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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

A reunião final aconteceu numa manhã de terça-feira.

Chegamos cedo.

Sônia vestia uma calça escura, camisa branca e brincos pequenos que pertenciam à minha avó.

Nada naquela aparência tinha sido escolhido para impressionar.

Era apenas minha mãe.

Só que agora eu conseguia enxergá-la de outra maneira.

Carlos chegou poucos minutos depois.

Veio sozinho, acompanhado apenas do advogado.

Lívia não tinha motivo para estar ali.

O relacionamento dos dois continuava, segundo eu sabia, embora muito diferente das promessas feitas no início.

Gabriel estava com poucas semanas de vida.

Meu pai parecia cansado.

Quando viu minha mãe, fez um aceno discreto.

Ela respondeu da mesma forma.

A conversa começou pelos pontos objetivos.

Os dezesseis imóveis permaneceriam como patrimônio particular de Sônia conforme a documentação apresentada.

A casa antiga ficaria com Carlos, que pagaria a parte correspondente a ela nos termos já definidos.

A participação econômica de minha mãe na empresa seria compensada através do cronograma acordado.

As aplicações comuns seriam divididas.

Cada lado manteria suas obrigações individuais.

Nenhuma frase parecia dramática.

Mesmo assim, cada linha representava o contrário da primeira minuta que meu pai jogara sobre a mesa meses antes.

Naquele documento, minha mãe sairia sem nada.

Agora, ela saía com o que lhe pertencia.

Nem mais.

Nem menos.

Quando todos terminaram a leitura, Carlos pediu alguns minutos para conversar com Sônia.

Os advogados se afastaram.

Eu permaneci perto da porta.

Não ouvia cada palavra, mas via os dois.

Meu pai falou primeiro.

Minha mãe escutou.

Em determinado momento, Carlos baixou a cabeça.

Depois Sônia respondeu.

Mais tarde, no carro, perguntei o que tinham dito.

Ela demorou.

— Ele perguntou se, olhando para trás, alguma parte do nosso casamento foi boa.

A pergunta me surpreendeu.

— E você?

— Disse que muita coisa foi.

— Mesmo depois de tudo?

— Depois de tudo.

Ela olhou pela janela.

— Se eu disser que vinte e cinco anos foram todos ruins, estarei mentindo para mim mesma.

— E isso não deixa mais difícil ir embora?

— Deixa.

Sônia sorriu tristemente.

— Mas dificuldade não transforma uma decisão errada em certa.

Carlos também pediu desculpas pela maneira como falara de mim.

Pelo “herdeiro”.

Pela obsessão com um filho homem.

Minha mãe disse que aquela desculpa deveria ser feita a mim.

No mesmo dia, meu pai pediu para me encontrar.

Dessa vez, aceitei sem tanta resistência.

Sentamos numa praça próxima ao escritório.

Ele começou direto:

— Eu falei uma coisa horrível naquele dia.

Não precisei perguntar qual.

— Falou.

— Quando disse que o bebê era meu herdeiro, pareceu que você não era minha filha.

— Não pareceu. Foi exatamente assim que eu ouvi.

Carlos assentiu.

— Eu estava obcecado por uma ideia idiota de continuar o nome da família.

Não respondi.

Ele continuou:

— Não espero que você esqueça.

— Ainda bem.

Meu pai deu um sorriso sem graça.

— Sua mãe te ensinou a responder.

— Não. Acho que só parei de tentar evitar que você fique desconfortável.

Ele aceitou.

Era talvez o primeiro sinal verdadeiro de mudança que eu via nele.

Não uma transformação completa.

Não um homem novo.

Apenas alguém começando a entender que pedir desculpas não dava direito ao perdão imediato.

— Gabriel não tem nada a ver com isso — ele disse.

— Eu sei.

— Gostaria que você conhecesse ele um dia.

— Um dia.

Não prometi quando.

Carlos respeitou.

Quando voltei para casa, minha mãe estava arrumando plantas na varanda.

— Como foi?

— Melhor do que eu esperava.

— Isso é bom.

— Ele pediu desculpas.

— E você?

— Ouvi.

Minha mãe sorriu.

A resposta parecia familiar.

Na semana que antecedeu a assinatura definitiva, nenhuma grande crise aconteceu.

Foi quase estranho.

Depois de meses de tensão, o silêncio parecia suspeito.

Mas não havia armadilha.

Apenas cansaço.

Todos estavam chegando ao fim.

Carlos cumpriu a primeira etapa financeira prevista no acordo.

Sônia confirmou o recebimento.

A documentação da casa avançou.

A empresa seguiu operando.

Lívia cuidava do bebê.

Minha tia parou de telefonar para dar conselhos.

E eu voltei a trabalhar sem verificar meu celular a cada cinco minutos esperando uma nova catástrofe.

Na véspera da formalização, encontrei minha mãe na sala segurando a antiga fotografia de casamento.

Não sabia que ela ainda tinha uma.

— Achei que tivesse jogado todas fora.

— Essa estava no meio das coisas do seu avô.

Sentei ao lado dela.

Na foto, Sônia era quase da minha idade.

Carlos tinha cabelos mais cheios e um sorriso enorme.

Pareciam felizes.

Talvez fossem.

— Vai guardar?

Ela pensou.

— Vou.

— Por quê?

— Porque aconteceu.

Minha mãe colocou a fotografia em uma caixa.

— Encerrar uma história não exige fingir que ela nunca existiu.

Na manhã seguinte, fomos ao cartório onde seriam formalizados os documentos finais.

Dessa vez, não havia Lívia sorrindo.

Não havia familiar telefonando.

Não havia pasta jogada sobre a mesa.

Só duas pessoas adultas encerrando um casamento com as consequências devidamente organizadas.

Antes de assinar, Sônia leu tudo novamente.

Página por página.

Carlos observava.

Em determinado momento, soltou um sorriso cansado.

— Você sempre leu tudo assim?

Minha mãe levantou os olhos.

— Sempre.

Ele pareceu entender a ironia.

Na primeira vez, havia se irritado porque ela demorava para ler.

Agora esperou.

Quando Sônia terminou, pegou a caneta.

Mas não assinou imediatamente.

Olhou para Carlos.

— Espero que você seja um pai melhor para o Gabriel do que foi marido para mim no final.

Meu pai ficou sério.

— Eu também.

Ela assinou.

Dessa vez, ninguém arrancou os documentos de sua mão.

Ninguém mandou que saísse de lugar nenhum.

Quando terminamos, caminhamos até a saída.

Do lado de fora, o céu estava claro.

Minha mãe respirou profundamente.

— Acabou? — perguntei.

Ela olhou para o prédio atrás de nós.

— O casamento, sim.

— E o resto?

Sônia segurou minha mão.

— O resto começa agora.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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