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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Fui demitida minutos antes de assinar um contrato de R$ 1,8 bilhão — então rasguei tudo na frente do cliente e fui embora
PARTE 1

Eu estava sentada na sala de reuniões do nosso maior parceiro comercial, prestes a colocar minha assinatura em um contrato de R$ 1,8 bilhão.

Faltava apenas uma assinatura.

Um gesto simples depois de um ano inteiro de negociações, viagens, reuniões intermináveis e noites mal dormidas.

Foi exatamente nesse momento que meu celular vibrou.

O grupo interno da empresa havia acabado de publicar a lista de funcionários que seriam dispensados.

Meu nome aparecia em primeiro lugar.

Antes mesmo que eu conseguisse entender aquilo, chegou uma mensagem particular do meu chefe.

“Depois de assinar, envie o contrato para a empresa. A partir de amanhã, você não precisa mais trabalhar. Seu cargo ficará com meu irmão.”

Fiquei alguns segundos olhando para a tela.

Então comecei a rir.

Meu nome é Júlia Tavares.

Naquele momento, eu estava em Belo Horizonte, numa sala de reuniões no último andar de um dos maiores centros empresariais da cidade.

Do outro lado da mesa estava Marcelo Viana, diretor-presidente da empresa que se tornaria a principal parceira daquele projeto.

Entre nós repousava o contrato.

R$ 1,8 bilhão.

Eu havia passado trezentos e sessenta e cinco dias trabalhando para chegar àquele momento.

Um ano inteiro.

E finalmente tínhamos chegado à assinatura.

Marcelo sorriu e deslizou a caneta na minha direção.

— Júlia, espero que essa seja uma parceria longa.

Sorri de volta e estendi a mão para pegar a caneta.

Foi quando o celular vibrou dentro da minha bolsa.

Pedi licença com um gesto e olhei rapidamente para a tela.

Era uma mensagem no grupo geral da InovaTech.

A direção havia publicado uma lista com os nomes dos funcionários incluídos numa nova rodada de desligamentos.

Não precisei rolar a tela.

Meu nome estava logo no topo.

Júlia Tavares.

Por alguns segundos, não consegui pensar em absolutamente nada.

Fiquei apenas encarando aquelas palavras, como se meu cérebro se recusasse a aceitar o que meus olhos estavam vendo.

O celular vibrou outra vez.

Dessa vez era Renato Duarte, meu superior direto.

Abri a conversa.

“Júlia, você já viu a lista?”

Logo abaixo, outra mensagem apareceu.

“Assine o contrato e mande tudo para a empresa assim que terminar.”

Depois veio a terceira.

“Nem precisa voltar ao escritório. Seu cargo vai ficar com meu irmão, Caio.”

E, como se aquilo ainda não fosse suficiente, chegou mais uma.

“Ah, e pode esquecer o bônus e a comissão deste mês.”

Li cada linha devagar.

Uma vez.

Duas vezes.

Três.

Eu havia passado um ano inteiro cuidando daquele projeto.

Durante meses, minha rotina tinha sido aeroporto, hotel, reunião, relatório, ligação, planilha e mais reunião.

Havia perdido finais de semana, cancelado compromissos e passado inúmeras noites acordada revisando detalhes que ninguém mais queria revisar.

Não porque eu fosse obrigada a amar a empresa.

Mas porque levava meu trabalho a sério.

E a recompensa seria aquela.

Esperar até o último minuto.

Deixar que eu concluísse o serviço.

Pegar o contrato pronto.

E, depois, colocar o irmão do chefe no meu lugar.

Marcelo percebeu minha expressão.

— Júlia, aconteceu alguma coisa?

Levantei os olhos.

Tentei sorrir.

Provavelmente foi o sorriso mais sem graça que dei na vida.

Olhei novamente para a mensagem de Renato.

“Seu cargo vai ficar com meu irmão.”

Então olhei para o contrato diante de mim.

Ele era grosso.

Pesado.

Ali estavam meses de discussões comerciais, revisões técnicas e compromissos negociados por dezenas de pessoas.

Mas, para mim, também representava um ano inteiro da minha vida.

Peguei o documento.

Marcelo franziu a testa.

Antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa, segurei o primeiro bloco de páginas e rasguei ao meio.

