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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Nos dias seguintes, a casa ficou estranhamente organizada e emocionalmente sufocante. Ninguém gritava. Ninguém batia portas. Ainda assim, cada refeição parecia acontecer sobre uma mesa cheia de coisas que ninguém queria tocar.

Minha sogra começou a falar comigo apenas o necessário.

Se eu perguntava onde estava alguma panela, ela respondia.

Se eu avisava que chegaria tarde, ela assentia.

Mas qualquer assunto relacionado a dinheiro vinha acompanhado de uma pequena indireta.

— Na minha época, marido e mulher não faziam conta de tudo.

Ou:

— Família que começa a dividir demais acaba dividindo até sentimento.

Nas primeiras vezes, eu respondia.

Depois parei.

Não havia utilidade em transformar toda frase num debate.

Eu já tinha deixado meu limite claro.

Agora precisava agir de acordo com ele.

Rafael analisou a planilha que eu havia feito e, depois de dois dias, concordou com uma divisão proporcional das despesas. Eu ganhava mais, então continuaria contribuindo com uma parcela maior. Isso não me incomodava.

O que mudou foi o método.

Transferíamos o valor combinado para uma conta destinada às despesas comuns.

O restante permanecia na conta pessoal de cada um.

Rafael aceitou, mas de má vontade.

— Parece que eu preciso pedir autorização para respirar.

— Você precisa pedir autorização para gastar dinheiro que não é seu.

— No casamento, isso não devia ser tão separado.

— Então me mostra por que só o meu dinheiro estava disponível sem consulta.

Ele não respondeu.

Na quinta-feira, cheguei em casa e encontrei um folder de uma loja de carros sobre a mesa.

Não precisei perguntar.

Rafael apareceu na cozinha poucos minutos depois.

— O vendedor segurou aquele carro até amanhã.

Lavei as mãos.

— E?

— Eu dei um sinal.

Virei para ele.

— Quanto?

— R$ 2 mil.

— Do seu dinheiro?

— Sim.

— Então a decisão é sua.

Ele pareceu surpreso com a calma.

— Se eu não completar a entrada, posso perder o sinal.

— Você sabia disso antes de pagar.

Rafael apertou a mandíbula.

— Júlia, não precisa ser assim.

— Assim como?

— Você sabe que eu não consigo completar a entrada sozinho agora.

— Eu sei.

— Então por que está agindo como se não tivesse nada a ver com você?

Peguei um copo de água.

— Porque você assumiu um compromisso financeiro sem falar comigo esperando que, depois, eu me sentisse obrigada a salvar a decisão.

Ele não gostou.

— Eu não estou te obrigando.

— Está tentando me colocar diante de uma perda para que eu pague por medo de você perder os R$ 2 mil.

Rafael ficou calado.

Dessa vez, até ele percebeu.

Minha sogra apareceu na porta.

— Se você emprestar o dinheiro, ele devolve.

Olhei para ela.

— Não vou emprestar.

— Nem para o seu marido?

— Principalmente se a compra começou com vocês tentando entrar na minha conta escondido.

O rosto dela endureceu.

— Você não consegue esquecer nada?

— Faz menos de uma semana.

Ela bateu o pano de prato sobre a bancada.

— Rafael trabalha. Não está pedindo esmola.

— Então ele pode comprar quando tiver o valor.

— Você tem dinheiro parado.

A frase saiu antes que ela pudesse disfarçar.

Eu apoiei o copo devagar.

— Como a senhora sabe quanto eu tenho?

Minha sogra abriu a boca.

Depois fechou.

Rafael interveio rapidamente:

— Ela sabe mais ou menos quanto você ganha.

— Não foi isso que ela disse.

Minha sogra levantou o queixo.

— Eu vi uma vez quando você deixou o aplicativo aberto.

Eu não sabia se era verdade.

E não precisava descobrir naquele momento.

A questão importante era outra.

— Meu saldo não é argumento para a senhora decidir onde eu devo gastar.

Ela riu sem humor.

— Você fala como se fosse dona de uma fortuna.

— Não. Eu falo como dona da minha conta.

Saí da cozinha.

Rafael veio atrás.

No quarto, fechou a porta com força suficiente para mostrar irritação, mas não para bater.

— Você podia evitar falar com minha mãe desse jeito.

— E você podia ter evitado colocar sua mãe dentro da nossa vida financeira.

— Ela mora aqui.

