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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Natália saiu do café antes de Lucas. Caminhou algumas quadras sem chamar carro, tentando organizar a mistura de raiva e humilhação que sentia. O divórcio já estava concluído, mas descobrir que ele mantivera outra relação enquanto ainda dividiam a mesma casa mudou a maneira como ela olhava para os meses anteriores.

Não significava que todo o casamento fora falso.

Mas tornava falsa uma parte importante do fim.

Lucas havia falado sobre diferenças de renda, círculos sociais e estilos de vida como se aquilo fosse a explicação completa. Enquanto isso, existia outra mulher.

Por dois dias, Natália cancelou compromissos que não eram essenciais.

Não porque estivesse incapaz de trabalhar, mas porque precisava permitir a si mesma sentir alguma coisa sem transformar dor em produtividade.

Júlia foi vê-la.

Dessa vez, não fez piadas.

— Você quer falar?

— Não muito.

— Quer que eu fique?

Natália assentiu.

As duas jantaram em silêncio.

Foi uma das poucas noites em que Natália não tentou parecer forte.

Na segunda-feira, voltou ao escritório.

A equipe precisava decidir os últimos detalhes da expansão para novas cidades, e ela participou normalmente.

No fim da reunião, porém, chamou a diretora de operações.

— Quero reduzir minha participação em compromissos externos nas próximas duas semanas. Mantenho as decisões estratégicas, mas cancelem entrevistas e eventos que não forem necessários.

— Algum problema?

Natália pensou antes de responder.

— Um assunto pessoal. Nada que afete a empresa.

Era uma pequena mudança, mas importante.

Durante anos, ela sacrificara o próprio estado emocional para impedir que a vida de outras pessoas fosse afetada.

Dessa vez, reconheceu que precisava de espaço.

Lucas também não saiu ileso da conversa.

Nos primeiros dias, sentiu vontade de mandar mensagens perguntando se Natália estava bem.

Não mandou.

Sabia que qualquer tentativa de aliviar a dor dela poderia, na verdade, ser apenas uma tentativa de aliviar a própria culpa.

Continuou cumprindo o acordo financeiro.

No mês seguinte, fez o segundo pagamento.

Depois o terceiro.

Sem mensagens adicionais.

Sem flores.

Sem pedidos de encontro.

Na empresa, ele começou a reconstruir a carteira de clientes. O processo era lento. A perda da Sabor de Natália não foi compensada de uma hora para outra, e seu bônus anual caiu significativamente.

Anos antes, isso teria parecido uma tragédia.

Agora Lucas via o dinheiro de maneira diferente.

Ainda valorizava conforto, carreira e sucesso.

Mas já não conseguia usar a renda como medida automática do valor de uma pessoa.

A mudança foi percebida por sua equipe.

Vitor notou primeiro.

— Você está perguntando muito mais para os analistas antes de decidir as coisas.

Lucas olhou para ele.

— Eu não perguntava?

Vitor riu sem graça.

— Às vezes perguntava depois de decidir.

Lucas quase se ofendeu.

Depois percebeu que era verdade.

— Continua me avisando quando eu fizer isso.

Vitor arregalou os olhos.

— Sério?

— Sério.

Não era uma transformação milagrosa.

Lucas ainda se impacientava.

Ainda gostava de ter a última palavra.

Ainda precisava corrigir hábitos que havia reforçado durante anos.

Mas começara a permitir que outras pessoas lhe mostrassem aquilo que não via.

Camila, por sua vez, manteve uma postura profissional. Os dois quase não se falavam fora de reuniões.

Certa tarde, ela pediu alguns minutos.

— Você contou para a Natália?

Lucas respondeu que sim.

Camila ficou tensa.

— Você falou meu nome?

— Ela já sabia quem você era profissionalmente. Eu contei a verdade sobre nós.

— Isso pode chegar à empresa.

— Se chegar, eu assumo minha parte.

— Fácil dizer isso agora.

Lucas não reagiu.

Camila respirou fundo.

— Eu também fiz uma escolha ruim. Só não quero que você me transforme na vilã da sua história de arrependimento.

— Não vou.

Ele falava sério.

— Eu fui casado com ela. Eu devia lealdade a ela. Essa responsabilidade é minha.

Camila pareceu surpresa.

Talvez esperasse uma discussão.

Não aconteceu.

— Certo — respondeu.

E saiu.

A conversa encerrou, de fato, o último vínculo pessoal entre os dois.

Algumas semanas depois, Natália voltou à rotina completa.

Também tomou uma decisão que surpreendeu a própria equipe: transformaria a pequena padaria do bairro antigo em uma unidade oficial de desenvolvimento de produtos da rede.

Não a fecharia.

Não a substituiria por uma loja luxuosa.

Apenas faria uma reforma discreta na cozinha e criaria espaço para testar receitas com padeiros e franqueados.

— Você tem certeza? — perguntou a diretora de operações. — Poderíamos montar um laboratório enorme na matriz.

— Já temos laboratórios.

Natália sorriu.

— Quero preservar o lugar onde tudo começou.

Durante a pequena reforma, ela encontrou antigas fotografias guardadas em uma caixa.

Em uma delas, estava ao lado de Lucas no primeiro ano de casamento.

Os dois sorriam diante da fachada simples.

Naquele tempo, ele não parecia ter vergonha.

Natália ficou olhando para a imagem por alguns minutos.

Depois a guardou novamente.

Não queria destruir as lembranças boas só porque o final fora ruim.

Também não queria usá-las como argumento para voltar.

Era possível reconhecer que haviam sido felizes em algum momento e, ainda assim, aceitar que aquele casamento não existia mais.

Quando a padaria reabriu, Natália voltou a vestir o avental.

Um franqueado de outra cidade comentou:

— Engraçado ver a fundadora da rede colocando a mão na massa de verdade.

Ela riu.

— Foi assim que comecei.

Naquele mesmo dia, Lucas passou de carro pela rua.

Não tinha ido procurar Natália. Estava a caminho de uma reunião e reconheceu a fachada reformada.

Por alguns segundos pensou em estacionar.

Não estacionou.

Do outro lado do vidro, viu Natália carregando uma bandeja, conversando com funcionários e sorrindo.

Ele se lembrou das vezes em que sentira vergonha daquele avental.

Agora entendia que a vergonha nunca pertencera a ela.

Era dele.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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