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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

Depois daquela audiência, minha mãe mudou mais uma coisa.

Parou de morar de forma provisória.

Até então, o apartamento mobiliado parecia um lugar de passagem: malas ainda fechadas, poucas roupas nos armários, caixas empilhadas perto da parede.

Num sábado de manhã, Sônia me chamou para visitar um apartamento para alugar por um período maior.

Era menor do que nossa antiga casa.

Tinha duas suítes, uma varanda estreita e uma cozinha iluminada.

Minha mãe caminhou pelos cômodos lentamente.

— Gostou? — perguntei.

— Gostei.

— Não acha pequeno?

Ela abriu a janela da sala.

— Depois de vinte e cinco anos, descobri que tamanho e espaço não são a mesma coisa.

Assinou o contrato naquela tarde.

Foi uma decisão aparentemente pequena, mas eu entendi sua importância.

Minha mãe deixava de organizar a vida como se pudesse voltar.

Carlos percebeu também.

Na noite em que soube da mudança, apareceu sem avisar.

Ficou parado no corredor com uma expressão que eu não soube interpretar.

— Você alugou outro lugar?

Sônia confirmou.

— Por quê?

Eu quase ri.

Ela não.

— Porque preciso morar em algum lugar.

— Você podia ter esperado.

— Esperado o quê?

Meu pai passou a mão pelo rosto.

— A gente ainda nem terminou o divórcio.

— Justamente por isso estou organizando minha vida.

Ele olhou para mim.

— Helena, você pode deixar a gente conversar sozinho?

Minha mãe respondeu antes de mim.

— Ela mora aqui.

Carlos respirou fundo.

— Tudo bem.

Entrou apenas depois que Sônia permitiu.

Ficou de pé no meio da sala.

— Eu quero fazer uma proposta diferente.

Minha mãe não ofereceu café.

— Pode falar.

— Eu fico com a empresa. Você fica com os imóveis.

Franzi a testa.

Parecia, à primeira vista, uma enorme concessão.

Mas Sônia perguntou:

— E a casa?

— Fica comigo.

— Aplicações?

— Dividimos.

— Dívidas da empresa?

Meu pai hesitou.

— A empresa assume.

— E o valor atualizado da minha participação?

— Se você ficar com os imóveis, para que quer participação?

Minha mãe cruzou os braços.

— Porque são patrimônios juridicamente diferentes.

A irritação voltou ao rosto dele.

— Você não precisa de tanto dinheiro.

Sônia inclinou a cabeça.

— E você precisa?

Ele não respondeu.

Foi então que percebi que meu pai ainda não compreendia completamente a transformação dela.

Continuava negociando como se pudesse convencê-la através da culpa.

Primeiro usara a ameaça.

Agora tentava usar a ideia de excesso.

“Você não precisa.”

Como se a medida dos direitos dela fosse definida pela necessidade.

Minha mãe recusou a proposta.

Não porque quisesse ficar com a empresa inteira.

Mas porque o valor correto ainda não tinha sido apurado.

— Quando tivermos números reais, conversamos — disse.

Carlos se aproximou da porta.

Antes de sair, falou:

— Você está diferente.

Sônia respondeu:

— Não. Você só está me observando agora.

Nos dias seguintes, ela começou a administrar diretamente os imóveis que ainda estavam alugados.

Não tentou aprender tudo em uma semana.

Contratou uma administradora para as tarefas técnicas e manteve para si as decisões principais.

Eu a acompanhei em algumas reuniões.

Era curioso observar uma mulher que meu pai chamara de “dona de casa que não entendia de negócios” fazer perguntas objetivas sobre contratos, manutenção, vacância e impostos.

Ela não sabia tudo.

E não fingia saber.

Quando tinha dúvida, perguntava.

Quando precisava de orientação, procurava.

Essa postura a tornava mais firme, não menos.

Enquanto isso, a relação entre Carlos e Lívia piorava.

