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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

A assinatura de Rafael mudou o ritmo das semanas seguintes.

O divórcio deixou de ser uma ameaça abstrata e passou a ser um processo concreto.

Não significava que tudo estaria concluído de um dia para o outro.

Ainda havia documentos, conferências e providências práticas.

Mas, emocionalmente, uma porta tinha se fechado.

E eu percebi que não precisava ficar diante dela esperando alguém abrir novamente.

Meu pai voltou a perguntar quando eu pretendia sair da casa dele.

Não com pressa.

Com humor.

— Se você ficar mais três meses, vou cobrar aluguel.

— Você não teria coragem.

— Dependendo do valor do condomínio do apartamento novo, talvez eu tenha.

Ri.

Era bom perceber que eu conseguia rir sem culpa.

Durante semanas, minha vida havia girado em torno de banco, assinatura, separação e perguntas difíceis.

Agora pequenos assuntos cotidianos voltavam a ocupar espaço.

Trabalho.

Mercado.

Roupa para lavar.

A planilha do apartamento.

Uma reunião chata numa terça-feira.

Uma série assistida pela metade.

Era assim que a vida se reconstruía.

Não com uma grande cena.

Com espaço sendo lentamente devolvido ao comum.

O financiamento do meu apartamento avançou para uma análise mais completa.

Dessa vez, cada solicitação de documento chegava diretamente a mim.

Eu conferia datas.

Valores.

Condições.

Perguntava quando não entendia.

Depois do que acontecera, algumas pessoas poderiam dizer que eu estava desconfiada demais.

Eu preferia pensar que finalmente estava participando plenamente de decisões que afetariam meu futuro.

Em uma tarde, recebi uma ligação de Eduardo, o gerente que havia me atendido no caso de Camila.

— Senhora Marina, estou entrando em contato apenas para confirmar que, no nosso sistema, a senhora não possui responsabilidade financeira vinculada à proposta encerrada.

Agradeci.

— A apuração dos documentos continua?

— Continua pelos canais internos correspondentes. Se houver necessidade de alguma informação adicional da senhora, entraremos em contato.

Não pedi detalhes sobre Rafael.

Nem sobre Camila.

Desliguei.

Essa foi uma mudança maior do que parecia.

Durante as primeiras semanas, eu queria saber cada movimento.

Quem tinha dito o quê.

Quem seria responsabilizado.

Quem estava com medo.

Quem admitia culpa.

Agora não.

Eu queria saber apenas aquilo que dizia respeito a mim.

Poucos dias depois, Camila pediu para me encontrar pessoalmente.

Dessa vez, aceitei.

Não por necessidade.

Por encerramento.

Marcamos numa cafeteria durante a tarde.

Ela chegou sem Rafael.

Sentou à minha frente e ficou alguns segundos mexendo na xícara.

— Eu não vim pedir para você retirar nada.

— Ótimo.

Ela assentiu.

— Também não vim dizer que fui completamente inocente.

Aquilo me fez olhar para ela com mais atenção.

— Eu não sabia da assinatura falsa — continuou. — Mas sabia que o Rafael estava tentando colocar sua renda no processo. Ele disse que conseguiria sua autorização depois. Eu devia ter parado ali.

— Devia.

Camila baixou os olhos.

— Eu queria tanto aquele apartamento que aceitei acreditar no que era conveniente.

Não respondi.

— Quando você perguntou no banco que tipo de parente eu era para usar seu nome, eu fiquei com raiva de você.

— De mim?

— Na hora, sim. Porque eu me senti humilhada. Depois percebi que você estava certa.

Ela respirou fundo.

— Eu estava postando na internet que tinha conquistado tudo sozinha enquanto aceitava que outra pessoa colocasse a renda da esposa no meu financiamento.

A sinceridade não apagava a escolha.

Mas tornava a conversa diferente.

