
PARTE 5
A conversa continuou sem gritos. Talvez por isso tenha sido tão difícil para Lucas. Ele estava preparado para enfrentar raiva, acusações e até insultos; qualquer uma dessas coisas lhe permitiria reagir. Mas Natália falava com a clareza de quem já havia repetido aquelas frases muitas vezes dentro da própria cabeça.
— Por que você nunca me contou sobre a rede? — ele perguntou.
Ela apoiou as mãos no balcão.
— Quando nos conhecemos, a Sabor de Natália ainda era pequena. Eu tinha algumas unidades próprias e os primeiros franqueados. Você sabia que eu trabalhava com panificação, sabia que eu tinha investimentos e sabia que o negócio estava crescendo.
— Não sabia que era desse tamanho.
— Porque depois de algum tempo você parou de perguntar.
Lucas ficou calado.
Natália não elevou a voz.
— No começo eu falava sobre novas lojas, contratos, expansão. Você dizia que estava cansado ou que tinha reunião cedo. Quando sua carreira começou a crescer, passou a tratar a minha rotina como se fosse um passatempo.
Ele se lembrou de várias noites em que ela tentara conversar durante o jantar.
Na época, acreditava que fossem histórias pequenas sobre fornecedores, receitas ou funcionários.
Agora percebia que simplesmente não ouvira o suficiente para saber.
— E aqueles R$ 4 mil? — perguntou. — Você dizia que ganhava aquilo.
— Era o que eu retirava da loja onde trabalhava pessoalmente. Você perguntava quanto a padaria tinha me dado naquele mês. Eu respondia.
— E o resto?
— Minha participação na rede já existia antes do casamento e permaneceu organizada separadamente. Os lucros eram reinvestidos, distribuídos conforme a estrutura da empresa ou mantidos em investimentos próprios. Você nunca quis entender.
Lucas passou a mão pelo rosto.
— Eu pensei que sustentava a casa sozinho.
— Você pagava a maior parte das despesas do apartamento porque insistia nisso. Eu pagava outras coisas. E quando você precisou de valores que não conseguiria pagar, eu também estava lá.
Ele encarou a carta sobre a mesa.
— Por que esconder os bônus?
Natália demorou alguns segundos.
— Porque depois que seu primeiro negócio fracassou, você estava destruído. Quando tentei oferecer ajuda diretamente, você recusou e disse que jamais viveria do dinheiro da esposa. Eu achei que preservar sua confiança era mais importante do que receber crédito.
— E acabou alimentando meu orgulho.
— Talvez.
Foi a primeira vez que ela admitiu alguma dúvida sobre as próprias escolhas.
— Eu também errei quando passei a esconder demais. Achei que estava protegendo você e depois percebi que estava apenas tornando mais fácil para nós dois evitarmos conversas difíceis.
Lucas ouviu aquilo sem sentir alívio.
Natália assumir uma pequena parte do silêncio não diminuía o peso das atitudes dele.
— Eu poderia devolver o dinheiro — disse.
Ela franziu levemente a testa.
— Não estou falando disso.
— Mas eu estou. Pelo menos da dívida da empresa e do tratamento da minha mãe.
— Lucas…
— Não para comprar perdão.
Ele respirou.
— Quero assumir o que era meu.
Natália o observou por alguns segundos.
— Se realmente quer fazer isso, não transfira dinheiro impulsivamente. Faça as contas, organize sua vida e me apresente uma proposta realista. Não quero uma atitude dramática que você abandone três meses depois.
Lucas assentiu.
Era uma resposta muito diferente da que esperava.
Não havia reconciliação.
Havia responsabilidade.
Quando saiu da padaria, o céu já estava escuro. Lucas ficou algum tempo dentro do carro sem ligar o motor.
Pela primeira vez, não pensava em como recuperar Natália.
Pensava no tipo de homem que havia sido enquanto acreditava não precisar dela.
Nos dias seguintes, procurou um contador e reuniu registros antigos para estimar os valores que Natália havia desembolsado. Não foi simples. Parte da dívida empresarial fora renegociada, algumas quantias tinham datas diferentes e o tratamento da mãe envolvia pagamentos feitos em etapas.
Ele poderia ter usado a complexidade como desculpa.
Não usou.
Ao mesmo tempo, Natália continuou conduzindo a troca de fornecedor da rede. Três empresas apresentaram propostas. A antiga empresa de Lucas não participou daquela rodada porque ainda estava encerrando o contrato vigente.
Natália pediu à equipe que documentasse todas as decisões.
Não queria que ninguém pudesse dizer que um divórcio havia definido o futuro comercial de centenas de franquias.
Na pequena loja, porém, continuava chegando cedo duas ou três vezes por semana.
Júlia achava curioso.
— Você poderia estar numa sala enorme no escritório central.
— Posso.
— E prefere ficar aqui às seis da manhã mexendo em massa.
Natália sorriu pela primeira vez em dias.
— Eu gosto daqui.
Aquela resposta continha algo que Lucas nunca compreendera.
Para ela, o avental não era símbolo de fracasso.
Era parte daquilo que havia construído.
Na empresa, Lucas começou a sentir o impacto financeiro do fim do contrato. A previsão de bônus daquele ano foi revisada, e sua área precisaria compensar parte da perda com novos clientes.
Ele não foi demitido.
Também não foi protegido das consequências.
O diretor foi claro:
— A conta já apresentava problemas antes de tudo isso. Agora precisamos corrigir nossa operação.
Lucas aceitou.
Meses antes, teria culpado a equipe, o mercado ou o cliente.
Dessa vez, reuniu os gerentes e revisou cada reclamação registrada pela Sabor de Natália.
Descobriu falhas que havia ignorado porque os resultados gerais continuavam bons.
Uma delas o incomodou particularmente: durante quase um ano, unidades menores da rede reclamaram que recebiam atendimento inferior ao das grandes lojas.
Lucas percebeu a ironia.
Até profissionalmente ele estava acostumado a medir valor pelo tamanho dos números.
Começou a corrigir processos.
Não para recuperar Natália.
Nem sequer para recuperar aquele cliente.
Porque finalmente via um problema que antes preferia não ver.
Enquanto isso, sua relação com Camila se tornava cada vez mais distante.
Ela o procurava, mas as conversas sempre terminavam no mesmo ponto.
— Você está obcecado pela sua ex — disse certa noite.
— Não estou tentando voltar com ela.
— Então por que passa tanto tempo pensando nisso?
Lucas ficou em silêncio antes de responder.
— Porque eu fiz coisas que preciso entender.
Camila riu sem humor.
— Agora você virou filósofo?
Ele a encarou.
Dois meses antes, aquela ironia teria parecido inteligência.
Naquele momento, apenas o cansou.
— Nós começamos uma relação antes de eu terminar meu casamento.
Camila cruzou os braços.
— Você também quis.
— Eu sei.
— Então não coloque isso nas minhas costas.
— Não estou colocando.
Lucas respirou fundo.
— Estou colocando nas minhas.
Camila ficou alguns segundos sem resposta.
Foi naquele momento que os dois perceberam que a relação que ajudara Lucas a sair do casamento talvez não tivesse estrutura suficiente para sobreviver ao que vinha depois.
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