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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Naquela noite, minha mãe continuou fazendo as malas como se nada extraordinário tivesse acontecido. Quando perguntei onde moraríamos, ela respondeu que já havia reservado um apartamento mobiliado por algumas semanas, apenas o suficiente para respirarmos e decidirmos com calma o próximo passo. Não era luxuoso, mas era confortável, ficava do outro lado da cidade e, principalmente, não tinha nenhuma lembrança de Carlos.
Na quinta-feira pela manhã, Sônia separou documentos pessoais, certidões antigas, extratos e uma pasta grossa que retirou do fundo de uma gaveta trancada. Tentei espiar. Ela fechou a pasta e disse apenas: — Ainda não, Helena. Primeiro eu preciso ter certeza de que tudo continua exatamente como deveria estar.
Enquanto isso, meu pai começou a espalhar a notícia do divórcio como se tivesse acabado de vencer uma disputa. Minha tia telefonou dizendo que Lívia já escolhera um dos apartamentos para morar depois do nascimento do bebê. Sônia ouviu tudo sem discutir. Quando desligou, escreveu alguma coisa num caderno e voltou a organizar os papéis.
Na sexta-feira, saímos da casa. Meu pai não apareceu para se despedir. Mandou apenas uma mensagem perguntando se havíamos deixado as chaves sobre a mesa. Minha mãe respondeu com duas palavras: “Estão lá.” Depois bloqueou o celular e entrou no táxi sem olhar para trás.
Passei o fim de semana esperando que ela finalmente explicasse o que estava fazendo. Em vez disso, Sônia conferiu documentos, telefonou para um escritório de advocacia que já conhecia havia anos e pediu certidões atualizadas das matrículas dos dezesseis imóveis. Não pediu que ninguém resolvesse nada por ela. Apenas queria confirmar o que, pelo jeito, já sabia.
— Você desconfiava do papai havia quanto tempo? — perguntei. Ela demorou antes de responder. — Da Lívia, não muito. Da maneira como ele passou a falar sobre patrimônio, tempo suficiente.
Na segunda-feira, às nove e pouco da manhã, o telefone de minha mãe tocou. Era Carlos. Ela colocou no viva-voz. — O que você fez? — ele perguntou sem cumprimentar. Minha mãe tomou um gole de café. — Sobre o quê?
A voz dele explodiu. — A Lívia está no cartório! Disseram que nenhum dos dezesseis imóveis está registrado em meu nome. Ela passou vergonha na frente de todo mundo. Quero saber que história é essa.
Pela primeira vez em dias, senti vontade de rir. Minha mãe, porém, continuou séria. — Não é história nenhuma, Carlos. O cartório só informou o que consta nas matrículas.
— Não banca a esperta comigo. Você assinou o acordo. Os imóveis são meus. — A minuta que você trouxe dizia o que você gostaria que acontecesse — respondeu Sônia. — Isso não altera sozinho uma matrícula de imóvel.
Houve alguns segundos de silêncio. Então ele falou mais baixo: — Sônia, não complica. Você sabe que fui eu quem trabalhou por tudo aquilo. Minha mãe pousou a xícara. — Sei exatamente quem trabalhou, quem investiu e de onde veio cada patrimônio. É por isso que não estou preocupada.
Meu pai mudou o tom. A agressividade deu lugar a algo que eu nunca tinha ouvido nele: cautela. — Que documentos você tem? Minha mãe respondeu: — Os mesmos que sempre existiram. Só que você passou muitos anos acreditando que eu nunca iria usá-los.
Do outro lado, ouvi uma voz feminina abafada. Lívia perguntava alguma coisa. Carlos cobriu o telefone, respondeu a ela e voltou. — Nós vamos conversar hoje. — Não — disse minha mãe. — Hoje eu tenho outros compromissos. Quando houver algo a discutir sobre o divórcio, será no lugar certo, com tudo documentado.
Ele respirou fundo. — Você está fazendo isso por vingança? Sônia olhou para mim antes de responder. — Não. Estou fazendo porque durante vinte e cinco anos você confundiu minha tranquilidade com incapacidade.
Ela encerrou a ligação. Eu fiquei parada diante dela, com tantas perguntas que nem sabia por qual começar. Minha mãe abriu a pasta que escondera de mim durante cinco dias e empurrou uma das certidões na minha direção. No campo destinado ao proprietário, havia um único nome. O dela.
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