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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Leonardo pediu que terminássemos a reunião antes de falar sobre o resultado. Eu quase protestei, mas percebi que ele tinha razão. Havia oito pessoas na sala discutindo um problema real de um cliente que não tinha qualquer ligação com a concorrência bilionária.

Então continuamos.

Demorou mais vinte minutos.

Foram os vinte minutos mais longos daquela semana.

Quando a última pessoa saiu, fechei a porta.

— Agora pode falar.

Leonardo sentou.

— O conselho pediu mais uma condição antes da decisão final.

Meu coração diminuiu o ritmo.

Ainda não havia resultado.

— Qual?

— Eles querem que as duas finalistas apresentem uma confirmação formal de disponibilidade da equipe principal e um cronograma de transição com nomes responsáveis por cada etapa.

Suspirei.

— Isso já está quase pronto.

— Está.

Ele me entregou um documento.

— Só que há um ponto.

Li.

O comitê queria saber quem seria o executivo principal responsável pelo contrato durante os primeiros dezoito meses.

Meu nome aparecia na versão preliminar.

Olhei para Leonardo.

— Não.

— Foi o que eu imaginei.

— Acabamos de decidir que esse projeto não deve depender de uma pessoa.

— Então precisamos reformular.

Chamamos operações.

Em menos de uma hora, estruturamos uma governança com dois responsáveis executivos e um comitê mensal.

Eu ficaria com estratégia comercial e relação institucional.

O diretor de implantação teria autoridade sobre execução.

Finanças e tecnologia teriam responsáveis próprios.

Nenhuma decisão crítica dependeria exclusivamente de mim.

Quando enviamos a resposta, Helena pediu uma videoconferência.

Ela perguntou:

— Por que alteraram o desenho?

Respondi:

— Porque a pergunta de vocês expôs uma contradição. Nós dizemos que o projeto não deve depender de uma pessoa, mas colocamos uma pessoa como responsável absoluta.

Ela fez outra pergunta:

— Isso significa que você está reduzindo seu compromisso?

— Não. Significa que estou reduzindo o risco do cliente.

A reunião terminou em quinze minutos.

No fim daquela tarde, o Horizonte recebeu a confirmação de que a documentação estava aceita.

A decisão ficaria para o dia seguinte.

Naquela noite, não consegui trabalhar.

Fechei o computador às sete.

Fiz jantar.

Liguei para minha mãe.

Ela sabia apenas o básico sobre tudo que havia acontecido.

Nunca entendeu por que empresas gastavam tantas horas discutindo contratos, mas tinha uma sabedoria simples que eu costumava ignorar.

— E se vocês perderem? — ela perguntou.

— Vou ficar decepcionada.

— E depois?

— Vou trabalhar.

— Então já sabe o que acontece.

Sorri.

— Acho que sim.

— E se ganhar?

— Vou trabalhar muito mais.

Ela riu.

— Então não vejo grande diferença.

Depois da ligação, fiquei pensando naquilo.

Durante um ano inteiro, eu tratara a assinatura daquele projeto como se fosse a prova definitiva da minha carreira.

Se desse certo, eu teria vencido.

Se desse errado, teria fracassado.

Agora parecia absurdo.

Nenhum contrato poderia carregar sozinho todo o valor de uma pessoa.

Na manhã seguinte, cheguei cedo ao escritório.

Às nove e vinte, Leonardo entrou na minha sala.

— Recebemos o resultado.

Dessa vez ele estava sorrindo.

Eu me levantei.

— E?

— Horizonte foi escolhido como fornecedor preferencial.

Fiquei imóvel.

Ele levantou a mão antes que eu dissesse qualquer coisa.

— Ainda não existe contrato assinado. Agora começa a negociação final.

Eu comecei a rir.

— Obrigada por estragar o momento.

— Estou tentando evitar outro contrato rasgado.

Ri ainda mais.

A equipe foi chamada para a sala grande.

