
Parte 2
Marcelo ficou olhando para a mensagem durante tempo demais. Sônia chamou seu nome duas vezes, mas ele não respondeu. Só quando Lívia perguntou se havia acontecido alguma coisa é que ele ergueu os olhos e percebeu que todos estavam observando.
— Problema na empresa — disse ele. Não abriu o relatório diante deles. Guardou o celular no bolso e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si com mais força do que pretendia.
No corredor, os mesmos vinte seguranças que deveriam impedir minha entrada continuavam posicionados. Marcelo passou por todos sem dizer uma palavra e entrou numa sala vazia usada pelos acompanhantes. Trancou a porta.
A primeira página do relatório não lhe deu a certeza que ele queria. O documento apontava uma incompatibilidade grave no material submetido e recomendava confirmação direta com amostra do recém-nascido antes de qualquer conclusão definitiva sobre paternidade. Era suficiente para destruir sua tranquilidade, mas não para lhe dar o direito de acusar ninguém.
Marcelo voltou ao quarto diferente. Não abraçou Lívia. Não tocou no bebê. Pediu ao médico, de maneira seca, informações sobre a possibilidade de realizar um exame de paternidade depois do nascimento.
Lívia empalideceu. — Exame de quê? — perguntou. Sônia também perdeu o sorriso. Marcelo colocou o celular diante das duas, mas não entregou o aparelho.
— Helena deixou isso para mim. E agora eu quero uma resposta que não dependa dela, nem de você.
Lívia começou a dizer que aquilo era uma armação minha. Falou que eu estava tentando destruir a felicidade deles porque não aceitava o fim do casamento. Marcelo não discutiu; apenas observou que ela não havia perguntado o que constava no relatório.
Foi a primeira mudança em seu rosto. Não culpa comprovada. Medo. Pequeno, mas impossível de esconder.
— Você está acreditando nela? — Lívia perguntou. Marcelo respondeu que não acreditava mais em ninguém. Aquilo a atingiu mais do que qualquer acusação.
Sônia tentou impedir o exame. Disse que submeter um recém-nascido àquela humilhação era absurdo, que o menino tinha o rosto da família e que ninguém pisaria na alegria daquele dia por causa de uma esposa ressentida. Marcelo olhou para a mãe e perguntou: — Se a senhora tem tanta certeza, por que tem medo do resultado?
O quarto ficou gelado. Lívia virou o rosto e apertou o lençol entre os dedos. O bebê começou a chorar, e por alguns segundos ninguém soube o que fazer.
Do outro lado do mundo, eu caminhava pela margem do lago quando recebi uma ligação do conselho da Aurora. Não era Marcelo. Era um dos conselheiros independentes querendo saber se a venda das ações significava minha saída definitiva da empresa.
— Significa — respondi. — Mas quero que tudo seja formalizado corretamente.
Ele mencionou os acessos interrompidos, os arquivos sob minha administração e o impacto da minha venda sobre o mercado. Pela primeira vez desde que chegara à Suíça, percebi que minha saída não terminaria apenas porque eu havia embarcado num avião.
— Vou cooperar com a transição dentro do que me compete — disse. — Não vou usar dados da Aurora contra a empresa. Mas também não volto para fingir que nada aconteceu.
A resposta pareceu surpreendê-lo. Talvez Marcelo já tivesse contado a todos que eu estava tentando destruí-lo. Eu não precisava destruir a Aurora. Metade da minha vida profissional estava naquela empresa, e centenas de funcionários não tinham culpa do que ele fizera.
Naquela noite, organizei os documentos que levara comigo e separei o que era pessoal do que pertencia à sociedade. Também reservei numa conta separada os valores cuja divisão ainda precisaria ser formalizada. Eu queria sair do casamento. Não queria passar os próximos anos explicando por que confundira vingança com justiça.
Foi quando chegou a primeira mensagem de Marcelo desde que eu saí. Não havia pedido de desculpas. Não havia explicação. Apenas quatro palavras: “Você sabia de quê?”
Fiquei olhando para a tela. Durante cinco anos, fui eu quem fez perguntas e recebeu meias respostas. Dessa vez, ele teria de encontrar as próprias.
Respondi apenas: “Faça o exame corretamente.”
Marcelo leu. Não respondeu. Na manhã seguinte, antes mesmo da alta de Lívia e do bebê, ele autorizou a coleta para um novo teste de paternidade, dessa vez com amostras dele e da criança, identificadas no próprio hospital.
Lívia assinou a autorização depois de muita resistência. Quando finalmente entregou o documento, Marcelo notou que sua mão tremia. E foi ali, segundo eu saberia mais tarde, que ele deixou de esperar um resultado tranquilizador e começou a se preparar para algo que jamais imaginara enfrentar.
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