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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

Depois que Rafael devolveu a chave, nossa relação entrou numa fase estranha. Já não éramos exatamente um casal vivendo junto, mas também não éramos duas pessoas que tinham desistido uma da outra.

Nos víamos duas ou três vezes por semana.

Às vezes para resolver alguma questão prática.

Às vezes apenas para jantar.

A diferença era que não havia mais a urgência de voltar ao normal.

O antigo normal tinha sido justamente o problema.

Certa noite, fui ao apartamento dele.

Rafael preparou macarrão.

Estava salgado demais.

Ele percebeu na primeira garfada.

— Ficou horrível.

Eu ri.

— Não está horrível.

— Você está separada de mim. Não precisa mais mentir para proteger meus sentimentos.

Eu ri ainda mais.

— Está salgado.

— Obrigado.

Ele empurrou o saleiro para longe.

Pequenas conversas como aquela começaram a existir novamente.

Sem peso.

Sem discussão.

Mas, quando o assunto importante aparecia, não fugíamos.

— Você ainda pensa no que aconteceu? — ele perguntou naquela noite.

— Sim.

— Todo dia?

— Não.

Ele ficou alguns segundos olhando para o prato.

— Eu penso.

— Por quê?

— Porque eu consigo lembrar exatamente do momento em que você disse que tinha visto minha mãe com seu cartão. E minha primeira reação não foi perguntar se você estava bem. Foi defender ela.

A observação era precisa.

Eu também lembrava.

— Você achou que eu estava atacando sua mãe.

— Sim.

— E não percebeu que eu estava falando sobre algo que vocês tinham feito.

Rafael assentiu.

— Eu cresci achando que qualquer crítica à minha mãe era ingratidão.

— Isso deve ter sido difícil para você.

Ele me olhou.

— Você não precisa me desculpar.

— Eu não estou desculpando. Estou entendendo.

Havia diferença.

Aprendi isso naquele período.

Compreender o motivo de alguém não significa aceitar a consequência.

Também não transforma erro em acerto.

Alguns dias depois, encontrei minha sogra por acaso no mercado.

Ela me viu perto da seção de frutas.

Por um instante, nós duas ficamos sem saber como agir.

Então ela se aproximou.

— Júlia.

— Oi.

— Como você está?

— Bem.

Ela assentiu.

— O Rafael disse que você ainda está no apartamento.

— Estou.

— Ele está aprendendo a cozinhar.

Sorri.

— Está tentando.

Minha sogra deu uma risada pequena.

— Quando morava comigo, nem sabia onde ficava o sal.

Quase respondi que isso explicava o macarrão.

Mas não quis abrir intimidade rápido demais.

Ela percebeu.

— Eu não vou perguntar quando você volta.

A frase me surpreendeu.

— Obrigada.

— Ele disse que eu estava fazendo isso toda hora.

— Estava.

— Eu sei.

Ela olhou para o carrinho.

— Eu estava com medo de você terminar com ele.

— Ainda pode acontecer.

Minha sogra respirou fundo.

— Eu sei.

Nenhuma acusação.

Nenhuma tentativa de me convencer.

Aquilo também era novo.

Nos despedimos ali.

Naquela noite, pensei muito sobre o que estava mudando.

Minha sogra havia perdido acesso ao dinheiro do filho.

Rafael havia saído da casa dela.

Eu havia saído do espaço onde me sentia invadida.

As finanças estavam organizadas.

Ninguém tentava entrar na minha conta.

O problema prático estava resolvido.

Mas casamento não é só problema prático.

Eu ainda precisava responder uma pergunta.

Eu queria reconstruir aquilo?

Ou apenas estava feliz porque as pessoas finalmente respeitavam um limite que deveriam ter respeitado desde o início?

A dúvida me acompanhou por dias.

Rafael não pressionou.

Isso, paradoxalmente, tornou a decisão mais difícil.

Se ele tivesse voltado aos velhos hábitos, eu saberia o que fazer.

Se tivesse me culpado, terminado.

Se minha sogra continuasse invadindo, terminado.

Mas os dois estavam mudando.

A questão deixou de ser “eles merecem uma segunda chance?” e passou a ser “eu ainda quero estar aqui?”

Essa pergunta não podia ser respondida por culpa.

Num domingo, Rafael e eu caminhamos num parque.

Depois de quase uma hora, sentamos num banco.

Ele me contou que estava juntando dinheiro para comprar um carro no ano seguinte.

— Sem pegar R$ 12 mil de ninguém?

— Sem pegar nem R$ 12.

Sorri.

— Excelente evolução.

Ele riu.

Depois ficou sério.

— Minha mãe confessou uma coisa.

Meu corpo ficou tenso imediatamente.

Rafael percebeu.

— Calma. Não é outro segredo.

Esperei.

— Ela disse que a ideia de usar seu bônus foi dela.

Não fiquei surpresa.

— Eu imaginei.

— Ela viu você comentando uma vez que tinha recebido um bônus bom. Depois viu o filho da vizinha com carro novo e começou a falar nisso comigo. Eu gostei da ideia e fui junto.

— Isso não muda muita coisa.

— Eu sei.

— Você aceitou.

— Aceitei.

Rafael olhou para as próprias mãos.

— Antes eu diria que fui influenciado.

— E agora?

— Agora eu digo que fui adulto suficiente para aceitar e sou adulto suficiente para assumir.

Assenti.

Ali, uma dúvida antiga terminou.

Não havia um grande plano.

Não havia uma intenção secreta maior.

Minha sogra queria que o filho tivesse o carro.

Rafael queria o carro.

Os dois viram minha reserva como solução.

E escolheram agir antes de me perguntar porque sabiam que eu poderia dizer não.

Era simples.

Feio.

E real.

Quando voltamos a caminhar, Rafael perguntou:

— Você acha que consegue confiar em mim de novo?

Pensei antes de responder.

— Em algumas coisas, já confio mais do que há um mês.

— E no resto?

— Confiança não volta toda de uma vez.

— Eu sei.

— Mas existe outra pergunta.

Ele me olhou.

— Qual?

— Mesmo que eu consiga confiar de novo, eu preciso decidir se quero continuar casada.

Rafael parou de andar.

Não tentou argumentar.

Apenas assentiu.

— Certo.

— Você entende?

— Entendo.

A voz dele estava baixa.

— Eu passei semanas pensando em como provar que mudei. Só agora estou percebendo que você pode acreditar em mim e ainda assim escolher ir embora.

— Pode acontecer.

Ele respirou fundo.

— Isso dói.

— Eu sei.

— Mas é justo.

Continuamos andando.

No fim do parque, Rafael tocou levemente meu braço.

— Seja qual for sua decisão, eu quero que ela seja sua.

A frase parecia pequena.

Mas, para alguém que havia começado toda aquela história tentando usar meu dinheiro antes que eu pudesse dizer não, havia muito significado nela.

Naquela noite, voltei para casa e fiquei algum tempo olhando para a chave que ele havia devolvido semanas antes.

Não precisei mais escondê-la.

Não precisei escondê-la de ninguém.

E foi ali que percebi que a próxima decisão também não podia ser tomada com medo de magoar alguém.

Eu teria que escolher o que queria para a minha vida.

Mesmo que, desta vez, ninguém estivesse tentando escolher por mim.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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