— Eu não precisava que você fosse pobre, desesperada ou mal-intencionada para isso estar errado — falei. — Bastava você saber que meu nome entraria e decidir não me perguntar.

— Eu sei.

Camila segurou a xícara.

— O Rafael perdeu o casamento por minha causa?

A pergunta me incomodou.

— Não coloque isso em você.

Ela levantou os olhos.

— Mas…

— Meu casamento terminou pelas escolhas que Rafael fez dentro dele. Você participou de uma situação que me afetou, mas não vou facilitar para ele dizendo que tudo aconteceu “por causa da Camila”.

Camila ficou em silêncio.

— Ele já fez muito por mim — disse depois.

— Eu sei.

— Talvez eu tenha permitido que isso virasse normal.

— Talvez.

— Você me odeia?

Pensei.

— Não.

Ela pareceu surpresa.

— Mas também não quero ter você na minha vida.

Camila assentiu devagar.

— Entendo.

Não nos abraçamos.

Não prometemos amizade.

Não houve reconciliação emocionante.

Ela pediu desculpas.

Eu aceitei ouvir.

E fomos embora por caminhos diferentes.

Aquilo bastava.

Na semana seguinte, minha proposta pelo apartamento entrou na fase final de aprovação.

O corretor ligou quase no fim do expediente.

— Marina, as condições foram confirmadas. Se a documentação final permanecer como está, podemos avançar para a assinatura quando o banco concluir a etapa restante.

Senti as pernas perderem força por um segundo.

Não gritei.

Não chorei.

Sentei na cadeira do escritório.

Aquela compra ainda exigiria responsabilidade durante muitos anos.

Não era um prêmio.

Era dívida também.

A diferença era fundamental:

uma dívida escolhida.

Uma dívida calculada.

Uma dívida compatível com a vida que eu queria construir.

À noite, contei ao meu pai.

Ele abriu uma cerveja para ele e uma água com gás para mim.

— Então daqui a pouco você vai embora e eu recupero meu escritório.

— Pensei que você fosse sentir saudade.

— Vou sentir. Mas sua bicicleta ergométrica improvisada de cabide já ocupava espaço demais.

Rimos.

Quando fui dormir, vi uma mensagem de Rafael.

Havia quase duas semanas que não falávamos diretamente.

“Minha advogada disse que falta pouco para finalizar o que depende de nós.”

Respondi:

“Sim.”

Ele continuou:

“Soube que você falou com a Camila.”

Meu corpo ficou tenso.

“Falei.”

“Ela me contou.”

Esperei.

Então apareceu outra mensagem:

“Eu queria ter entendido antes que ajudar alguém não me dava direito de sacrificar outra pessoa.”

Li várias vezes.

Não havia pedido.

Não havia tentativa de voltar.

Respondi apenas:

“Eu também queria.”

Na manhã seguinte, Rafael pediu uma última reunião sobre uma despesa conjunta que precisava ser encerrada.

Aceitei fazer por chamada.

Resolvemos em quinze minutos.

Antes de desligar, ele perguntou:

— Marina, quando tudo terminar, você pretende nunca mais falar comigo?

Eu olhei para a tela.

— Não sei.

— Eu não estou pedindo para voltar.

— Eu sei.

— Só não queria que nossa história acabasse como se eu tivesse sido apenas a pior coisa que fiz.

Aquilo me atingiu.

Porque ele não tinha sido.

E eu também não queria reescrever anos inteiros para justificar minha decisão.

— Você não foi apenas isso — respondi. — Mas essa foi a coisa que mudou o que eu conseguia aceitar daqui para frente.

Rafael assentiu.

— Entendi.

Desligamos.

Naquela tarde, recebi do banco responsável pelo meu financiamento o agendamento para a assinatura da etapa seguinte.

Olhei para a mensagem.

Meses antes, eu imaginara aquele momento ao lado de Rafael.

Agora iria sozinha.

E, pela primeira vez, isso não parecia uma perda.

Parecia uma escolha completa.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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