
Parte 9
Voltar a Zurique foi muito diferente da primeira viagem.
Daquela vez eu não carregava documentos escondidos na mala nem verificava compulsivamente o celular esperando notícias do Brasil.
Tinha uma apresentação marcada para a manhã seguinte.
Duas reuniões.
Uma agenda normal.
No avião, consegui dormir.
Quando cheguei, deixei as malas no hotel e caminhei até o lago.
Reconheci o café onde havia sentado meses antes.
Escolhi uma mesa do lado de fora.
Pedi café.
Nada de champanhe.
Sorri sozinha com a comparação.
Naquele mesmo lugar, eu tinha tentado convencer a mim mesma de que estava livre.
Agora compreendia que liberdade não tinha começado quando o avião deixou São Paulo.
Começou quando parei de organizar minha vida em reação a Marcelo.
A reunião da manhã seguinte foi bem.
A parceria não transformaria minha empresa numa gigante.
Também não precisava.
Era um contrato sólido, com responsabilidades claras.
Se desse certo, abriria oportunidades.
Se não desse, sobreviveríamos.
Eu estava aprendendo a gostar desse tipo de segurança.
Depois da reunião, meu celular mostrou uma mensagem de Marcelo.
Fazia quase dois meses que não conversávamos.
“Helena, posso te ligar hoje?”
Pensei antes de responder.
“Depois das 19h no Brasil.”
No horário combinado, ele ligou.
— Você está viajando?
— Estou em Zurique.
Houve uma breve pausa.
— De novo.
— A trabalho, dessa vez.
— Que bom.
A voz dele estava tranquila.
Não perguntou com quem eu estava.
Não pediu detalhes.
— O que aconteceu?
— Nada grave. Eu só queria te contar uma coisa antes que você descubra por alguém da Aurora.
— Pode falar.
— Vou deixar o cargo de diretor-presidente no fim do próximo trimestre.
Aquilo me surpreendeu.
— O conselho pediu?
— Não.
— Então por quê?
— Porque acho que a empresa precisa de uma fase em que não dependa tanto de mim.
Fiquei em silêncio.
Marcelo continuou:
— Vou permanecer no conselho e na área de tecnologia por um período. Mas outra pessoa vai assumir a operação.
— Você tem certeza?
Ele riu baixo.
— Engraçado você perguntar isso.
— Por quê?
— Porque você foi a primeira pessoa, em muitos anos, a me fazer perceber que eu não sabia sair de nada.
A frase me fez pensar.
Marcelo sempre tratara permanência como sinônimo de força.
Na empresa.
Nas discussões.
Nas decisões.
Até no casamento, quando acreditou que eu continuaria ali independentemente do que fizesse.
— Se é uma decisão profissional bem pensada, espero que funcione — respondi.
— É.
Depois ficou em silêncio.
— Tem mais alguma coisa?
— Tem.
Esperei.
— O pai biológico do menino foi confirmado.
Meu corpo ficou tenso por reflexo.
Não por curiosidade.
Aquela história estava ligada a um dos períodos mais difíceis da minha vida.
— Entendi.
— Lívia está resolvendo tudo com ele. Eu não participo mais.
— Melhor assim.
Marcelo respirou.
— Eu achei que, quando soubesse quem era, sentiria alguma coisa. Raiva. Vontade de encontrar o cara. Qualquer coisa.
— E sentiu?
— Não.
Sua resposta foi imediata.
— Percebi que nunca foi sobre ele.
Fechei os olhos.
— Não.
— Foi sobre minhas decisões.
— Sim.
Outra pausa.
— Helena, acho que finalmente consigo dizer isso sem esperar que você faça nada com a informação: eu estraguei nosso casamento.
Não respondi de imediato.
Marcelo já havia pedido desculpas.
Já havia reconhecido seus erros.
Mas aquela frase era diferente.
Não falava de Lívia.
Do bebê.
Do DNA.
Da minha venda de ações.
Falava da origem.
— Você teve ajuda — respondi. — Mas a decisão de me trair foi sua.
— Eu sei.
— E minha decisão de ir embora foi minha.
— Também sei.
A conversa poderia ter terminado ali.
Mas Marcelo perguntou:
— Você está bem?
Olhei para o lago.
Meses antes, se ele tivesse perguntado aquilo, eu teria interpretado como tentativa de aproximação.
Agora parecia apenas uma pergunta.
— Estou.
— De verdade?
— De verdade.
— Fico feliz.
Acreditei nele.
E foi estranho perceber que isso não mudava nada.
Eu podia acreditar no arrependimento de Marcelo sem querer voltar para ele.
Podia desejar que aprendesse alguma coisa sem oferecer outra oportunidade.
Podia reconhecer os anos bons sem permitir que apagassem os últimos.
Era uma espécie de paz que eu não imaginava existir.
— Preciso ir — falei.
— Claro.
Antes de desligar, ele disse:
— Boa sorte no trabalho.
— Obrigada.
A chamada terminou.
Nenhuma promessa.
Nenhum “quem sabe um dia”.
Nenhum cliffhanger romântico.
Coloquei o celular sobre a mesa.
No dia seguinte, assinei a parceria.
Quando voltei ao Brasil, minha equipe me recebeu com uma pequena comemoração improvisada.
Nada luxuoso.
Um bolo.
Algumas taças.
Risadas.
Olhei ao redor e senti orgulho.
Não era a Aurora.
Nunca seria.
Também não precisava ser.
Meu trabalho agora tinha uma escala diferente e uma origem diferente.
Eu não estava tentando provar que poderia superar Marcelo.
Estava tentando construir algo que fizesse sentido para mim.
Alguns dias depois, recebi o documento final relacionado ao antigo casamento.
Não havia mais pendências relevantes.
Meu advogado escreveu:
“Encerrado.”
Dessa vez, não senti tristeza.
Imprimi a página.
Guardei junto aos demais documentos.
Depois voltei ao trabalho.
Na Aurora, a transição de Marcelo também avançava.
O conselho aprovou o novo diretor-presidente.
Marcelo continuaria como acionista e conselheiro técnico.
Era uma redução de poder, mas escolhida e organizada.
Não uma queda espetacular.
Talvez justamente por isso tivesse mais significado.
Ele estava aprendendo a não ocupar todo o espaço.
Sônia, segundo soube por conhecidos em comum, deixou de falar sobre “herdeiros” por algum tempo.
Lívia seguiu sua vida com o filho e com as responsabilidades que agora precisava organizar.
Eu não procurei detalhes.
Eles não eram mais meus.
Faltava apenas uma coisa.
A antiga folha que eu deixara na casa de Marcelo.
Aquela com a mensagem sobre o exame.
Ele havia guardado.
Eu soube porque, pouco antes de deixar o cargo executivo, Marcelo me enviou uma fotografia da folha dobrada.
A mensagem dizia:
“Vou jogar isso fora hoje.”
Olhei para a imagem.
Era o objeto que havia iniciado a queda de todas as certezas dele.
Também representava uma versão de mim movida por dor e raiva.
Respondi:
“Faça isso.”
Marcelo escreveu:
“Tem certeza?”
Dessa vez sorri.
“Tenho.”
Ele não respondeu mais.
E, naquela noite, enquanto eu fechava o escritório, percebi que talvez aquela fosse a última vez que precisaríamos conversar sobre qualquer objeto, conta, documento ou memória do nosso casamento.
Restava apenas viver.
Mas ainda havia uma última conversa que eu precisava ter.
Não com Marcelo.
Comigo mesma.
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