— E é exatamente por isso que precisamos de limites.

Ele passou as mãos pelos cabelos.

— Eu não vou expulsar minha mãe.

— Eu nunca pedi isso.

— Mas é isso que você quer.

— Não. O que eu quero é não ter que trancar bolsa, trocar senha e vigiar aplicativo dentro de casa.

A frase saiu mais cansada do que agressiva.

Talvez Rafael tenha percebido.

Sentou-se na cama.

— Eu vou perder o sinal do carro.

— Eu sinto muito.

— Só isso?

— O que você quer que eu faça? Que eu pague R$ 12 mil para você não perder R$ 2 mil?

Ele abaixou a cabeça.

— Quando você coloca assim…

— É exatamente assim.

No dia seguinte, Rafael voltou à loja e tentou renegociar. Conseguiu recuperar parte do sinal, mas perdeu R$ 600 pela reserva e pelos custos do processo.

Chegou em casa furioso.

Não comigo exatamente.

Com a situação.

Com ele mesmo.

Talvez com a mãe.

Durante o jantar, minha sogra perguntou:

— E o carro?

Rafael respondeu:

— Não vou comprar.

Ela largou o garfo.

— Por causa dela?

Eu olhei para ele.

Era um momento pequeno.

Mas importante.

Rafael podia apontar para mim.

Podia dizer que eu havia impedido.

Podia transformar a própria decisão precipitada em culpa minha.

Ele demorou alguns segundos.

— Não. Porque eu dei um sinal antes de ter o dinheiro necessário.

Minha sogra franziu o rosto.

— Mas se ela ajudasse…

— Mãe.

A voz dele veio mais firme.

— Chega.

Foi a primeira vez que o ouvi interrompê-la naquele assunto.

Minha sogra se levantou da mesa sem terminar a comida.

Entrou no quarto e fechou a porta.

Rafael continuou sentado.

Eu também.

Não comemorei.

Um único limite não apagava o que tinha acontecido.

Mas alguma coisa havia mudado.

Mais tarde, enquanto dobrávamos roupas, Rafael falou:

— Talvez eu realmente tenha me acostumado demais com a ideia de que você sempre resolveria.

— Eu resolvi muita coisa porque quis.

— Eu sei.

— O problema começa quando vocês esquecem essa parte.

Ele assentiu.

Ficamos alguns minutos em silêncio.

Então disse:

— Minha mãe acha que você está tentando me separar dela.

— Eu estou tentando separar nossa conta do controle dela.

Rafael deu um sorriso cansado.

— Para ela, é quase a mesma coisa.

— Então esse é um problema que você precisa resolver com ela.

Naquela noite, dormimos na mesma cama, mas ainda havia uma distância entre nós que não cabia em centímetros.

No sábado pela manhã, minha sogra deixou uma lista de compras sobre a mesa.

No fim da folha, havia alguns itens caros que não faziam parte das despesas habituais.

Rafael olhou.

— Mãe, isso não entra no orçamento deste mês.

— Sempre compramos.

— Então vamos precisar cortar outra coisa.

Ela apontou para mim.

— Pergunta para a Júlia. Ela tem dinheiro.

Rafael respirou fundo.

— Não vou perguntar.

Minha sogra ficou olhando para o filho.

— Você mudou muito rápido.

Ele respondeu baixo:

— Talvez eu só esteja começando a prestar atenção.

Ela saiu da cozinha sem dizer mais nada.

Eu não falei nada também.

Naquela tarde, Rafael foi jogar bola.

Fiquei sozinha no quarto e olhei em volta.

Minhas roupas.

Meus livros.

Meu computador.

A bolsa que eu agora guardava dentro do armário.

Percebi que, mesmo com pequenas mudanças, eu ainda vivia num lugar onde precisava calcular se minhas coisas estavam seguras.

Abri o celular.

Pesquisei apartamentos mobiliados para aluguel de curto prazo.

Não fechei nenhum contrato.

Ainda.

Mas salvei três opções.

Naquela noite, Rafael percebeu a página aberta no meu notebook.

— Você está pensando em sair daqui?

Fechei a tela devagar.

— Estou pensando em como seria viver num lugar onde eu não precise esconder meu cartão dentro do próprio quarto.

Ele ficou pálido.

— Júlia, isso já está indo longe demais.

Olhei para ele.

— Não. Acho que só agora eu estou entendendo até onde isso já tinha ido.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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