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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Renata respirou fundo e retomou a leitura. — “Por fim, retirei da casa todos os bens que eram exclusivamente meus e deixei separados, em local apropriado, os objetos que ainda precisam ser incluídos na divisão decorrente do casamento.” Ela precisou parar um instante antes da última frase. — “Qualquer retirada ou discussão daqui para frente deverá ser agendada por intermédio dos advogados.”

A mãe de Caio arrancou a folha das mãos da filha. — Quer dizer que ela levou tudo? Caio não respondeu imediatamente. Pela primeira vez naquela manhã, parecia compreender que a casa vazia não era uma provocação improvisada, mas o resultado de uma decisão preparada com antecedência.

Renata olhou para o celular. — Já passaram quase dez minutos. A mãe ainda queria discutir, mas Caio segurou seu braço. — Vamos embora. A maneira como ele disse aquilo não tinha mais nada da confiança com que chegara.

Os três saíram carregando as malas que nem sequer tinham conseguido abrir. Do lado de fora, vários parentes já estavam entrando nos carros sem olhar para trás. Ninguém falava mais sobre quartos, sala ou mudança. Caio ficou diante do portão por alguns segundos, olhando para a casa como se ainda esperasse descobrir algum erro.

Seu primeiro impulso foi ligar para mim. Meu celular tocou quando eu ainda estava sentada à mesa tomando café. Vi o nome dele na tela e deixei chamar até parar. Poucos segundos depois, ele tentou novamente.

Na terceira tentativa, atendi. — O que você fez com a casa? — foi a primeira coisa que ele perguntou. Não havia cumprimento nem tentativa de manter a calma. — Fiz exatamente o que estava escrito na carta — respondi.

— Você não podia simplesmente esvaziar tudo! — ele gritou. Eu mantive a voz baixa. — Os bens exclusivamente meus foram retirados, e os bens que precisam ser divididos estão guardados e inventariados. Seu advogado pode falar com o meu.

Ele ficou em silêncio por um instante. — E eu vou morar onde? A pergunta me surpreendeu mais pelo absurdo do que pelo tom. — Caio, onde você vai morar deixou de ser uma decisão minha ontem, quando assinamos o divórcio.

Ouvi sua respiração pesada do outro lado. — Você planejou isso. — Planejei proteger aquilo que é meu — corrigi. — São coisas diferentes.

Ele tentou falar da família, da mãe e das malas, como se a presença de todos ali me obrigasse a reconsiderar. Respondi que ninguém havia sido convidado por mim. Também lembrei que a autorização para entrar na propriedade tinha terminado. — Não volte sem agendamento, Caio.

Foi a primeira vez desde o início da separação que ele pareceu não saber o que dizer. Durante meses, ele falara como se todas as consequências recaíssem apenas sobre mim. Eu perderia o casamento, o marido e a família dele. Ele, em sua cabeça, perderia apenas uma esposa que julgava inadequada.

Naquela manhã, a realidade começou a mudar de direção. Caio percebeu que o divórcio também tinha retirado dele privilégios que nunca haviam sido direitos. A casa era apenas o primeiro e mais visível deles. A liberdade para entrar, mandar, convidar parentes e decidir sobre um patrimônio meu havia terminado junto com o casamento.

Antes de desligar, ele ainda tentou uma última vez. — Helena, pelo menos deixa minha mãe ficar aí por alguns dias. — Não — respondi. Não havia raiva na minha voz, apenas uma decisão que não estava aberta à negociação.

— Então acabou assim? — ele perguntou. Olhei pela janela do apartamento provisório onde eu estava ficando enquanto reorganizava minha vida. — O casamento acabou ontem. O que começa agora é cada um assumir as consequências das próprias escolhas.

Desliguei antes que ele transformasse a conversa em outra discussão. Em seguida, enviei uma mensagem curta informando que qualquer assunto sobre bens seria tratado por escrito. Pela primeira vez em muitos anos, eu não precisava explicar demais para ser levada a sério. Um limite havia sido estabelecido, e eu pretendia mantê-lo.

Na calçada diante da antiga casa, Caio guardou o celular sem contar à mãe tudo o que eu havia dito. Ele apenas colocou as malas no porta-malas e pediu que todos entrassem. O problema já não era convencer a família de que a casa seria deles. Agora ele precisava explicar por que prometera uma vida que nunca teve condições de oferecer.

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