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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Quatro meses se passaram.

Meu trabalho temporário foi renovado por mais um período, e minhas finanças finalmente deixaram de parecer um incêndio prestes a consumir tudo. Eu ainda precisava economizar, controlar despesas e lidar com o financiamento do meu pequeno apartamento, mas já não acordava todas as manhãs fazendo contas desesperadas.

Essa mudança teve um efeito inesperado.

Eu pude pensar no apartamento do centro sem associá-lo apenas à necessidade de dinheiro.

E quanto mais pensava, mais percebia que queria vendê-lo.

Não por raiva de Lucas.

Não porque Nina morava lá.

Muito menos para provar alguma coisa.

Eu simplesmente não queria continuar ligada a um patrimônio que, desde o primeiro dia, carregava uma história que eu nunca escolhera.

Marquei uma reunião com Lucas.

Ele chegou sozinho.

Coloquei sobre a mesa as avaliações das imobiliárias e expliquei que pretendia anunciar o apartamento quando terminassem os seis meses previstos no contrato.

Lucas leu os documentos devagar.

— Tudo bem.

Eu esperava resistência.

— Só isso?

— O que você queria que eu dissesse?

— Não sei. Que a Nina está acostumada. Que mudar vai ser difícil. Que eu deveria reconsiderar.

Ele respirou fundo.

— Tudo isso é verdade. Mas não transforma o apartamento em meu.

Pela primeira vez, senti que estávamos conversando como dois adultos que tinham aprendido, tarde demais, o preço de ultrapassar limites.

Lucas contou que já começara a pesquisar imóveis para alugar perto da escola de Nina.

Isso me surpreendeu.

— Você já estava procurando?

— Desde que assinamos o contrato.

— Por quê?

— Porque eu sabia que seis meses significavam seis meses.

A resposta foi simples.

E talvez por isso tenha pesado tanto.

Durante nosso casamento, Lucas costumava agir como se tudo pudesse ser resolvido no último instante. Agora, pela primeira vez, ele parecia aceitar uma consequência antes que ela se tornasse emergência.

Nina reagiu de forma diferente quando soube da mudança.

— A Clara está mandando a gente embora?

Lucas me contou que essa havia sido a primeira pergunta dela.

Pedi que não respondesse sozinho.

No fim de semana, sentei-me com Nina na sala.

— Seu pai contou que vocês vão mudar?

Ela assentiu, emburrada.

— Você não quer a gente aqui.

— Não é isso.

— Então por que vai vender?

Olhei ao redor.

Havia desenhos presos na geladeira, brinquedos no canto, marcas de uma vida que não era minha.

— Porque este apartamento é uma coisa que pertence a mim, mas eu não quero mais ter. Às vezes, a gente pode gostar de pessoas e ainda assim decidir o que fazer com as nossas próprias coisas.

Nina franziu a testa.

— Você gosta de mim?

— Gosto.

— Mesmo vendendo?

— Mesmo vendendo.

Ela demorou um pouco para aceitar.

Então fez outra pergunta.

— Posso te visitar na sua casa?

Dessa vez, fui eu quem precisou pensar.

Até então, todas as nossas conversas aconteciam no apartamento de Lucas, em terreno conhecido para Nina.

Levá-la ao meu espaço parecia um passo diferente.

— Um dia, talvez.

Ela sorriu.

Não exigiu promessa.

Aquilo me fez perceber o quanto também estava mudando.

As visitas continuaram.

Eu descobri que Nina gostava de histórias antes de dormir, que odiava banana amassada, que sempre separava peças azuis dos brinquedos antes de começar qualquer construção e que fazia perguntas demais quando percebia que um adulto tentava fugir de um assunto.

Ela também começou a me conhecer.

Soube que eu tomava café sem açúcar.

Que não gostava de televisão ligada sem ninguém assistir.

Que eu ficava impaciente quando procurava alguma coisa e não encontrava.

A relação entre nós deixou de ser uma história inventada por Lucas.

Passou a ser algo real, embora menor e muito mais simples.

Uma amizade improvável entre uma mulher de trinta e poucos anos e uma criança que a conhecera chamando-a de mãe.

Enquanto isso, Lucas e eu mantínhamos certa distância.

Falávamos sobre o imóvel, sobre Nina quando necessário e pouco além disso.

Até que, certa noite, depois de deixar Nina com Dona Neide, ele me perguntou:

— Você se arrepende de ter voltado ao apartamento?

A pergunta me pegou desprevenida.

Pensei antes de responder.

— No primeiro dia, sim.

— E agora?

Olhei pela janela.

— Agora acho que teria sido pior nunca saber.

Ele assentiu.

— Eu também.

Não perguntei do que exatamente ele falava.

Talvez do apartamento.

Talvez da mentira.

Talvez de nós dois.

Algumas respostas não precisavam ser abertas naquele momento.

Quando o sexto mês chegou, Lucas já tinha encontrado outro apartamento.

Era menor, a quinze minutos da escola de Nina e dentro de um valor que ele conseguia pagar sem dificuldade.

Fui conhecer o lugar apenas porque Nina insistiu.

Ela correu de um cômodo a outro mostrando onde ficaria sua cama, onde colocaria os brinquedos e qual parede queria encher de desenhos.

Não parecia uma criança sendo arrancada de casa.

Parecia uma criança começando a imaginar outra.

Aquilo aliviou uma culpa que eu não admitia sentir.

Na saída, Lucas parou ao meu lado.

— Obrigado por ter dado tempo.

— Eu dei tempo para a Nina.

— Eu sei.

— E um pouco para você também.

Ele sorriu de leve.

— Eu sei disso também.

Na semana seguinte, assinei a autorização para a imobiliária começar a anunciar o apartamento.

Quando a caneta deixou o papel, percebi que não senti raiva.

Senti apenas que uma porta que permanecera aberta durante seis anos finalmente começava a se fechar do jeito certo.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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