Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

Rafael se mudou no início do mês seguinte.

Não houve cena dramática.

Nenhuma mala jogada no corredor.

Nenhuma ameaça.

Ele alugou um caminhão pequeno, levou as próprias coisas e ajudou minha sogra a reorganizar as contas que ficariam sob responsabilidade dela.

Continuava pagando parte de algumas despesas porque não queria deixá-la desamparada.

Mas agora o valor era definido.

Não ilimitado.

Não automático.

Quando minha sogra pedia alguma coisa fora do combinado, Rafael perguntava para quê.

No começo, ela interpretava qualquer pergunta como falta de amor.

Depois começou a perceber que ele não voltaria ao modelo antigo.

Um sábado, ele me convidou para ver o apartamento.

Aceitei.

Era pequeno, mas bem cuidado.

Havia uma mesa simples na sala, duas cadeiras e uma estante ainda quase vazia.

Na cozinha, potes etiquetados.

Sorri.

— Você etiquetou arroz?

— Eu não sabia onde estava nada.

— E resolveu virar almoxarifado?

Rafael riu.

Foi a primeira vez em muitas semanas que rimos juntos sem culpa.

Depois ficamos em silêncio.

A leveza desapareceu devagar.

Ele apontou para a mesa.

— Quer café?

— Quero.

Enquanto preparava, percebi que não havia nenhuma tentativa de me impressionar.

Nada de flores.

Nada de presente.

Nada de jantar sofisticado.

Aquilo era apenas a vida que ele estava tentando organizar.

Rafael colocou a xícara na minha frente.

— Minha mãe quer falar com você.

— Sobre o quê?

— Não sei exatamente.

— Você pediu?

— Não.

— Então por que está me contando?

— Porque ela me pediu seu número.

Eu levantei as sobrancelhas.

— Ela já tem.

— Eu sei.

Rafael sorriu de lado.

— Acho que estava pedindo autorização para ligar.

Aquilo, por si só, já era diferente.

Dois dias depois, minha sogra me ligou.

Perguntou se eu aceitava encontrá-la numa padaria perto do antigo apartamento.

Fui.

Ela chegou antes.

Estava usando a mesma bolsa de sempre e parecia menor sentada sozinha à mesa.

Não comecei a conversa.

Minha sogra mexeu no guardanapo.

— O Rafael disse que eu preciso pedir desculpas.

— A senhora só precisa pedir se quiser.

Ela levantou os olhos.

— Eu não acho que queria te roubar.

— Eu nunca disse que queria.

— Mas você me tratou como se eu fosse uma ladra.

— Eu tratei a senhora como alguém que mexeu na minha bolsa escondido e tentou entrar na minha conta.

Ela respirou fundo.

— Na minha cabeça, o dinheiro de vocês era dos dois.

— Então por que não me perguntou?

Minha sogra abriu a boca.

Parou.

A resposta demorou.

— Porque eu achei que você podia dizer não.

A sinceridade veio tão inesperadamente que eu quase não soube o que responder.

Ela continuou:

— E eu achava que, se o Rafael já estivesse com tudo encaminhado, você acabaria ajudando.

Ali estava o centro de tudo.

Não era falta de entendimento.

Era a decisão de contornar meu possível “não”.

— É exatamente isso que me machucou.

Ela abaixou o olhar.

— Eu sei.

— Sabe agora.

— Sim.

A palavra saiu baixa.

Minha sogra passou a mão sobre o guardanapo.

— Quando o Rafael era pequeno, eu controlava cada centavo. A gente passou dificuldade. Depois virou hábito. Quando ele começou a trabalhar, continuou me entregando o cartão. Eu achava normal.

— Mas eu não sou seu filho.

— Eu sei.

— E mesmo com ele, talvez não fosse saudável continuar assim.

Ela não respondeu.

Por alguns segundos, imaginei que a conversa acabaria ali.

Então ela disse:

— Eu sinto falta dele em casa.

