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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

No sábado, cheguei ao prédio vinte minutos antes do horário marcado.

Meu pai havia se oferecido para ir comigo, mas eu preferi fazer a primeira visita sozinha.

Não porque quisesse provar independência para alguém.

Depois de tudo o que acontecera, eu precisava descobrir quais decisões ainda eram realmente minhas.

O corretor me mostrou a sala, os três quartos e a varanda.

O apartamento não era luxuoso.

A cozinha precisaria de alguns ajustes. Um dos quartos era menor do que parecia nas fotos. O piso da sala tinha algumas marcas perto da janela.

Mesmo assim, quando abri a porta da varanda e senti o vento entrando, pensei no motivo pelo qual havia economizado durante tantos meses.

Eu não procurava um troféu.

Procurava um lugar onde pudesse respirar.

O corretor perguntou:

— Você pretende comprar sozinha ou com seu marido?

A pergunta veio sem maldade.

Ainda assim, fiquei alguns segundos em silêncio.

— Sozinha.

Foi a primeira vez que disse aquilo em voz alta.

Naquele momento, eu ainda não havia decidido definitivamente pelo divórcio.

Mas alguma parte de mim já havia entendido que qualquer imóvel comprado dali em diante só faria sentido se dependesse de uma escolha minha.

Pedi as informações necessárias para uma análise preliminar e fui embora sem assinar nada.

No estacionamento, encontrei uma mensagem de Rafael.

“Podemos conversar hoje?”

Aceitei encontrá-lo num café perto da casa do meu pai.

Quando cheguei, ele já estava sentado.

Parecia mais calmo.

— Eu falei com o banco — disse assim que me sentei.

— E?

— Pediram que eu compareça novamente na semana que vem para esclarecer como consegui os documentos.

— Então esclareça.

Ele soltou um suspiro.

— Marina, eu sei que fiz errado.

Esperei.

— Mas também acho que isso está ficando maior do que precisava.

A frase matou qualquer esperança de que aquela conversa seria diferente.

— Maior do que precisava para quem?

— Para todos.

— Rafael, você ainda está tentando medir a gravidade pelo tamanho da consequência que você vai sofrer, não pelo que fez.

— Eu já admiti que errei.

— Admitir não reduz automaticamente o tamanho do erro.

Ele se inclinou sobre a mesa.

— Eu não roubei dinheiro de você.

— Não.

— Não tirei dinheiro da sua conta.

— Não.

— O financiamento nem foi aprovado.

— Porque eu descobri antes.

Ele ficou calado.

— Esse é o ponto que você continua evitando — falei. — Nada parou porque você se arrependeu. Parou porque o banco me ligou.

Rafael recuou na cadeira.

Aquilo doeu nele.

Eu percebi.

Mas não suavizei.

Durante muito tempo eu tinha suavizado coisas demais.

— E se o banco não tivesse ligado? — perguntei.

— Eu teria contado.

— Quando?

Ele não respondeu.

— Depois da aprovação?

Silêncio.

— Depois que o contrato estivesse assinado?

Nada.

— Depois que eu tentasse financiar meu apartamento e descobrisse?

Rafael desviou o olhar.

Foi resposta suficiente.

Ficamos alguns segundos sem falar.

Então ele disse:

— A Camila não está bem.

Quase sorri.

Não de humor.

De incredulidade.

— Você realmente trouxe Camila para esta conversa?

— Só estou dizendo que ela perdeu a unidade.

— Rafael.

— Ela pode perder parte do valor da reserva.

— Rafael.

— Eu sei que você não quer ouvir, mas…

— Pare.

Ele se calou.

— Você está sentado aqui dizendo que quer salvar nosso casamento e, cinco minutos depois, volta a me explicar o sofrimento dela.

— Porque eu também tenho responsabilidade com o que aconteceu.

— Tem. Então assuma sua responsabilidade. Mas pare de transformar a consequência das escolhas de vocês em obrigação emocional minha.

Rafael passou as duas mãos pelo rosto.

— Eu não sei como consertar isso.

— Talvez porque nem tudo possa ser consertado.

Ele me encarou.

— Você está falando em separação?

Eu respirei devagar.

Até aquele instante eu havia evitado a palavra.

Não por amor.

Por medo do peso que ela carregava.

— Estou.

Rafael ficou imóvel.

— Por causa de uma assinatura?

— Não reduza tudo de novo.

— Marina…

— Você falsificou minha assinatura porque achou que tinha o direito de decidir por mim. Usou minha renda porque achou que seu julgamento valia mais do que meu consentimento. Colocou o sonho de outra pessoa na frente de um plano que você sabia que eu estava construindo há meses. E, quando eu descobri, sua primeira preocupação foi que eu não constrangesse Camila.

Ele começou a balançar a cabeça.

— Eu nunca quis te machucar.

— Essa frase fala da sua intenção. Eu estou falando das suas escolhas.

— Eu amo você.

Eu acreditei que, de alguma maneira, ele acreditava naquilo.

Esse era justamente o problema.

Rafael parecia imaginar que amor era uma espécie de saldo permanente capaz de compensar qualquer invasão.

Para mim, confiança não funcionava assim.

— Talvez você ame — respondi. — Mas você não me respeitou quando mais importava.

Ele levou alguns segundos para falar.

— Você quer o divórcio?

Olhei pela janela.

Até poucos dias antes, eu imaginava escolher móveis, assinar financiamento, discutir a cor das paredes com ele.

Agora aquele futuro parecia pertencer a outra mulher que tinha meu rosto.

Voltei os olhos para Rafael.

— Eu quero entender quais são minhas opções. Depois vou decidir.

Saí do café e procurei uma advogada especializada em direito de família.

Não pedi que ela “acabasse com Rafael”.

Não queria vingança.

Queria informação.

Na consulta, expliquei que éramos casados, que não tínhamos filhos e que eu precisava compreender como uma separação poderia ser conduzida sem misturar desnecessariamente a questão matrimonial com a apuração bancária.

Ela ouviu tudo e fez perguntas objetivas sobre patrimônio, contas, despesas e o regime do casamento.

Depois explicou, em termos simples, que eu poderia decidir pelo divórcio mesmo que Rafael não concordasse com o fim da relação; o que poderia exigir discussão eram as questões patrimoniais, caso não houvesse consenso.

Saí de lá com uma lista curta.

Organizar documentos pessoais.

Separar registros das minhas economias.

Evitar movimentações impulsivas.

Não assinar acordos por pressão.

Parecia básico.

Era básico.

E talvez por isso tivesse tanto efeito sobre mim.

Passei anos confundindo paz com evitar confronto.

Agora começava a perceber que paz também podia significar estabelecer limites antes que outra pessoa escolhesse por mim.

Naquela noite, Camila publicou uma nova mensagem.

As fotos do apartamento tinham desaparecido.

A nova publicação dizia apenas:

“Alguns sonhos precisam esperar.”

Não havia meu nome.

Não havia o nome de Rafael.

Não havia explicação.

Fechei o aplicativo.

Eu não precisava entrar naquela história pública.

Meu problema não era provar alguma coisa para os seguidores dela.

Meu problema era decidir o que fazer com minha própria vida.

Na segunda-feira, o banco me enviou um e-mail confirmando que a proposta de financiamento vinculada a Camila permaneceria sem prosseguimento devido à contestação da documentação.

Pouco depois, Rafael me mandou uma única mensagem:

“Agora acabou de vez.”

Fiquei olhando para aquelas palavras.

Para ele, o apartamento de Camila tinha acabado.

Para mim, outra coisa estava começando.

Abri o contato da advogada e escrevi:

“Quero seguir com o divórcio.”

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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