O som seco do papel cortando o silêncio da sala pareceu muito mais alto do que realmente era.

Marcelo se levantou de imediato.

— Júlia! O que você está fazendo?

Não respondi.

Continuei.

Página após página.

Trecho após trecho.

Até que o contrato de R$ 1,8 bilhão estivesse reduzido a pedaços espalhados sobre a mesa e pelo chão.

Algumas folhas deslizaram lentamente até o carpete.

Outras ficaram perto dos meus pés.

Soltei o último pedaço de papel.

Respirei fundo.

— Marcelo, me desculpe.

Ele continuava me olhando, atônito.

— O que está acontecendo?

Mantive a voz firme.

— Acho que o senhor acabou de descobrir qual é o nível de compromisso que a minha empresa tem com este projeto.

Ele não disse nada.

Continuei:

— Este contrato não será assinado hoje.

Fiz uma breve pausa.

— Pelo menos não por mim.

Inclinei o corpo numa despedida respeitosa.

— Obrigada por todo o tempo que o senhor e sua equipe dedicaram às negociações.

Então virei as costas.

Não discuti.

Não fiz discurso.

Não liguei para Renato.

Apenas saí.

Atravessei o corredor, entrei no elevador e desci até o térreo enquanto sentia meu coração bater tão forte que parecia ocupar todo o peito.

Ao chegar à rua, peguei o celular.

Apaguei o contato de Renato.

Saí de todos os grupos internos da empresa.

Depois abri o aplicativo da companhia aérea e comprei uma passagem para o primeiro voo disponível de volta a São Paulo.

Quando o avião decolou, fiquei observando as nuvens pela janela.

Havia raiva.

Havia decepção.

Mas, acima de tudo, havia uma estranha sensação de clareza.

Renato queria meu trabalho.

Queria o contrato.

Queria os resultados.

Só não queria mais a pessoa que tinha feito tudo aquilo acontecer.

Pois bem.

Ele acabara de descobrir que algumas coisas não podiam ser separadas com tanta facilidade.

Quando o avião pousou em São Paulo, liguei o celular.

A tela praticamente explodiu.

Havia dezenas de chamadas perdidas e uma sequência interminável de mensagens.

Quase todas eram de antigos colegas da InovaTech.

Não abri nenhuma.

Desliguei o aparelho outra vez.

Aquele pequeno gesto trouxe um silêncio que eu não sentia havia muito tempo.

Peguei um táxi na saída do aeroporto.

— Centro, por favor.

O carro entrou na avenida e eu encostei a cabeça no vidro, observando a cidade passar.

Depois de algum tempo, resolvi ligar o celular novamente.

Quase imediatamente, recebi uma ligação de um número que não conhecia.

Atendi.

— Alô?

— É a Júlia Tavares?

A voz masculina era calma.

— Sim.

— Aqui é Leonardo Mendes, do Grupo Horizonte. Nós nos encontramos numa concorrência empresarial alguns meses atrás.

Reconheci o nome na mesma hora.

O Grupo Horizonte era o maior concorrente da InovaTech naquele segmento.

E Leonardo havia participado de uma licitação que minha equipe vencera.

Mesmo derrotado, ele tinha vindo pessoalmente me cumprimentar depois do resultado.

— Claro que me lembro. Bom dia, Leonardo.

Ele foi direto ao ponto.

— Fiquei sabendo que você saiu da InovaTech.

A notícia tinha viajado rápido.

— Sim.

— Então vou economizar rodeios. Você teria interesse em trabalhar no Grupo Horizonte?

Fiquei em silêncio.

Leonardo continuou:

— Cargo e remuneração acima do que você tinha. Podemos conversar sobre os detalhes com calma.

Não consegui evitar um pequeno riso.

— Você está aproveitando que a casa pegou fogo.

Ele também riu.

— Eu prefiro dizer que sei reconhecer talento quando aparece uma oportunidade.

Olhei para o movimento do lado de fora.

— Preciso pensar.

— Claro. Pense com calma. Me procure quando tiver uma resposta.

A ligação terminou.

Passei o restante do trajeto em silêncio.

Na manhã seguinte, acordei sem despertador pela primeira vez em muito tempo.

