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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Saí da festa depois que os últimos convidados começaram a se despedir. Helena não tentou me convencer a ficar nem perguntou para onde eu iria. Apenas me acompanhou até a saída e, antes que eu entrasse no carro, disse que eu não precisava resolver minha vida naquela mesma noite.

A caminho do apartamento, percebi como aquela frase era diferente de tudo que eu vinha ouvindo de mim mesma. Durante três anos, eu tinha vivido como se cada conflito precisasse ser resolvido imediatamente, sempre da maneira menos incômoda para Marcelo. Se ele ficava irritado, eu cedia. Se ele se afastava, eu me esforçava mais.

Quando cheguei, o apartamento estava vazio. Marcelo ainda não havia voltado.

Entrei no quarto e olhei ao redor. Aquele lugar tinha sido reformado quase inteiramente por mim quando nos casamos. Eu havia escolhido os móveis, planejado a iluminação, desenhado os armários e imaginado que aquele espaço seria o começo de uma vida construída a dois.

Peguei uma mala média.

Coloquei algumas roupas, produtos pessoais, meu computador e os materiais dos projetos em andamento. Não arranquei fotografias das paredes, não joguei objetos no chão e não fiz qualquer gesto dramático. Eu só retirei dali o necessário para não depender de voltar no dia seguinte.

Antes de fechar a mala, meu olhar caiu sobre uma pequena caixa vazia no fundo de uma gaveta.

Era a embalagem do presente que Marcelo havia mencionado depois da viagem.

A pulseira.

Fiquei alguns segundos segurando aquela caixa.

O problema já não era o valor da joia. Era a naturalidade com que ele conseguira me fazer acreditar que havia pensado em mim enquanto, na verdade, o presente terminara no pulso de outra mulher.

Deixei a caixa onde estava.

Quando atravessei a sala com a mala, ouvi a fechadura girar.

Marcelo entrou.

Parecia cansado. A marca do tapa de Helena ainda era discretamente visível em seu rosto.

Os olhos dele desceram imediatamente para minha mala.

— O que você está fazendo?

— Vou passar alguns dias fora.

Ele fechou a porta atrás de si.

— Por causa do que aconteceu hoje?

Coloquei a alça da bolsa sobre o ombro.

— Não. Por causa do que vem acontecendo há muito tempo.

— Giovana, não começa.

A frase fez alguma coisa dentro de mim se romper, mas não de maneira dolorosa.

Era quase libertadora.

— É exatamente isso, Marcelo. Eu sempre começo alguma coisa e você manda parar. Se eu pergunto, você diz que estou exagerando. Se eu reclamo, você diz que estou criando problema. Se eu me calo, você age como se estivesse tudo bem.

Ele passou a mão pelos cabelos.

— Vivian se machucou. Minha mãe jogou comida quente no rosto dela. Eu passei horas resolvendo isso e chego em casa para encontrar minha esposa fazendo mala.

— Sua esposa passou a noite assistindo você tratar outra mulher como prioridade.

— Ela é minha amiga.

— Então trate seus amigos como amigos.

Ele respirou com força.

— Você está com ciúme por causa de uma pulseira e de um camarão.

Olhei para ele.

Aquela tentativa de reduzir tudo a duas coisas pequenas me pareceu mais reveladora do que qualquer explicação.

— Não. Estou cansada do que essas duas coisas mostram.

Marcelo ficou calado.

Continuei:

— Você deu a ela um presente que me fez acreditar que era meu. Levou-a para o aniversário da sua mãe. Colocou-a ao meu lado. Passou a noite servindo comida para ela e não fez nada quando ela decidiu me tratar como se eu estivesse ali para servi-la. Isso não é sobre camarão.

Ele desviou os olhos.

Foi a primeira mudança real naquela conversa.

Até então, Marcelo sempre tinha uma resposta pronta. Naquele instante, percebeu que eu não estava discutindo detalhes; eu estava questionando o padrão inteiro.

— Eu não tive intenção de te humilhar.

— Talvez seja esse o problema. Você nem precisou ter intenção. Já estava tão acostumado a considerar meus sentimentos secundários que nem percebeu o que estava fazendo.

Ele se aproximou.

— Onde você vai ficar?

— Isso não é importante agora.

— Claro que é. Você é minha esposa.

Eu quase ri.

— Hoje você lembrou?

A pergunta o fez parar.

Peguei a mala.

Marcelo se colocou ao lado da porta, mas não a bloqueou.

— Quanto tempo?

— Não sei.

— Você está falando em separação?

— Estou falando em espaço. A separação depende do que eu entender quando finalmente conseguir pensar sem passar o tempo inteiro tentando agradar você.

Ele pareceu querer argumentar, porém acabou ficando em silêncio.

Pela primeira vez, não pedi permissão.

Também não esperei que ele concordasse.

Saí.

Nos dias seguintes, fiquei num pequeno apartamento mobiliado que uma colega costumava alugar por períodos curtos. Mantive minha rotina de trabalho e evitei discutir nosso casamento por mensagens.

Marcelo tentou falar comigo diversas vezes.

No início, suas mensagens eram defensivas.

Dizia que eu estava exagerando, que Vivian era uma amiga antiga, que a situação havia fugido do controle por culpa da mãe.

Depois, o tom mudou.

Ele começou a perguntar quando poderíamos conversar.

Eu não respondi imediatamente.

Enquanto isso, pela primeira vez em anos, comecei a observar minha própria vida sem o filtro do casamento.

Percebi quantos trabalhos havia recusado porque exigiam viagens que Marcelo não gostava que eu fizesse. Quantas noites tinha cancelado compromissos para estar disponível quando ele chegava. Quantas vezes eu havia reorganizado minha agenda para caber na dele.

A constatação me incomodou.

Mas também me deu direção.

Aceitei uma reunião para um projeto comercial maior que eu vinha adiando havia semanas.

Na tarde em que apresentei minha proposta, o cliente gostou do conceito e pediu que eu desenvolvesse a etapa seguinte.

Saí daquele encontro com uma sensação que não sentia fazia muito tempo.

Competência.

Não porque eu precisasse provar algo a Marcelo.

Mas porque comecei a lembrar quem eu era antes de transformar minha capacidade de suportar em medida de amor.

Naquela noite, mandei uma mensagem para ele.

“Podemos conversar sábado. Em lugar neutro.”

Marcelo respondeu quase imediatamente.

“Tudo bem.”

Olhei para a tela por alguns segundos.

Dessa vez, eu não iria encontrar meu marido para salvar nosso casamento.

Eu iria para descobrir se ainda existia alguma coisa nele que merecesse ser salva.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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