
PARTE 4
Marcelo chegou ao café antes de mim.
Quando entrei, ele se levantou automaticamente. Parecia ter dormido pouco. Havia duas xícaras sobre a mesa, mas a minha ainda estava vazia, e achei curioso perceber que ele sequer sabia o que eu costumava pedir.
Sentei-me diante dele.
— Obrigado por vir — disse.
— Eu disse que viria.
Ele assentiu, como se também tivesse percebido que aquelas pequenas formalidades agora tinham peso.
Durante alguns segundos, ficamos em silêncio.
Foi Marcelo quem começou.
— Eu pensei muito sobre o que você falou.
Não respondi.
— Sei que errei na festa.
— Em qual parte?
Ele apertou os lábios.
— Em levar Vivian daquele jeito. Em não conversar com você antes. Em deixar ela fazer aquele pedido. Na pulseira também.
Foi a primeira vez que ouvi Marcelo mencionar a pulseira sem minimizar a questão.
— Por que você deu a ela?
Ele olhou para a mesa.
— Comprei durante a viagem pensando nela.
A honestidade doeu.
Mas eu preferia aquela dor à confusão.
— Então por que me disse que tinha comprado um presente para mim?
— Porque… quando voltei, percebi que tinha falado antes de pensar. Você perguntou da viagem e eu disse que tinha trazido alguma coisa. Depois não soube como explicar.
— Então deixou que eu acreditasse numa mentira.
— Eu sei.
— E Vivian sabia que você era casado.
— Claro.
— E sabia que você tinha dito que o presente era para mim?
— Não.
Assenti.
Aquilo importava.
Eu não pretendia transformar Vivian numa vilã por coisas que ela não conhecia. O que Marcelo havia feito era responsabilidade dele.
— O que existe entre vocês?
Ele levantou os olhos.
— Nunca tivemos um relacionamento desde que nos casamos.
— Não foi o que perguntei.
Marcelo demorou.
— Eu sempre tive sentimentos mal resolvidos por ela.
A resposta veio baixa.
Finalmente.
Três anos de pequenos sinais cabiam naquela frase.
— E mesmo assim você se casou comigo.
— Eu gostava de você.
— Gostava?
— Giovana…
— Estou tentando entender.
Ele respirou fundo.
— Eu achei que aquilo fosse passado. Quando Vivian voltou a aparecer mais na minha vida, percebi que algumas coisas não tinham desaparecido completamente.
Meu peito apertou, mas eu mantive a voz firme.
— Ela reaparecer não obrigava você a colocá-la no centro da nossa vida.
— Eu sei agora.
— Você sabe porque sua mãe te deu um tapa ou porque realmente entende?
A pergunta o incomodou.
— Isso é injusto.
— Talvez. Mas eu passei três anos sendo informada de que tudo o que me machucava era exagero. Preciso saber se você está arrependido do que fez ou apenas das consequências.
Ele ficou em silêncio.
Nenhuma frase seria mais esclarecedora.
Depois de alguns minutos, Marcelo disse:
— O que você quer que eu faça?
Eu tinha esperado tanto tempo por essa pergunta que, quando finalmente veio, percebi que minha resposta tinha mudado.
Antes, eu teria pedido carinho.
Atenção.
Que ele se afastasse de Vivian.
Que me escolhesse.
Agora aquilo me parecia insuficiente.
— Não quero te dar uma lista de tarefas para você interpretar como manual de como continuar casado comigo.
— Então como eu conserto?
— Primeiro, reconhecendo que talvez não dê para consertar.
Ele se recostou na cadeira.
— Você quer o divórcio?
— Ainda não decidi.
— Eu não quero.
— Você também não queria me tratar como esposa. E isso não impediu que passássemos três anos casados.
Marcelo desviou o olhar.
Contei que começaria a organizar minhas finanças separadamente e que permaneceria no apartamento temporário por mais algum tempo. Eu também queria consultar um advogado apenas para compreender como funcionaria uma eventual separação.
Ele se alarmou.
— Advogado?
— Informação não é uma declaração de guerra.
— Parece que você já decidiu.
— Não. Pela primeira vez estou tentando decidir com clareza.
Marcelo pediu que fizéssemos terapia de casal.
A proposta me surpreendeu.
Não aceitei imediatamente.
Também não recusei.
— Vou pensar.
Quando nos levantamos para ir embora, ele tentou tocar minha mão.
Eu recuei.
Não por vingança.
Por honestidade.
Ainda não queria aquele contato.
Na semana seguinte, consultei uma advogada indicada por uma cliente. Ela explicou, de maneira simples, os caminhos possíveis caso decidíssemos nos divorciar, os documentos que eu deveria conhecer e a importância de entender com clareza nossa situação patrimonial.
Não saí de lá com uma decisão.
Saí com informação.
E informação mudou minha postura.
Naquela mesma semana, o projeto comercial foi aprovado.
Seria o maior contrato profissional que eu havia assumido sozinha até então.
Pela primeira vez em muito tempo, havia algo crescendo na minha vida que não dependia de Marcelo.
Quando contei a Helena, ela demorou um pouco antes de responder.
Depois escreveu apenas:
“Parabéns. Não diminua isso para caber em ninguém.”
Li a mensagem duas vezes.
A mulher que antes me cobrava tanto parecia, de maneira estranha, ter começado a enxergar o preço que eu pagara para caber naquela família.
Marcelo, por sua vez, começou a perceber outra coisa.
Eu não estava esperando que ele decidisse o rumo da nossa relação.
Enquanto ele tentava descobrir como recuperar o casamento, eu estava reaprendendo a construir uma vida que pudesse existir mesmo sem ele.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














