
Parte 2
Rafael esperou Eduardo sair por alguns segundos e então baixou a voz. — Você tem ideia do que está fazendo? — Tenho. Pela primeira vez desde que abri aquele arquivo, eu tinha absoluta certeza. — Estou impedindo que uma dívida que nunca aceitei seja registrada como minha.
Camila enxugou o rosto. — Marina, eu retiro a proposta. Não precisa chegar a esse ponto. — A proposta já não é o único problema. — Apontei para a declaração falsa da minha empresa. — Vocês usaram documentos que não tinham autorização para usar.
— “Vocês”, não — Rafael cortou. — Eu resolvi isso. A Camila não fez nada. O corretor disse que precisava de renda complementar e eu achei que conseguiria ajustar depois. — Você não achou. Você decidiu por mim.
Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. — Eu sabia que você ficaria brava, mas nunca imaginei que fosse transformar isso numa denúncia. — Interessante. Então você sabia que eu não concordaria. Mesmo assim, fez.
Camila falou quase num sussurro: — Eu realmente achei que você soubesse. Olhei para ela. — Amanhã você pode dizer exatamente isso ao banco. Não sou eu quem vai decidir em quem acreditar.
No caminho para casa, Rafael ligou seis vezes. Não atendi. Na sétima chamada, mandou mensagem dizendo que precisávamos conversar antes da manhã seguinte. Eu respondi apenas: “Falamos em casa.”
Quando cheguei, ele já estava na sala. A pulseira de pedra preta continuava no pulso. A mesma que aparecia na foto de Camila. Pela primeira vez, aquele objeto não me provocou ciúme. Provocou cansaço.
— Você vai mesmo assinar aquela declaração? — perguntou. — Vou. — Então o financiamento dela acaba. — Esse financiamento nunca deveria ter começado com o meu nome.
Rafael começou a andar pela sala. — Ela já deu sinal, já fez planos, já contou para todo mundo. — Eu também fiz planos. — Você pode procurar outro apartamento. — E ela não? Ele não respondeu.
Foi nesse silêncio que alguma coisa se inverteu dentro de mim. Até então eu ainda esperava que ele dissesse que tinha passado dos limites, que tinha entendido o tamanho do que fez. Em vez disso, Rafael continuava calculando apenas o prejuízo de Camila.
— Você sabe qual é a pior parte? — perguntei. — Não é a assinatura. Não é nem o documento falso. É que você acha normal decidir quanto da minha vida pode ser sacrificado para facilitar a vida dela.
— Não exagera. — Você colocou meu CPF num financiamento sem me perguntar. O que seria exagero para você?
Ele se aproximou. — Se você formalizar isso como fraude, pode virar um problema muito maior. Para mim também. Ali estava a primeira preocupação verdadeiramente urgente que Rafael demonstrava naquela noite. Não comigo. Com ele mesmo.
— Agora você entende por que eu estou levando a sério? — perguntei. — Marina, somos casados. A gente resolve essas coisas dentro de casa. — Você tirou isso de dentro de casa no momento em que levou minha assinatura para um banco.
Ele tentou segurar meu braço, mas eu recuei. — Não encosta em mim. Rafael ficou imóvel. Eu nunca tinha falado com ele daquele jeito.
Subi para o quarto, peguei uma mala pequena e comecei a colocar algumas roupas dentro. Ele apareceu na porta. — Aonde você vai? — Para a casa do meu pai. — Por causa disso? Parei de dobrar uma blusa. — Não. Por causa do que isso me mostrou.
— Você está jogando nosso casamento fora por causa de um financiamento que nem foi aprovado. — Não, Rafael. Você colocou nosso casamento em risco quando decidiu que meu consentimento era dispensável.
Na manhã seguinte, às nove em ponto, eu estava novamente no banco. Camila chegou primeiro. Rafael entrou alguns minutos depois. Ninguém se cumprimentou.
Eduardo trouxe a declaração preparada pelo setor responsável. Li cada linha. Pedi uma correção numa data. Li novamente. Só depois assinei.
Rafael ficou olhando enquanto eu colocava minha assinatura verdadeira abaixo da frase que registrava que a anterior não era minha.
Quando devolvi a caneta, Eduardo recolheu o documento. — A análise do financiamento permanece interrompida e o caso será encaminhado para verificação interna da documentação.
Camila começou a chorar em silêncio. Rafael não olhou para ela. Olhou para mim.
— Ainda dá tempo de voltar atrás.
Guardei minha caneta na bolsa.
— Não, Rafael. O tempo de voltar atrás era antes de você assinar meu nome.
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