Leonardo fez o anúncio com o mesmo cuidado.

Vencêramos a concorrência técnica e comercial.

Agora teríamos de concluir garantias, detalhes jurídicos e condições finais.

Ninguém poderia agir como se R$ 1,8 bilhão já estivesse no caixa.

Mesmo assim, houve aplausos.

Abraços.

Café.

Um bolo improvisado apareceu no fim da tarde.

Eu participei.

Mas, quando todos começaram a ir embora, fiquei alguns minutos sozinha.

O projeto estava de volta às minhas mãos.

Não da mesma forma.

Não pela mesma empresa.

Não pelas mesmas condições.

E não como símbolo de revanche.

Naquela noite, a InovaTech publicou uma nota curta informando que respeitava o resultado da concorrência e seguiria concentrada em outros projetos.

Nada de acusações.

Nada de escândalo.

Augusto me enviou uma mensagem pessoal:

“Parabéns pelo resultado. Espero que o projeto seja bem executado.”

Respondi:

“Obrigada. Espero que a InovaTech siga bem também.”

Foi estranho escrever aquilo.

Mas era sincero.

Eu não queria mais que a empresa quebrasse.

Não precisava.

No dia seguinte, começaram as negociações finais.

E foi aí que surgiu o primeiro problema real.

A equipe de Marcelo queria reduzir o prazo de implantação em três meses.

Nosso time técnico afirmou que isso aumentaria riscos.

Meses antes, talvez eu tivesse concordado com o cliente apenas para garantir a assinatura.

Dessa vez, não.

Durante a reunião, Marcelo foi direto.

— Esse prazo é importante para nosso planejamento.

— Entendo.

— O concorrente anterior aceitaria.

Houve silêncio.

Eu sabia que ele estava testando nossa posição.

— Nós não somos o concorrente anterior.

Ele estreitou os olhos.

— Isso significa não?

— Significa que podemos reduzir parte do cronograma, mas não três meses sem alterar recursos e custos. Se eu disser sim apenas para assinar, estaremos comprando um problema para o próximo ano.

O diretor técnico apresentou os números.

Marcelo discutiu.

Leonardo discutiu.

A reunião durou quase três horas.

No fim, chegamos a um meio-termo.

Redução de seis semanas.

Contratação antecipada de parte da equipe.

Revisão de marcos.

Custos redistribuídos.

Ninguém conseguiu tudo.

Era assim que uma negociação séria deveria funcionar.

Quando saímos, Leonardo comentou:

— Você poderia ter aceitado para fechar.

— E passar os próximos dezoito meses tentando explicar por que não conseguimos cumprir?

— Era um teste.

— Eu sei.

Ele sorriu.

As duas semanas seguintes foram consumidas por ajustes.

Advogados revisando cláusulas.

Financeiro validando garantias.

Operações confirmando cronograma.

Tecnologia detalhando responsabilidades.

Eu participava, mas não fazia tudo.

Pela primeira vez, conseguia sair de uma reunião sabendo que outras pessoas continuariam o trabalho sem depender de mim.

Isso me dava mais satisfação do que qualquer título.

Quando o contrato ficou praticamente pronto, Marcelo marcou a assinatura para a sexta-feira seguinte.

O documento seria físico e digital.

Nada de grande festa.

Nada de transmissão.

Apenas as equipes necessárias.

Na quinta-feira à noite, recebi a versão final.

Abri o arquivo.

Vi o valor.

R$ 1,8 bilhão.

Por alguns segundos, voltei mentalmente àquela sala em Belo Horizonte.

A caneta.

A mensagem.

Meu nome na lista.

O papel se rasgando.

Fechei os olhos.

Depois salvei o arquivo e desliguei o computador.

No dia seguinte, eu voltaria a ficar diante de um contrato com o mesmo valor.

Só que, desta vez, ninguém poderia me convencer de que minha vida dependia daquela assinatura.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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