A voz mudou.

Não era mais defensiva.

Era apenas triste.

— Imagino.

— A casa ficou muito vazia.

— Ele não deixou de ser seu filho.

— Eu sei.

Olhei para ela.

— A senhora não perdeu o Rafael porque ele aprendeu a colocar limite.

Minha sogra apertou os olhos.

— Parece que perdi.

— Talvez a senhora tenha perdido uma forma de controlar a vida dele.

Ela me olhou com dureza.

Mas não rebateu.

A conversa durou quase uma hora.

No final, ela disse:

— Eu não devia ter mexido na sua bolsa.

Esperei.

— Nem tentado entrar na sua conta.

Assenti.

— Obrigada por dizer isso.

— Você me perdoa?

A pergunta me pegou desprevenida.

— Eu consigo deixar de carregar raiva.

Ela franziu a testa.

— Isso não é a mesma coisa.

— Não.

— E o Rafael?

— O Rafael é outra questão.

Minha sogra entendeu.

Quando nos despedimos, não nos abraçamos.

Também não saímos inimigas.

Era suficiente.

Naquela noite, contei a Rafael sobre a conversa.

Ele ouviu sem interromper.

— Ela pediu desculpas?

— Pediu.

— De verdade?

— Acho que sim.

Ele soltou o ar devagar.

— Eu não achei que ela faria isso.

— Nem eu.

Rafael ficou pensativo.

— E você?

— Eu o quê?

— Mudou alguma coisa?

Eu sabia o que ele queria perguntar.

Se aquilo nos aproximava.

Se eu voltaria.

Se o casamento estava salvo.

Mas não queria responder por pressão.

— Mudou minha relação com ela.

— E comigo?

Olhei para Rafael.

— Você ainda está reconstruindo.

Ele assentiu.

Dessa vez, não discutiu.

Alguns dias depois, ele tomou outra decisão.

Abriu, com minha concordância, uma conta destinada apenas às despesas que ainda compartilhávamos.

Cada um depositaria a quantia combinada.

Nenhum de nós teria acesso à conta pessoal do outro.

Não era romântico.

Mas era claro.

E, naquele momento, clareza valia mais do que romantismo.

Na primeira vez que fomos pagar uma despesa juntos, Rafael abriu o aplicativo e mostrou a tela.

— Dá para pagar daqui.

Eu olhei.

— Dá.

Ele esperou.

— Pode fazer?

A pergunta era simples.

Quase banal.

Mas eu senti alguma coisa apertar dentro de mim.

Porque antes ele teria apenas feito.

— Pode.

Rafael concluiu o pagamento.

Guardou o celular.

— Eu sei que parece idiota perguntar.

— Não parece.

— Para mim ainda parece um pouco.

— Vai deixar de parecer.

Ele sorriu.

Quando saímos, caminhamos juntos até a esquina.

Ali, Rafael parou.

— Júlia.

— Oi.

— Eu quero continuar casado com você.

Fiquei quieta.

— Mas eu entendi que querer não obriga você a querer também.

Eu senti os olhos arderem.

Não chorei.

Rafael continuou:

— Então eu vou continuar arrumando minha vida mesmo se você decidir não voltar.

Aquela frase fez mais pelo respeito que eu ainda sentia por ele do que todas as desculpas anteriores.

Na porta do meu prédio, ele tirou do bolso uma chave.

Era a cópia antiga do apartamento que eu tinha dado a ele quando me mudei.

Estendeu na minha direção.

— Fiquei com isso.

Peguei.

— Eu não vou entrar na sua casa sem você me chamar.

Fechei a mão em torno da chave.

Rafael deu um passo para trás.

— Boa noite.

— Boa noite.

Subi sozinha.

Dentro do apartamento, coloquei a chave sobre a mesa.

E percebi que, pela primeira vez desde que tudo começou, alguém estava me devolvendo acesso em vez de tentar tomá-lo.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1