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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

Quando o acordo patrimonial começou a tomar forma, Carlos tentou uma última conversa fora dos escritórios.

Ligou para minha mãe numa sexta-feira.

Dessa vez, ela atendeu.

— Quero conversar sem advogado.

Sônia olhou para mim.

— Sobre quê?

— Sobre nós.

A palavra pareceu estranha.

“Nós” havia desaparecido durante semanas de discussão patrimonial e agora voltava como se pudesse recuperar algum significado.

Minha mãe marcou o encontro em uma cafeteria aberta, no meio da tarde.

Não me levou.

Mas, quando voltou, contou o essencial.

Carlos chegara antes.

Pela primeira vez desde a separação, não começara falando de imóveis, empresa ou dinheiro.

— Ele pediu desculpas? — perguntei.

— Pediu.

— E?

Sônia tirou os sapatos e se sentou no sofá.

— Perguntei do que exatamente ele estava se desculpando.

Conhecendo meu pai, imaginei a dificuldade.

Ele havia começado dizendo que “as coisas saíram do controle”.

Minha mãe respondeu que gravidez, relacionamento extraconjugal e tentativa de excluí-la da divisão patrimonial não eram acidentes meteorológicos.

Depois ele admitiu que fora cruel.

Admitiu também que imaginava que ela assinaria os documentos e evitaria conflito porque sempre detestara exposição.

— Ele disse que achava que você não teria coragem? — perguntei.

— Usou palavras melhores.

— Mas quis dizer isso.

— Basicamente.

Carlos contou ainda que a relação com Lívia estava abalada.

Minha mãe interrompeu naquele ponto.

— Eu disse que não queria detalhes.

— Não ficou curiosa?

Sônia me olhou.

— Helena, uma coisa que você precisa aprender é que saber tudo nem sempre ajuda. Às vezes só nos mantém presos.

Carlos então perguntou se havia alguma possibilidade de reconciliação.

Minha mãe respondeu que não.

Sem gritar.

Sem lembrá-lo de cada humilhação.

Sem usar Lívia como argumento.

— E ele aceitou?

— Não precisava aceitar. Era uma decisão minha.

Essa foi a mudança mais importante da semana.

Até então, minha mãe reagia a ações de Carlos.

Agora tomara uma decisão que não dependia de patrimônio.

Mesmo que ele devolvesse tudo.

Mesmo que Lívia desaparecesse.

Mesmo que a família inteira pedisse desculpas.

O casamento terminaria.

— Por quê? — perguntei, embora soubesse.

Ela respondeu:

— Porque eu poderia perdoar muita coisa e ainda assim não querer continuar casada.

Na segunda-feira seguinte, comunicou formalmente que concordava com a estrutura básica do acordo: Carlos ficaria com a operação da empresa, compensaria financeiramente a parte de Sônia conforme avaliação independente, a casa seria vendida caso ele não conseguisse adquirir a parte dela dentro do prazo combinado, e cada um manteria seus bens particulares.

Carlos tentou manter a antiga casa.

Era compreensível.

Apesar de tudo, também carregava anos de vida ali.

Pediu um prazo para conseguir financiamento e pagar a parte de minha mãe.

Ela aceitou.

— Você está facilitando demais — falei.

— Não.

— Depois de tudo que ele fez?

— Justiça não é dificultar tudo só porque posso.

Aquilo me fez calar.

Eu ainda queria vê-lo sofrer.

Minha mãe queria apenas não sofrer mais.

As duas coisas eram muito diferentes.

A pressão sobre Carlos, no entanto, existia.

Sem os dezesseis imóveis que prometera, sem poder entregar imediatamente uma vida de luxo a Lívia e precisando organizar o pagamento da parte de Sônia, ele começou a reduzir despesas.

Vendeu um carro que mal utilizava.

Cancelou uma reforma.

Reorganizou retiradas da empresa.

Nenhuma dessas coisas o transformava em vítima.

Eram consequências de promessas feitas sobre um patrimônio que não podia usar como imaginava.

Lívia permaneceu com ele.

Quando descobri, fiquei surpresa.

— Achei que ela iria embora.

Minha mãe respondeu:

— O filho vai nascer. Talvez estejam tentando fazer funcionar.

— Depois de tudo?

— A vida deles não é mais problema nosso.

Essa frase começou a aparecer com frequência.

Não como fuga.

Como limite.

A vida deles não era mais problema nosso.

Minha tia demorou mais para entender.

Ligou dizendo que minha mãe deveria considerar “a situação de Carlos”.

Sônia perguntou:

— Qual situação?

— Ele está reorganizando tudo por sua causa.

— Não.

— Claro que está.

— Ele está reorganizando porque iniciou um divórcio acreditando que poderia escolher sozinho quem ficaria com o patrimônio.

Minha tia suspirou.

— Vocês foram casados vinte e cinco anos.

— Justamente.

— Então não tem pena?

Sônia demorou.

— Tenho pena de muitas coisas que aconteceram com todos nós. Mas pena não é motivo para assinar um acordo ruim.

Depois desligou.

Poucos dias mais tarde, aconteceu algo que eu não esperava.

Meu pai me convidou para almoçar.

Sozinho.

Pensei em recusar.

Minha mãe não interferiu.

— Você é adulta.

— O que você faria?

— Não importa.

— Importa para mim.

Ela sorriu.

— Então eu iria, ouviria e decidiria depois o que fazer com o que ouvi.

Fui.

Carlos parecia nervoso.

Passamos os primeiros minutos falando de assuntos irrelevantes.

Até que ele perguntou:

— Você me odeia?

Eu não tinha preparado resposta.

— Estou com raiva.

Ele assentiu.

— Sua mãe colocou você contra mim.

A frase apagou qualquer pena que eu começava a sentir.

— Não faça isso.

— Fazer o quê?

— Colocar nela a responsabilidade pelas consequências das suas escolhas.

Ele passou a mão no rosto.

— Eu perdi minha filha também.

— Você não me perdeu porque se divorciou da minha mãe.

Olhei diretamente para ele.

— Está me perdendo toda vez que fala como se não tivesse feito nada.

Carlos ficou calado.

Contei o que mais me ferira.

Não era apenas Lívia.

Não era apenas o dinheiro.

Era ouvi-lo dizer que um filho homem seria “o herdeiro”.

Como se eu tivesse sido rebaixada no instante em que ele soube o sexo do bebê.

Meu pai empalideceu.

— Eu estava nervoso.

— Você estava feliz.

Ele tentou responder, mas não conseguiu.

Naquele almoço, não nos reconciliamos.

Também não rompemos para sempre.

A relação apenas mudou de forma.

Pela primeira vez, meu pai ouviu uma consequência que não podia negociar em parcelas.

Ao voltar para casa, contei tudo à minha mãe.

Ela me abraçou.

Não comemorou.

Não disse “eu avisei”.

Só perguntou:

— Você está bem?

Assenti.

— Acho que sim.

Sônia olhou para as caixas ainda fechadas no corredor.

— Então está na hora de terminar nossa mudança.

Naquele fim de semana, abrimos a última caixa.

Dentro estava a fotografia do meu avô.

Minha mãe colocou a moldura na estante da sala.

E, pela primeira vez desde que saímos da antiga casa, aquele apartamento deixou de parecer temporário.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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