Fiquei alguns minutos olhando para o teto.

Então me lembrei.

A InovaTech faria naquele dia uma grande celebração pelo “sucesso” do projeto de R$ 1,8 bilhão.

Peguei o celular e abri um aplicativo de transmissão financeira que cobriria o evento.

O salão estava decorado como se a empresa tivesse acabado de conquistar o maior contrato da própria história.

Tapete vermelho.

Arranjos de flores.

Telões.

Fotógrafos.

Renato apareceu no palco usando um terno sob medida e um sorriso impossível de esconder.

Ao lado dele estava um homem alguns anos mais jovem.

Os traços eram parecidos.

Não precisei de apresentação para saber quem era.

Caio Duarte.

O irmão que assumiria meu lugar.

O apresentador entregou o microfone a Renato.

— Renato, como um dos principais responsáveis pela conquista deste projeto, o que você gostaria de dizer?

Ele ajeitou o paletó.

— Primeiro, quero agradecer à confiança da diretoria.

Fez uma pausa calculada.

— E também quero aproveitar esta ocasião para apresentar oficialmente uma nova peça fundamental da nossa equipe.

Ele chamou o irmão para mais perto.

— Caio Duarte.

Alguns aplausos dispersos surgiram na plateia.

— A partir de agora, Caio ficará à frente deste projeto.

Renato sorriu para ele.

— Tenho certeza de que fará um excelente trabalho.

Caio recebeu o microfone.

Seu sorriso parecia ainda maior que o do irmão.

— Bom dia a todos.

Ele olhou para a plateia.

— Meu irmão conseguiu trazer esse projeto para a empresa e agora eu vou mostrar que posso conduzi-lo daqui para frente.

Depois soltou uma risadinha.

— Sinceramente, se uma mulher conseguiu negociar esse contrato, não vejo por que eu deveria ter dificuldade.

Ele não conseguiu terminar.

Uma pessoa avançou pelo corredor central do salão numa velocidade que fez várias cabeças se virarem ao mesmo tempo.

Era Marcelo Viana.

O mesmo homem diante de quem eu havia rasgado o contrato no dia anterior.

Seu rosto estava vermelho.

Ele subiu ao palco, arrancou o microfone da mão de Caio e o lançou com força contra o chão.

O aparelho se partiu.

O salão inteiro ficou em silêncio.

Marcelo apontou diretamente para Renato.

— Renato! Você perdeu a cabeça?

Renato recuou um passo.

— Marcelo, eu posso explicar…

— Explicar o quê?

A voz dele ecoou pelo salão.

— O contrato acabou!

Algumas pessoas começaram a cochichar.

Marcelo continuou:

— O projeto está suspenso. Minha empresa se recusou a seguir com a assinatura e acionou as cláusulas previstas para o descumprimento das condições negociadas.

A expressão de Renato mudou.

— Como assim?

Marcelo apontou para ele novamente.

— Quem autorizou a demissão de Júlia Tavares antes da conclusão das negociações?

O rosto de Renato perdeu a cor.

Marcelo prosseguiu:

— Quem decidiu tirar a responsável pelo projeto justamente no momento da assinatura e substituí-la por alguém que não participou de nenhuma etapa?

Caio estava imóvel ao lado do irmão.

— Marcelo… — Renato tentou falar. — Houve um mal-entendido.

— Mal-entendido?

Marcelo soltou uma risada sem humor.

— Além de perder a assinatura, sua empresa agora enfrenta uma cobrança que pode chegar a dez vezes o valor da penalidade prevista nas negociações preliminares.

A plateia explodiu em murmúrios.

Fotógrafos começaram a disparar flashes.

Celulares apareceram por todos os lados.

O evento que deveria celebrar a maior vitória comercial da InovaTech havia virado um desastre diante das câmeras.

Renato abriu a boca mais uma vez.

— Por favor, me deixe explicar…

Marcelo nem permitiu.

— Explique para sua diretoria.

A transmissão mostrava o rosto pálido de Renato em close.

Caio permanecia ao lado dele, sem saber onde colocar as mãos.

Desliguei o vídeo.

A tela escureceu.

Fiquei alguns segundos olhando para meu próprio reflexo.

Então sorri de leve.

Aquela história estava muito longe de terminar.

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