncio.

Caio baixou os olhos para os documentos diante dele.

Dois dias depois, o setor de recursos humanos apresentou aos sócios um registro da conversa com Marina. Ela havia confirmado que Caio estivera no apartamento dela naquela noite e que os dois tinham revisado documentos relacionados a um processo. Confirmou também que ele dormira no sofá.

Até ali, a versão era a mesma que Caio tinha me contado.

O problema estava no restante.

Marina admitiu que tirara a foto sem que ele soubesse.

Admitiu também que me enviara as mensagens por iniciativa própria.

Questionada sobre a frase em que dizia que Caio considerava a casa dela mais tranquila do que a nossa, respondeu que ele já havia comentado, em outras ocasiões, que ultimamente preferia permanecer no escritório até tarde porque “em casa tudo virava discussão”.

Essa informação chegou até mim em uma reunião formal, não por fofoca.

Ainda assim, fiquei alguns segundos imóvel.

Caio não havia contado essa parte.

— Você falava do nosso casamento com ela? — perguntei.

Ele pareceu desconfortável.

— Eu reclamei algumas vezes. Só isso.

— Para sua estagiária.

— Helena, você está tentando transformar tudo em alguma coisa maior.

Foi a mesma lógica da madrugada, apenas com palavras diferentes.

Sempre que eu encontrava um limite ultrapassado, ele tratava aquele limite como insignificante.

André interveio antes que a conversa degenerasse. Disse que, independentemente de qualquer relação pessoal, um supervisor não deveria criar um nível de intimidade com uma estagiária que confundisse papéis profissionais. Também afirmou que o episódio já estava afetando a confiança da equipe.

Eu pedi que minha opinião não fosse considerada na decisão sobre Marina.

Os demais sócios decidiram mantê-la afastada de Caio enquanto avaliavam a continuidade do estágio.

Depois da reunião, encontrei Marina perto do elevador.

Ela parecia muito diferente da jovem sempre tranquila que circulava pelo escritório.

Os olhos estavam inchados, e ela apertava uma pasta contra o peito.

Quando me viu, parou.

— Diretora Helena, eu queria conversar com a senhora.

— Agora não.

— É importante.

Olhei para ela.

— Se for sobre trabalho, procure recursos humanos. Se for sobre meu marido, não existe conversa entre nós neste momento.

Ela mordeu o lábio.

— Eu não queria que tudo chegasse a esse ponto.

Quase respondi que tinha sido ela quem enviara a foto.

Mas não valia a pena.

Entrei no elevador e deixei que as portas se fechassem.

Naquela mesma tarde, reuni-me com uma advogada de família escolhida por mim para conduzir o meu divórcio.

Eu poderia ter encontrado dezenas de nomes dentro do próprio escritório.

Não quis.

Preferia alguém completamente fora da nossa estrutura.

Levei documentos básicos, expliquei como o patrimônio fora construído durante os sete anos de casamento e, principalmente, deixei uma coisa clara:

— Não quero puni-lo. Quero sair de forma justa.

Ela assentiu.

— E o escritório?

Olhei pela janela.

Essa era a pergunta mais difícil.

A casa eu conseguia deixar.

Os presentes também.

Mas o escritório carregava anos da minha vida.

Eu lembrava de cada cadeira comprada quando ainda contávamos dinheiro no fim do mês. Lembrava do primeiro funcionário contratado, do primeiro cliente grande, do dia em que finalmente saímos de uma sala apertada para ocupar um andar inteiro.

Caio podia ter se tornado o rosto mais conhecido daquela empresa.

Mas eu também havia construído suas paredes.

— Ainda não sei — respondi.

Naquela noite, quando voltei ao apartamento, encontrei uma sacola deixada com o porteiro.

Dentro havia minhas plantas preferidas, algumas roupas que eu não tinha levado e o carregador de um computador antigo.

Nenhum bilhete.

Eu reconheceria aquela forma de arrumar as coisas em qualquer lugar.

Caio tinha passado por ali.

Não me ligou.

Não pediu para subir.

Talvez estivesse começando a entender que eu realmente não pretendia voltar para casa apenas porque ele dizia que nada tinha acontecido.

E, pela primeira vez, percebi que minha decisão não dependia de descobrir se existia uma traição física.

O que eu precisava descobrir era outra coisa.

Quanto de mim eu ainda estava disposta a abandonar apenas para preservar o que nós dois tínhamos construído.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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