Ela voltou para a casa dele depois de alguns dias, mas as discussões se tornaram frequentes.

Eu soube porque Lívia insistiu em mandar mensagens.

Numa delas, escreveu:

“Ele disse que eu estraguei tudo porque fui ao cartório cedo demais.”

Mostrei à minha mãe.

— Isso faz sentido? — perguntei.

Sônia balançou a cabeça.

— Não. O resultado seria o mesmo daqui a um mês.

— Você acha que ele está culpando ela porque não consegue culpar você?

— Acho que seu pai não está acostumado a carregar sozinho o peso das próprias escolhas.

Pouco depois, algo importante aconteceu na avaliação da empresa.

Nenhum escândalo.

Nenhum documento secreto.

Apenas números.

A participação econômica correspondente à minha mãe era relevante.

Carlos poderia permanecer com o controle operacional se compensasse financeiramente Sônia pela parte dela, mas isso exigiria dinheiro que ele não tinha disponível de imediato.

A outra possibilidade era vender ativos da própria empresa ou estruturar um pagamento ao longo do tempo.

Meu pai detestou as duas opções.

— Ele imaginava que eu assinaria tudo e desapareceria — disse minha mãe.

— Você vai obrigar ele a vender?

— Não necessariamente.

— Então o que vai fazer?

Ela fechou a planilha.

— Ouvir propostas viáveis.

Foi exatamente o que fez.

Carlos sugeriu pagamentos parcelados.

Minha mãe aceitou discutir.

Ele pediu um prazo longo demais.

Ela recusou.

Propôs garantias.

Ele reclamou.

Ela não cedeu.

A negociação deixou de ser emocional e se tornou o que deveria ter sido desde o início: uma separação patrimonial entre duas pessoas que haviam dividido uma vida.

Foi nesse período que recebi uma ligação de Lívia.

Dessa vez atendi.

— Helena, eu não quero brigar com você.

— Então por que ligou?

Ela respirava rápido.

— Porque o Carlos disse que sua mãe sabia de nós antes da gravidez.

— E daí?

— Quero saber se ela já estava preparando tudo.

Olhei para Sônia, que estava na varanda.

— Minha mãe organizou os documentos dela porque começou a desconfiar da maneira como meu pai falava sobre patrimônio.

— Então ela queria prejudicar ele.

— Não. Ela queria não ser prejudicada.

Lívia ficou quieta.

— Ele me disse que estava tudo resolvido.

— Você acreditou.

— Eu estava grávida.

— Uma coisa não apaga a outra.

Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

— Você entrou na casa da minha mãe e pediu para ela “ceder o lugar”. Não faça agora de conta que era só uma pessoa desinformada.

Do outro lado, ouvi apenas a respiração dela.

Depois Lívia perguntou:

— Ela me odeia?

Olhei para minha mãe.

— Acho que você não ocupa tanto espaço na cabeça dela quanto imagina.

Desliguei.

Sônia entrou na sala.

— Era a Lívia?

Assenti.

— E como você está?

A pergunta me surpreendeu.

Durante semanas, eu tinha me preocupado com ela.

Não percebera que ela também me observava.

— Estou cansada.

— Eu também.

Minha mãe se sentou ao meu lado.

— Mas cansaço passa.

Naquela noite, Carlos enviou uma nova proposta.

Dessa vez, aceitava reconhecer formalmente que os dezesseis imóveis ficariam fora da partilha, desde que minha mãe concordasse com a avaliação independente da empresa e com um pagamento estruturado pela participação dela.

Sônia leu duas vezes.

— Melhorou — disse.

— Vai aceitar?

— Ainda não.

— Por quê?

Ela apontou para uma cláusula.

— Porque aqui ele quer que eu renuncie a qualquer revisão se houver diferença relevante nos números finais.

Sorri.

Meu pai ainda tentava.

Só que agora minha mãe estava lendo tudo.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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