Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Rafael tirou os olhos do celular e ficou me encarando. — Como assim eu não preciso saber? A gente é casado, Júlia. — Exatamente por isso você pode me pedir quando precisar. Saber minha senha e entrar na minha conta sem falar comigo são duas coisas diferentes.
Ele se sentou na cama. — Eu nunca roubei um centavo seu. — Eu não falei em roubo. Falei em entrar na minha conta. E alguém tentou fazer isso hoje às 14h47 usando um aparelho que o banco não reconheceu.
A expressão dele mudou por um instante. Foi rápido, mas eu vi. — Você está dizendo que fui eu? — Estou dizendo que aconteceu. E também estou dizendo que ontem, às 3h17 da manhã, vi sua mãe abrindo minha bolsa e fotografando meu cartão.
Rafael ficou completamente imóvel. Depois passou a mão pelo rosto. — Minha mãe não faria nada contra você. — Eu não disse que ela faria. Eu disse o que vi.
Ele levantou da cama e começou a andar pelo quarto. — Então por que você ficou calada? — Porque eu queria saber o que aconteceria depois. Hoje alguém tentou entrar. E agora você acabou de me contar que também tentou usar a senha.
Rafael respirou fundo. — Tá bom. Eu tentei. — Para quê? — Eu precisava ver quanto dava para transferir. — Quanto? — Ainda não tinha decidido.
Fechei a revista. — Rafael, quanto? — Uns R$ 12 mil. Talvez um pouco menos. — Da minha conta? — Da nossa casa, Júlia. Do nosso dinheiro.
Eu senti uma pressão no peito, mas não levantei a voz. — Dinheiro que está numa conta em meu nome, onde entra meu salário. Você queria transferir R$ 12 mil sem me perguntar. — Eu ia falar com você.
— Depois? — perguntei. Ele não respondeu imediatamente, e aquela demora foi resposta suficiente.
Rafael se sentou novamente. — Minha mãe viu uma oportunidade de um carro seminovo. A entrada precisava ser paga logo. Eu estava pensando em trocar de carro fazia tempo. — Então a conversa do filho da vizinha no almoço não era por acaso.
Ele desviou o olhar. — Minha mãe só comentou. — E fotografou meu cartão às três da manhã por coincidência também? — Não exagera.
Fiquei de pé. — Não estou exagerando. Estou colocando as coisas na ordem certa. Sua mãe abriu minha bolsa enquanto eu dormia, fotografou meu cartão, alguém tentou entrar na minha conta usando outro aparelho e você admite que queria tirar cerca de R$ 12 mil de lá.
A porta do quarto abriu. Minha sogra estava do outro lado. Ela provavelmente ouvira parte da conversa. — Que história é essa de falar como se a gente fosse ladrão?
Rafael fechou os olhos por um momento. Eu olhei diretamente para ela. — A senhora mexeu na minha bolsa ontem à noite? — Mexi. — Fotografou meu cartão? — Fotografei. Pelo menos ela não tentou negar.
— Por quê? — perguntei. Minha sogra cruzou os braços. — Porque meu filho falou que estava vendo um carro e talvez precisasse dos dados da conta. Vocês são marido e mulher. Eu não imaginei que isso fosse virar um escândalo.
Senti algo dentro de mim esfriar. Não era mais medo. Nem choque. Era clareza. — O problema não é o carro. O problema é vocês dois decidirem primeiro e imaginarem que eu vou descobrir depois.
Rafael tentou interromper. — Júlia… — Não. Agora você vai me ouvir. Eu já paguei mais de uma conta desta casa sem reclamar. Nunca fiz questão de cada centavo. Mas isso não significa que meu salário esteja disponível para vocês movimentarem escondido.
Minha sogra balançou a cabeça. — Família que vive contando dinheiro acaba mal. — Família que mexe na conta dos outros escondido também — respondi.
O rosto dela endureceu. — Eu só queria ajudar meu filho. — Então ajude com o seu dinheiro. O meu precisa da minha autorização.
Rafael se levantou. — Chega. Ninguém tirou nada. — Porque eu troquei a senha — respondi. O quarto ficou quieto.
Ele olhou para mim de um jeito que eu nunca tinha visto. Havia irritação, vergonha e alguma coisa parecida com medo. — Você está dizendo que agora não confia em mim? — Estou dizendo que hoje descobri que eu tinha motivos para não confiar.
Minha sogra saiu resmungando. Rafael permaneceu parado diante de mim. Eu peguei meu celular e ativei a opção de encerrar todas as sessões bancárias abertas em outros aparelhos. Depois reduzi temporariamente meus limites de transferência.
— O que você está fazendo? — ele perguntou. — Garantindo que ninguém entre na minha conta sem minha autorização.
Rafael soltou uma risada curta, sem humor. — Então é isso? Agora cada um cuida do seu e pronto? — Não. Agora cada um respeita o que é do outro. Depois a gente conversa sobre o que realmente é nosso.
Ele ficou em silêncio. Eu coloquei o celular na mesa de cabeceira e disse: — Segunda-feira vou ao banco. Quero trocar tudo o que precisar ser trocado.
Rafael me encarou. — Você está transformando isso numa coisa enorme. — Não fui eu quem levantou às três da manhã para fotografar um cartão escondido.
Ele abriu a boca, mas não respondeu. Pela primeira vez desde que aquela conversa começara, senti que a raiva estava deixando lugar a outra coisa: a percepção de que eu não pretendia fingir que nada tinha acontecido.
Antes de apagar a luz, olhei para ele e perguntei: — Foi você quem deu minha senha para sua mãe?
Rafael demorou tanto para responder que eu já sabia a verdade antes de ouvi-la. — Foi.
Naquela noite, não consegui mais olhar para o nosso aniversário de casamento da mesma maneira.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 3 👇📖

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1