Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Dois dias depois, eu ainda estava em Zurique quando o diretor financeiro da Aurora pediu uma videoconferência. Não tentei evitar. Eu já tinha compreendido que sair de um casamento podia ser uma decisão pessoal, mas sair de uma companhia aberta exigia responsabilidade.

Na tela apareceram três membros do conselho, o diretor financeiro e um advogado interno da empresa. Marcelo não estava presente.

Eles começaram pelas ações. Minha venda era legalmente possível, pois estavam registradas em meu nome e não havia bloqueio que me impedisse de negociar, mas o volume tinha provocado forte volatilidade. Alguns investidores queriam uma explicação.

— Não vou discutir meu casamento com o mercado — respondi. — Mas também não pretendo esconder que minha decisão de deixar a administração é definitiva.

Depois veio a questão mais delicada.

Os acessos.

O sistema comercial havia sido organizado durante anos sob minha gestão. Eu não tinha apagado os dados da companhia, mas encerrara credenciais remotas e retirara do ambiente doméstico cópias que estavam sob minha responsabilidade.

— Precisamos garantir continuidade — disse o diretor financeiro.

— E vocês vão ter.

Expliquei que entregaria as credenciais administrativas a um responsável indicado formalmente pelo conselho. A cópia criptografada que estava comigo permaneceria lacrada até que a equipe jurídica definisse quais arquivos eram pessoais, quais documentavam minha participação na empresa e quais deveriam ser devolvidos ou destruídos.

Eu podia estar furiosa com Marcelo.

Não estava disposta a prejudicar funcionários que nunca tinham participado da traição.

A conversa durou quase duas horas.

No final, acordamos uma transição técnica conduzida por escrito, com registro de tudo. Nenhum cliente seria contatado por mim durante aquele período. Nenhuma informação comercial seria utilizada fora da Aurora.

Quando desliguei, senti algo estranho.

Não era alívio completo.

Era a primeira sensação de que eu estava retomando o controle sem precisar incendiar nada.

Durante meses, cada decisão minha tinha sido reação a Marcelo e Lívia.

Agora começava a existir uma vida que não girava ao redor deles.

Na mesma tarde, meu advogado no Brasil me ligou.

Ele já havia iniciado a preparação para o divórcio e insistiu numa coisa que eu sabia que precisaria enfrentar.

O dinheiro retirado da conta conjunta teria de ser discriminado.

Uma parte podia pertencer a mim.

Outra poderia entrar na divisão patrimonial.

— Não quero ficar com um centavo que não seja meu — respondi.

Ele fez uma pausa.

— Então vamos documentar.

Foi o que fizemos.

Separei os valores que estavam claramente ligados ao meu patrimônio particular e mantive o restante sem movimentação, aguardando a definição formal.

Aquilo podia parecer pequeno diante de tudo o que havia acontecido.

Para mim, não era.

Eu não queria que Marcelo pudesse dizer, um dia, que éramos iguais.

Enquanto eu organizava minha saída, ele passava pela situação oposta.

A cada hora, perdia mais controle.

A Aurora havia recuperado parte dos acessos por meio da equipe técnica e do conselho. Portanto, a empresa não parou.

Isso também destruiu uma ilusão de Marcelo.

Ele sempre tratara a companhia como extensão da própria vontade.

Agora descobria que uma empresa listada em bolsa tinha governança, acionistas, diretores e obrigações que continuavam existindo mesmo quando a vida pessoal do fundador desmoronava.

O conselho convocou Marcelo para uma reunião extraordinária.

Ele tentou transformar minha saída num ataque pessoal.

Disse que eu havia vendido ações para desestabilizá-lo.

Que eu me aproveitara de um momento delicado.

Que eu havia retirado documentos e bloqueado sistemas.

Mas os diretores já tinham diante deles minha proposta de transição, o inventário dos arquivos e minha autorização para recuperar as credenciais.

A narrativa de sabotagem perdeu força.

Um conselheiro perguntou apenas:

— Marcelo, existe algum conflito pessoal que possa continuar afetando a gestão da companhia?

Foi a pergunta que ele menos queria responder.

Porque a resposta era sim.

E todo mundo na sala sabia.

Naquela mesma noite, Lívia voltou para a casa onde vinha morando.

Marcelo não foi com ela.

Disse que ficaria alguns dias no apartamento de um amigo, mas a verdade era mais simples: ele não conseguia olhar para o bebê sem pensar no exame.

Lívia ligou dezenas de vezes.

Ele não atendeu.

Sônia ligou ainda mais.

Marcelo desligou o celular.

O teste do hospital ainda não estava pronto.

Nenhuma conclusão existia.

Mesmo assim, a relação que ele construíra com Lívia já tinha mudado.

Até então, ela era a mulher por quem ele estava disposto a enfrentar a própria esposa.

Agora era alguém de quem ele desconfiava.

E o mais cruel era que a dúvida não apagara o que ele havia feito comigo.

Se o menino fosse seu, ele continuaria sendo o homem que me traíra.

Se não fosse, continuaria sendo o homem que me traíra e ainda descobriria ter sido enganado.

Não havia resultado capaz de devolver a ele a posição anterior.

Eu entendi isso antes dele.

Na terceira manhã em Zurique, saí cedo e caminhei sem destino.

Passei diante de uma livraria, entrei e comprei um caderno de capa simples.

Sentei num banco perto do lago e escrevi na primeira página três coisas.

“Divórcio.”

“Saída da Aurora.”

“Minha vida depois disso.”

Fiquei olhando para a última frase.

Durante muito tempo, eu tinha planejado tudo em função de nós dois.

A casa.

A empresa.

Os investimentos.

As viagens.

Até meus horários.

Não sabia ainda como seria organizar uma vida só minha.

Mas pela primeira vez não senti medo da pergunta.

Naquela tarde, Marcelo finalmente me ligou.

Atendi.

A câmera não estava aberta, mas eu reconheceria a respiração dele em qualquer lugar.

— Helena.

— Fala.

— Por que você não me confrontou?

Eu quase ri.

Não por achar graça.

Pela ironia.

— Você cercou uma maternidade com vinte seguranças porque achava que eu iria confrontar vocês.

Ele ficou quieto.

— Estou perguntando por que você não falou comigo antes de fazer tudo isso.

— Porque você já tinha tomado suas decisões antes de eu descobrir.

— Não é tão simples.

— Para mim ficou simples no momento em que você preparou uma casa para outra mulher ter seu filho enquanto ainda era meu marido.

Ele respirou fundo.

— O resultado ainda não saiu.

— Isso não muda a minha decisão.

Foi a primeira vez que ele pareceu compreender.

Até então, Marcelo acreditava que o DNA era a chave da história.

Não era.

O exame decidiria apenas se a criança era biologicamente dele.

Meu casamento já tinha terminado por motivos que não dependiam daquele resultado.

— Se o menino for meu…

— Continue sendo pai.

— E se não for?

Olhei para a água do lago.

— Aí você vai precisar decidir que tipo de homem quer ser diante das consequências das suas próprias escolhas.

Ele não respondeu.

Eu também não tinha mais nada a dizer.

Antes de desligar, Marcelo falou num tom mais baixo:

— O resultado sai amanhã.

— Então amanhã você terá uma resposta.

— Você não quer saber?

Pensei alguns segundos.

— Quero.

Ele pareceu respirar melhor.

Então completei:

— Mas não porque pretendo voltar.

Desliguei.

Na manhã seguinte, o resultado definitivo do exame realizado com Marcelo e o recém-nascido ficou disponível.

E, dessa vez, não havia recomendação para repetir.

Havia uma conclusão.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1