
PARTE 4
A primeira reunião para tratar dos bens aconteceu na semana seguinte. Não houve encontro entre mim e Caio. Cada advogado recebeu a mesma planilha, com descrição, data aproximada de aquisição e documentação disponível para os itens que realmente importavam. O objetivo não era provar superioridade, mas reduzir o espaço para discussões baseadas apenas em memória, orgulho ou conveniência.
Caio começou contestando quase tudo. Disse que o sofá deveria ser dele porque havia escolhido o modelo. Afirmou que a televisão lhe pertencia porque era ele quem mais a utilizava. Também tentou incluir como patrimônio comum peças compradas por mim antes do casamento, apenas porque tinham permanecido dentro da casa durante anos. O próprio advogado precisou lembrá-lo de que gostar, escolher ou usar um objeto não significava necessariamente tê-lo comprado.
Depois de dois dias de troca de informações, a lista ficou muito menor. Alguns bens eram claramente meus. Outros eram claramente dele. Um terceiro grupo havia sido adquirido durante o casamento e realmente precisava ser dividido ou compensado de maneira equilibrada. Aceitei sem resistência essa parte.
Quando Caio soube que eu não discutiria os itens verdadeiramente comuns, pareceu ainda mais frustrado. Ele esperava encontrar uma batalha em que pudesse se apresentar como vítima. Em vez disso, recebeu propostas objetivas. Poderia ficar com determinados móveis, eu ficaria com outros, e os valores seriam ajustados quando necessário.
A mãe dele ficou indignada ao saber que eu não devolveria toda a mobília da casa. — Aquilo estava lá enquanto vocês eram casados! — repetia. Caio tentou explicar a diferença entre os itens, mas ela se recusava a aceitar. Na cabeça dela, tudo o que entrara naquela casa tinha se tornado parte da família.
Foi então que Renata perguntou algo simples. — Mãe, você pagou por algum daqueles móveis? A mulher ficou ofendida. — Não precisa falar assim comigo. — Então por que está tratando como se fosse nosso?
A discussão terminou com a mãe trancando a porta do quarto. Caio permaneceu sentado à mesa pequena da cozinha, cercado por caixas. Ele já havia começado a procurar um apartamento para alugar, mas descobrira que manter sozinho o padrão de vida que tinha ao meu lado custava mais do que imaginava. Pela primeira vez, começou a fazer contas antes de tomar decisões.
Enquanto isso, eu voltei à casa acompanhada de duas pessoas da empresa responsável pela manutenção. Caminhar por aqueles cômodos vazios foi estranho. Ali estavam as marcas dos quadros retirados, os espaços onde antes havia armários e a sala onde tantas vezes eu permanecera em silêncio enquanto minha sogra opinava sobre minha vida. A ausência dos móveis tornou tudo maior e, ao mesmo tempo, mais leve.
Não pretendia deixar a casa vazia para sempre. Também não queria reconstruí-la exatamente como era. Aquele lugar tinha sido comprado por mim antes de Caio, mas durante anos passara a refletir as preferências dele e da família. Sofás escolhidos para receber parentes, uma mesa enorme porque minha sogra gostava de organizar almoços, quartos mantidos disponíveis para visitas que muitas vezes chegavam sem avisar.
Pedi apenas o necessário naquele primeiro momento. Uma cama nova, uma mesa menor, algumas cadeiras e cortinas. O restante poderia esperar. Não havia urgência em preencher todos os espaços.
Esse foi um dos primeiros momentos em que percebi o quanto meu casamento havia sido ocupado por coisas que eu não escolhera. Não apenas móveis. Horários, visitas, expectativas, comentários sobre filhos, comparações e decisões aparentemente pequenas tinham se acumulado até eu quase esquecer quais eram minhas próprias preferências.
Caio soube que eu voltara a morar na casa porque precisou buscar documentos pessoais que estavam separados para ele. O horário foi marcado, e um funcionário da empresa de armazenamento fez a entrega na entrada. Caio não teve autorização para entrar. Aquilo o atingiu de um jeito que nenhuma discussão jurídica havia conseguido.
Ele me mandou uma mensagem naquela noite. “Você realmente vai me tratar como um estranho depois de tantos anos?” Li duas vezes antes de responder. “Não como estranho. Como ex-marido. É diferente.”
Ele digitou por alguns minutos. Vi o indicador aparecer e desaparecer diversas vezes. No fim, enviou apenas: “Você mudou.”
Talvez ele tivesse razão, mas não da maneira que imaginava. Eu não havia me transformado de repente em outra pessoa. Só tinha parado de agir como se cada limite meu precisasse da aprovação dele.
Nos dias seguintes, a divisão dos bens avançou. Caio escolheu ficar com parte dos móveis comuns porque precisava mobiliar o apartamento que finalmente alugara. Eu concordei. Não queria que ele ficasse sem nada; queria apenas que assumisse a própria vida.
Quando assinamos, por intermédio dos advogados, o acordo sobre aquela etapa, outro caminho se fechou. Caio já não podia usar os móveis como motivo para manter contato permanente comigo. A casa continuava sendo minha, os bens estavam sendo resolvidos e as desculpas práticas para prolongar nossa antiga rotina diminuíam.
Foi então que a pressão começou a mudar de lugar. Sem poder exigir espaço de mim, Caio passou a receber cobranças justamente das pessoas que ele havia convidado para ocupar minha casa. A mãe queria saber quando visitaria o apartamento novo. Parentes perguntavam, em tom de brincadeira, se precisavam pedir autorização antes de escolher um quarto.
Caio parou de achar graça.
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