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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

Lucas deixou a padaria sem insistir. O impulso antigo teria sido permanecer ali até conseguir uma resposta, mas havia algo diferente na maneira como Natália o encarara. Não era uma esposa magoada tentando puni-lo. Era uma mulher que já não precisava negociar espaço dentro da própria vida.

Na empresa, a perda do contrato começou a produzir consequências concretas. O diretor da área convocou Lucas para uma reunião e pediu uma explicação sobre o histórico do cliente. Ninguém o acusou de ter provocado o rompimento, mas o fato de ele ter sido casado com a controladora da rede sem que a empresa soubesse criou desconforto.

— Você realmente não conhecia a posição dela? — perguntou o diretor.

Lucas respondeu que não.

A pergunta seguinte foi ainda pior.

— E ela conhecia a sua?

— Conhecia.

O diretor recostou-se na cadeira.

— Então ela passou anos evitando usar essa relação para interferir no contrato.

Lucas não conseguiu contestar.

Como medida de cautela, a empresa retirou dele qualquer participação nas negociações de transição com a Sabor de Natália. Ele continuaria responsável pela própria equipe, mas outro executivo conduziria o encerramento da conta.

Era uma decisão profissional razoável.

Mesmo assim, Lucas sentiu como se parte do controle que sempre tivera estivesse escapando.

Na hora do almoço, Camila entrou em sua sala.

— Você foi afastado da conta?

— Da transição, sim.

— Isso vai afetar sua avaliação.

— Eu sei.

Ela fechou a porta.

— Lucas, precisamos pensar no que fazer daqui para frente.

Ele ergueu os olhos.

— Com a conta?

Camila hesitou.

— Com tudo.

Até poucos dias antes, ela falava do divórcio como o início natural de uma nova fase entre os dois. Agora parecia muito mais preocupada com o impacto que a história poderia causar dentro da empresa.

— Ninguém aqui precisa saber sobre nós — disse ela.

Lucas sentiu um incômodo que antes não sentiria.

— Nós começamos enquanto eu ainda era casado.

Camila franziu a testa.

— Você está falando como se tivesse descoberto isso hoje.

— Não descobri hoje.

— Então por que está mudando o tom?

Lucas não soube responder.

Talvez porque, pela primeira vez, a palavra “divórcio” não parecesse apenas uma libertação. Ela carregava tudo o que ele havia preferido não examinar: o desprezo pelo trabalho de Natália, a comparação constante entre os dois e a relação com Camila iniciada antes do casamento terminar.

— Não quero discutir agora — falou.

Camila abriu a porta.

— Quando descobrir o que quer, me avisa.

Naquela tarde, Lucas voltou a ler a carta.

Depois abriu antigos extratos e documentos guardados em pastas digitais. Não encontrou uma revelação única que explicasse tudo. Encontrou pequenas coisas que antes não havia conectado.

Na época da falência de sua primeira empresa, Natália vendera um imóvel comercial que possuía antes do casamento.

Ele se lembrava vagamente de ela ter comentado que queria reorganizar investimentos.

Lucas nunca perguntara para onde o dinheiro tinha ido.

Durante o tratamento da mãe dele, Natália passara muito tempo em ligações. Quando ele perguntava, respondia que eram assuntos da padaria.

Ele aceitara a explicação sem interesse.

Naquela noite, ligou para a mãe.

Conversaram sobre assuntos comuns durante alguns minutos, até Lucas perguntar:

— Mãe, você lembra de quando fez aquele tratamento em 2021?

— Claro.

— A Natália chegou a conversar com você sobre dinheiro?

A mãe ficou em silêncio.

— Por que está perguntando?

— Responde, por favor.

— Ela me pediu para não contar.

Lucas fechou os olhos.

— Contar o quê?

— Que tinha ajudado a pagar. Disse que você estava passando por uma fase difícil e que não queria que se sentisse em dívida com ela.

— E você aceitou esconder?

— Não achei que estava escondendo algo ruim. Achei que vocês eram um casal.

A frase permaneceu entre eles.

Depois a mãe perguntou:

— Vocês brigaram?

Lucas demorou.

— Nós nos divorciamos.

O silêncio seguinte foi mais pesado.

— Foi você que pediu?

— Foi.

— Ela queria?

— Ela aceitou.

A mãe suspirou.

— Lucas… às vezes aceitar não significa que não doeu.

Ele não respondeu.

No dia seguinte, Natália chegou cedo ao escritório central da Sabor de Natália. Desde o divórcio, havia decidido retomar uma presença mais constante nas reuniões executivas. Durante anos, preferira acompanhar a rede sem exposição, dividindo o tempo entre decisões estratégicas e a pequena loja que ainda funcionava como laboratório de receitas.

A padaria de quinze metros quadrados não era uma encenação.

Era o lugar onde a empresa começara.

E Natália continuava gostando de trabalhar ali.

O dinheiro que retirava mensalmente daquela unidade era realmente pequeno, porque os resultados da rede seguiam uma estrutura financeira separada e grande parte dos lucros permanecia reinvestida.

Lucas nunca perguntara.

Ela nunca insistira em explicar.

Com o passar do tempo, o silêncio de um lado e o desprezo do outro haviam criado uma distância que dinheiro nenhum poderia corrigir.

Júlia apareceu no escritório no fim da manhã.

— Ele foi te procurar?

— Foi.

— E?

— Eu não quis conversar.

— Vai querer algum dia?

Natália olhou pela janela.

— Talvez. Mas não para explicar quem eu sou. Essa fase passou.

Na mesma tarde, recebeu um e-mail de Lucas.

O texto era curto.

“Encontrei a carta. Confirmei algumas coisas. Não quero justificar o que fiz nem pedir nada. Só gostaria de conversar quando você achar adequado. Se preferir nunca fazer isso, vou respeitar.”

Natália leu duas vezes.

Não respondeu naquele dia.

Nem no seguinte.

Três dias depois, enviou apenas uma frase:

“Quinta-feira, às 18h, na padaria, depois que fecharmos.”

Lucas chegou às 17h50.

Esperou do lado de fora até a última cliente sair.

Natália virou a placa da porta para “fechado” e permaneceu atrás do balcão.

— Pode entrar.

Lucas entrou e colocou a carta sobre uma mesa.

— Eu não fazia ideia.

Natália olhou para ele.

— Essa é justamente uma parte do problema, Lucas.

— Eu sei.

— Não. Acho que só está começando a saber.

Ele abaixou a cabeça.

— Eu tratei você como se fosse inferior a mim.

Natália não respondeu.

— E descobri que boa parte das coisas das quais eu me orgulhava só existia porque você me ajudou.

— Eu não fiz aquilo para comprar gratidão.

— Eu sei.

— Então não transforme isso em outra competição. O problema nunca foi descobrir quem tinha mais dinheiro.

Lucas levantou os olhos.

Natália continuou:

— O problema foi você achar que o meu valor dependia do quanto eu ganhava.

Ele abriu a boca, mas nenhuma justificativa parecia aceitável.

Pela primeira vez, Lucas não tentou produzir uma.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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