
Parte 7
Rafael escolheu o parque onde costumávamos caminhar aos domingos.
Talvez tivesse sido intencional.
Talvez quisesse que as lembranças fizessem parte da conversa.
Cheguei antes dele e sentei num banco perto do lago.
Durante alguns minutos, observei famílias passando, crianças correndo atrás de bicicletas e pessoas segurando copos de café.
Era estranho pensar que, poucas semanas antes, eu poderia ter me visto ali ao lado dele.
Rafael chegou sem pressa.
Sentou na outra ponta do banco.
— Obrigado por vir.
— Você pediu uma última conversa.
Ele assentiu.
Ficamos em silêncio.
Dessa vez, não me incomodou.
Rafael começou:
— Eu fiquei tentando encontrar uma maneira de explicar tudo sem parecer tão ruim.
Olhei para ele.
— E encontrou?
— Não.
Havia algo diferente em sua voz.
Menos defesa.
Mais cansaço.
— O banco me perguntou por que eu achei que podia assinar por você. Eu respondi várias coisas. Que éramos casados. Que eu tinha acesso aos seus documentos. Que você já tinha me autorizado a resolver outras coisas antes.
Ele respirou fundo.
— Depois perceberam que nenhuma dessas respostas explicava por que eu não simplesmente liguei para você.
Eu não disse nada.
— E eu também percebi.
Rafael apertou as mãos.
— Eu não liguei porque você podia dizer não.
A frase já não era nova.
Mas agora vinha dele sem tentativa de amenizar.
— Eu achei que, se o processo estivesse quase pronto, você acabaria cedendo. Pensei que talvez brigássemos por alguns dias, depois você entenderia.
— Porque eu sempre entendia.
Ele assentiu.
— É.
Aquilo era o máximo de honestidade que eu tinha ouvido desde o início.
— Eu não planejei te prejudicar, Marina.
— Eu sei.
Ele pareceu surpreso.
— Sabe?
— Sei. Não acho que você tenha acordado pensando em destruir meu crédito. Você só considerou aceitável colocar meu crédito em risco porque queria resolver um problema da Camila.
Rafael baixou os olhos.
— Isso soa horrível.
— Porque é horrível.
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— Eu mereci essa.
— Não vim aqui para distribuir punição.
— Então por que veio?
Pensei antes de responder.
— Porque quero terminar sabendo que você entendeu por que terminou.
Rafael me encarou.
— Eu não quero terminar.
— Eu sei.
— Ainda amo você.
— Eu também sei.
— Então como consegue simplesmente ir embora?
A pergunta me machucou.
Não pela acusação.
Porque eu não estava “simplesmente” indo embora.
Eu estava deixando para trás a versão do futuro que construí durante anos.
— Não é simples — falei. — Eu acordo pensando se estou exagerando. Às vezes lembro de alguma coisa boa e tenho vontade de fingir que nada aconteceu. Às vezes imagino você chegando em casa e nós dois preparando jantar como antes.
Ele se aproximou um pouco.
— Então ainda existe uma chance.
Balancei a cabeça.
— Isso não significa chance. Significa luto.
Rafael recuou.
— Eu consigo mudar.
— Talvez consiga.
— Então me deixa tentar.
— Você deve mudar porque entendeu que precisa. Não porque eu prometi ficar se você conseguir.
Ele passou os dedos pelo rosto.
— Você não confia mais em mim.
— Não.
A resposta foi curta.
Dura.
Verdadeira.
Ele ficou olhando o lago.
— E se eu fizer terapia? Se eu cortar contato com a Camila? Se eu mostrar tudo que faço? Senhas, contas, celular…
— Eu não quero um casamento em que eu precise fiscalizar você para me sentir segura.
— Eu estou oferecendo transparência.
— Transparência não é me dar senhas depois de quebrar a confiança. Transparência era me perguntar antes de usar meu nome.
Ele fechou os olhos.
Ficamos alguns minutos sem falar.
Então Rafael tirou do bolso uma pequena pasta.
Meu corpo ficou tenso.
Ele percebeu.
— Não é nada sobre o banco.
Abriu.
Eram os papéis do divórcio que havia recebido.
