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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Marquei outra consulta com a advogada.

Dessa vez, não fui apenas para pedir informação.

Fui para entender os passos concretos de um divórcio consensual caso Marcelo concordasse.

Levei documentos, anotei orientações e ouvi com atenção as questões que precisaríamos resolver.

Não havia fortuna escondida.

Não havia patrimônio secreto.

Não havia nenhuma batalha extraordinária esperando por nós.

Havia apenas duas pessoas que tinham construído uma vida em comum durante três anos e agora precisariam decidir como separar aquilo de maneira justa.

Curiosamente, essa simplicidade tornou tudo mais real.

Depois da consulta, sentei num banco do lado de fora do prédio e fiquei ali por quase meia hora.

Eu sabia qual seria minha decisão.

Ainda assim, senti tristeza.

Não queria apagar tudo que tínhamos vivido.

Também não queria transformar Marcelo num monstro para facilitar minha saída.

Ele havia errado comigo.

Profundamente.

Mas reconhecer os erros dele não exigia negar que houve momentos bons.

A maturidade mais dolorosa talvez fosse justamente aceitar as duas coisas ao mesmo tempo.

Naquela noite, liguei para Helena.

— Tomei uma decisão.

Ela ficou em silêncio.

— Quer me contar?

— Vou pedir o divórcio.

Do outro lado da linha, ouvi apenas a respiração dela.

Depois:

— Tem certeza?

— Tenho.

— Então não vou tentar mudar sua cabeça.

Meus olhos arderam.

— Obrigada.

— Mas vou sentir sua falta.

A frase veio tão inesperadamente que eu não consegui responder na hora.

Helena também ficou em silêncio.

— Eu fui uma sogra difícil — acrescentou.

— Foi.

Ela soltou uma risada curta.

— Pelo menos você não mente para me consolar.

— Acho que aprendemos isso uma com a outra.

Combinamos de continuar em contato, sem promessas exageradas.

Eu não sabia que forma nossa relação teria depois do divórcio.

Mas sabia que ela havia deixado de ser apenas “a mãe do meu marido”.

Tornara-se alguém que, mesmo tarde, tinha aprendido a me enxergar.

Dois dias depois, pedi a Marcelo que me encontrasse no mesmo café onde tivéramos nossa primeira conversa depois da festa.

Ele chegou antes de mim novamente.

Dessa vez, sabia qual café eu bebia.

A xícara certa já estava na mesa.

Aquilo quase me fez chorar.

Porque era exatamente o tipo de detalhe que eu havia desejado durante anos.

E agora chegava quando eu já não precisava dele para decidir ficar.

Sentei.

Marcelo me olhou e pareceu compreender antes que eu abrisse a boca.

— Você decidiu.

— Sim.

Ele ficou pálido.

— Divórcio?

Assenti.

Marcelo baixou a cabeça.

Ficamos alguns segundos sem falar.

Eu não queria preencher o silêncio.

Ele precisava existir.

Por fim, Marcelo perguntou:

— Não existe mais nenhuma chance?

— Não quero responder dizendo “nunca”, porque ninguém conhece o futuro. Mas eu não quero continuar nosso casamento.

Ele fechou os olhos.

— Mesmo depois de tudo que a gente fez nesses meses?

— Esses meses foram importantes.

— Mas não suficientes.

— Não para recuperar o que eu sentia.

A voz dele falhou ligeiramente.

— Eu achei que estava começando a fazer certo.

— Está.

Marcelo me encarou.

— Então por quê?

Respirei fundo.

— Porque sua mudança não cria uma dívida em mim.

Ele desviou os olhos.

Continuei:

— Eu reconheço cada esforço seu. Reconheço que você ouviu coisas difíceis, colocou limites e começou a olhar para o que fez. Mas não posso voltar apenas para recompensar isso.

Marcelo passou a mão sobre a xícara.

— Eu entendo.

Demorou alguns segundos.

— Não gosto. Mas entendo.

Contei que já tinha buscado orientação e que, se ele concordasse, poderíamos tentar conduzir tudo de forma consensual.

Ele perguntou o que eu queria em relação aos bens e despesas.

Conversamos de maneira prática.

Não resolvemos tudo naquela mesa.

Mas decidimos que não transformaríamos o fim do casamento numa guerra.

Quando nos levantamos, Marcelo permaneceu diante de mim por alguns segundos.

— Posso te pedir desculpas por uma última coisa?

— Pode.

— Por ter esperado você ir embora para aprender a te enxergar.

Meu peito apertou.

— Eu aceito o pedido.

Ele engoliu em seco.

— Mas não vai voltar.

— Não.

Marcelo assentiu.

Naquele momento, nossa relação mudou de maneira definitiva.

Já não éramos um casal tentando descobrir se permaneceria junto.

Éramos duas pessoas começando a encerrar um casamento.

E, pela primeira vez, essa decisão não tinha sido tomada por medo, pressão, ciúme ou humilhação.

Tinha sido tomada por mim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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