Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Alguns meses depois, Nina completou seis anos.

A comemoração seria pequena, apenas com algumas crianças da escola, familiares próximos de Lucas e Dona Neide. Quando recebi o convite, meu nome estava escrito à mão na parte de baixo.

“Para minha Clara.”

Guardei o papel.

No dia da festa, cheguei um pouco depois do horário marcado.

Nina correu até mim usando um vestido amarelo.

— Você veio!

— Eu disse que viria.

Ela me abraçou.

Lucas apareceu logo atrás.

— Obrigado por vir.

— Eu vim por ela.

Ele sorriu.

— Eu sei.

A tarde passou sem tensão.

Não havia mais aquela sensação de que qualquer encontro entre mim e Lucas precisava carregar um significado escondido.

Conversávamos quando necessário.

Ríamos de algumas coisas.

Depois seguíamos caminhos diferentes pela sala.

Era simples.

E justamente por isso funcionava.

Depois do parabéns, Nina me puxou para o quarto.

Havia presentes sobre a cama.

Ela fechou a porta com solenidade.

— Quero perguntar uma coisa.

— Essa cara está séria demais.

— É sério.

Sentei-me ao lado dela.

Nina mexeu nas próprias mãos.

— Você nunca vai ser minha mãe mesmo?

A pergunta doeu um pouco.

Não porque eu quisesse aquele título.

Mas porque sabia que, para ela, ainda existia alguma ausência por trás dele.

— Nina, você já sabe que eu não sou sua mãe biológica.

— Eu sei.

— E também sabe que eu não moro com você e seu pai.

— Sei.

— Então o que você quer dizer?

Ela olhou para mim.

— Se você pode ser mãe porque escolheu.

Respirei fundo.

Eu precisava ter cuidado.

Crianças merecem esperança, mas também merecem clareza.

— Existem famílias de muitos tipos — falei. — E existem pessoas que escolhem cuidar umas das outras. Mas eu não quero te prometer um nome só porque parece bonito.

Nina ficou quieta.

— Eu posso continuar sendo alguém que te ama, que conversa com você, que aparece quando pode e que torce por você. Isso é verdade.

— Mas não é mãe.

— Não exatamente.

Ela pensou.

— É melhor que mentira?

— Muito melhor.

Nina assentiu devagar.

Então encostou a cabeça no meu ombro.

— Está bom.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Depois ela perguntou:

— Posso continuar falando “minha Clara”?

Sorri.

— Pode.

Quando voltamos para a sala, Lucas percebeu que havíamos conversado sobre alguma coisa.

Esperou até o fim da festa.

Depois que os convidados foram embora, perguntou:

— Está tudo bem?

— Está.

— O que ela perguntou?

Contei.

Lucas ficou em silêncio por um tempo.

— Sinto muito por ter colocado isso na cabeça dela.

— Você colocou no começo.

Ele me olhou.

— E depois?

— Depois nós dois tivemos a chance de mostrar outra coisa.

Ele assentiu.

— Obrigado.

Eu quase respondi automaticamente que não tinha feito por ele.

Mas não precisava repetir.

Ele já sabia.

Aquela história nunca terminaria com Lucas pagando por todos os erros de forma dramática.

A consequência dele tinha sido mais cotidiana.

Precisou explicar uma mentira para a filha.

Precisou deixar uma casa que não era sua.

Precisou aceitar que meu perdão parcial não significava reconciliação.

Precisou aprender a pedir em vez de tomar.

E, acima de tudo, precisou entender que amar alguém não lhe dava o direito de decidir por essa pessoa.

Minhas consequências também existiram.

Eu precisei encarar um apartamento que passei anos evitando.

Precisei admitir que meu orgulho me havia impedido de conhecer um patrimônio que era meu.

Precisei separar Lucas da criança que não tinha culpa.

Precisei aprender que colocar limites não era o mesmo que fechar o coração.

Na semana seguinte, comecei uma pequena reforma no meu apartamento.

Nada luxuoso.

Pintei a sala.

Troquei algumas luminárias.

Comprei uma mesa nova.

Quando Nina veio me visitar, entrou e abriu os braços.

— Agora está mais sua cara ainda.

— E qual é a cara da minha casa agora?

Ela observou tudo com seriedade.

— Feliz.

Eu ri.

— Casa não fica feliz.

— Fica, sim.

Lucas chegou para buscá-la no fim da tarde.

Enquanto Nina colocava os sapatos, ele ficou perto da porta.

— Seu apartamento ficou bonito.

— Obrigada.

— Você parece bem aqui.

Olhei ao redor.

— Eu estou.

Ele sorriu.

Nina apareceu com a mochila.

— Vamos, pai.

Lucas abriu a porta.

Antes de sair, parou.

— Clara.

— Oi?

— Acho que finalmente entendi uma coisa.

Esperei.

— O apartamento que te dei nunca foi o que você precisava de mim.

Não respondi imediatamente.

— Não.

— Você precisava que eu respeitasse sua escolha.

— Exatamente.

Ele assentiu.

Não havia mais nada a acrescentar.

Depois que os dois foram embora, fui até a janela.

A cidade estava começando a acender as luzes do fim da tarde.

Pensei no dia em que fiquei diante de outra porta com uma chave antiga na mão.

Naquela manhã, eu acreditava que estava indo buscar dinheiro.

Encontrei uma criança.

Encontrei uma mentira.

Encontrei partes do passado que ainda precisavam ser resolvidas.

Mas, acima de tudo, encontrei a chance de perceber quanto eu tinha mudado.

Durante seis anos, achei que minha força estava em nunca voltar.

Depois descobri que força também podia ser voltar, olhar de frente e decidir conscientemente o que levar comigo e o que deixar para trás.

Eu não fiquei com o apartamento.

Não voltei para Lucas.

Não me tornei a mãe que ele inventou para Nina.

Mesmo assim, não saí daquela história de mãos vazias.

Fiquei com uma relação verdadeira com uma menina que aprendeu a me chamar pelo meu nome.

Fiquei com a tranquilidade de ter encerrado meu casamento sem continuar carregando raiva.

Fiquei com segurança financeira construída com escolhas cuidadosas.

E, principalmente, fiquei com a certeza de que ninguém mais decidiria por mim o lugar que eu deveria ocupar.

Fechei a janela quando a noite começou a cair.

Minha casa estava silenciosa.

Mas era um silêncio bom.

O silêncio de uma vida que não precisava mais fugir do passado.

Uma vida que, dali em diante, seria conduzida pelas minhas próprias decisões.

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