— Eu trouxe porque pensei que poderia rasgar na sua frente e dizer que não aceitaria.
Olhei para ele.
— E?
— Acho que seria só mais uma forma de tentar controlar uma decisão sua.
Aquela frase me atingiu de um jeito inesperado.
Rafael passou o polegar sobre a borda do papel.
— Eu ainda não quero assinar hoje.
— Tudo bem.
Ele me olhou.
— Você não vai insistir?
— Não preciso. Minha decisão não depende de você assinar hoje.
Rafael soltou o ar.
— É estranho ouvir isso.
— Para mim também.
Guardou os papéis novamente.
— Quero pedir uma coisa.
— O quê?
— Me dá alguns dias para organizar as contas da casa e conversar com sua advogada sobre os termos. Não para impedir o divórcio. Só para não transformar tudo numa briga.
Pensei.
Não havia razão para recusar.
— Tudo bem.
— Obrigado.
Levantamos.
Antes de ir embora, Rafael perguntou:
— Você fez proposta naquele apartamento?
Meu corpo enrijeceu levemente.
— Como sabe?
— Você tinha deixado o anúncio aberto no computador antes de sair de casa.
Não gostei da lembrança, mas respondi:
— Fiz.
Ele assentiu.
— Espero que dê certo.
Pela primeira vez, não havia ironia nem cobrança.
— Obrigada.
Foi isso.
Nenhum abraço.
Nenhum beijo.
Nenhuma promessa.
Fui embora com uma sensação diferente de todas as anteriores.
A conversa não tinha reconstruído nosso casamento.
Mas tinha mudado outra coisa.
Rafael começava a aceitar que pedir perdão não lhe dava direito a recuperar aquilo que perdeu.
Na semana seguinte, ele entrou em contato com minha advogada.
As discussões patrimoniais eram simples. Não tínhamos filhos, não havia empresa conjunta e os bens relevantes podiam ser documentados.
Ainda assim, algumas despesas precisaram ser conferidas.
Eu participei de todas as decisões.
Não deixei ninguém responder em meu nome.
Ao mesmo tempo, o banco continuava a apuração interna dos documentos usados na proposta de Camila.
Rafael compareceu quando solicitado.
O corretor também.
Camila forneceu sua versão.
Eu parei de tentar adivinhar qual seria a consequência exata para cada um.
Aquilo não estava sob meu controle.
O que estava sob meu controle era dizer a verdade quando fosse necessário e preservar os registros.
Enquanto isso, meu apartamento avançava.
Depois da análise dos documentos do imóvel e das condições financeiras, autorizei o corretor a prosseguir com a proposta.
Ainda havia etapas pela frente.
Nada estava garantido.
Mas o processo existia por um motivo muito diferente daquele que havia colocado meu nome no financiamento de Camila.
Eu tinha lido tudo.
Eu tinha perguntado.
Eu tinha escolhido.
Numa sexta-feira à noite, voltei ao apartamento onde havia vivido com Rafael para buscar o restante dos meus objetos pessoais.
Ele havia separado algumas caixas.
No alto de uma delas estava nossa foto de casamento.
Fiquei parada diante dela.
Rafael apareceu no corredor.
— Eu não sabia se você queria levar.
Peguei a moldura.
Na imagem, eu sorria olhando para ele.
Rafael sorria para a câmera.
Por alguns segundos, doeu.
Depois tirei a fotografia da moldura.
— Pode ficar com a moldura.
Ele entendeu.
Dobrei a foto com cuidado e coloquei dentro de uma caixa com outras lembranças.
Eu não queria apagar meu passado.
Queria apenas impedir que ele comandasse meu futuro.
Quando eu estava saindo, Rafael me entregou a pasta.
Os papéis do divórcio estavam assinados.
Olhei para ele.
— Tem certeza?
Os olhos dele ficaram vermelhos.
— Não. Mas entendi que você tem.
Peguei a pasta.
Naquela noite, chorei pela primeira vez desde que decidira me separar.
Não porque quisesse voltar.
Chorei porque algumas decisões certas ainda doem.
E porque, dali em diante, não existia mais nenhuma desculpa para fingir que aquilo era apenas uma crise passageira.
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